Carla viveu 13 anos em função da profissão de Fernando. Com o fim da carreira nos relvados, a vida seria finalmente aquilo que nunca fora: normal.
Carla Rufino tinha apenas 20 anos quando casou com Fernando Mendes, então uma das maiores promessas do futebol português, considerado um defesa de eleição, difícil de ultrapassar e tecnicamente evoluído. As capacidades dentro das quatro linhas levaram-no a servir os três grandes clubes nacionais – um feito ao alcance de poucos - e talvez não tenha construído a carreira numa só equipa devido ao temperamento intempestivo. A mulher abdicou dos estudos para o acompanhar nessas viagens de Norte a Sul, apoiando-o sempre a 100 por cento, uma atitude que faz questão de continuar a ter, principalmente hoje, depois do abandono dos relvados. “Não imaginava que fosse assim tão violento colocar um ponto final no futebol. A mudança do estilo de vida deixa os jogadores psicologicamente arrasados. Para eles, mais do que para a própria família, é muito complicado abandonar a carreira que sempre tiveram, especialmente porque desde muito novos se entregaram de corpo e alma a essa actividade”.
Carla sabe do que fala. Em nove dos 13 anos de vida em comum conheceu por dentro os meandros do futebol ao mais alto nível e também ela sente que uma etapa importante ficou para trás. “Quando a carreira deles acaba fica-se com a sensação de que a vida é um buraco sem fundo, que tudo girava à volta do desporto e que a próxima etapa é um imenso vazio”, confessa. O facto de não terem feito planos para o futuro ajudou a pensar assim, embora Carla Mendes tenha de imediato posto mãos à obra para tentar contruir uma nova etapa. O curso e o mestrado em Marketing, assim como o curso de Pintura, concluídos enquanto Fernando dava toques na bola e impedia os jogadores rivais de marcarem golos às equipas que representava, ajudaram-na a pensar numa solução e, dividida, pouco depois estava a trabalhar com o pai, um reputado industrial do Montijo.
Mas Carla não esquece as dificuldades iniciais, em especial quando saía de casa de manhã, para levar as duas filhas ao colégio e ir para o trabalho, e via o marido deitado na cama. “Aquelas pequenas coisas que durante anos eram esporádicas passaram a ser permanentes e a adaptação a esses pormenores é mais complicada do que se possa pensar de antemão.”
RECOMEÇAR
Depois de uma primeira fase em que o único contributo que podia dar ao marido era “apoio e comprensão”, a hoje empresária tratou de tentar ajudá-lo a encontrar um novo rumo para a sua vida, longe da restauração, área em que grande parte dos futebolistas apostam, “principalmente porque não tiveram oportunidade de estudar e, por isso, pensarem que não possuem capacidades para fazer outra coisa”. “Certo dia, peguei no carro e disse que queria ir com ele à Feira Internacional de Lisboa (FIL), onde estava a haver um salão dedicado ao ‘franchising’, uma área de negócio na qual queria apostar”. Parecia perfeito, até devido ao seu espírito empreendedor, mas existia ali uma pequena (e indispensável) mentira: Carla sabia, desde o início, que não seria ela a ficar à frente do estabelecimento, pois os afazeres profissionais impediam-na de se multiplicar por dois locais. Seria Fernando Mendes a comandar ‘o novo barco’, um estabelecimento comercial ligado ao ramo das limpezas a seco que se tem mostrado lucrativo, “mesmo quando nos primeiros tempos tudo aquilo dava ideia de ser demasiado complicado e pouco rentável”.
Ainda assim, Carla acrescenta ser preciso fazer privações quando a carreira de um futebolista termina e os milionários contratos deixam de ser uma realidade, revelando que as únicas saudades que tem do passado recente estão nos amigos que deixou no Porto, em especial das mulheres de outros futebolistas com quem teve uma relação mais próxima. Contudo, adianta que isso não paga os muitos dias de ausência de um pai quando estava em estágio ou tinha de ir jogar ao estrangeiro, situação que a levou a substituir por diversas vezes o papel de ‘chefe’ da família. “A Inês tem seis anos e é muito chegada ao pai, nunca sentiu isso de forma profunda. Mas a Sofia, que tem onze, sofreu bastante depois dele abandonar o futebol e até chegou a sentir revolta, pois antes podia dormir comigo (estávamos sozinhas). Quando o Fernando passou a ter uma vida ‘normal’, ela deixou de ter esse privilégio. Para ela foi muito estranho ter o pai em casa”.
Actualmente, a famíla vive dias felizes e tenta olhar a vida de uma forma diferente. Fernando Mendes continua a assistir a todos os encontros televisionados, nacionais ou estrangeiros, enquanto as mulheres da casa optam por passar ao lado do fenómeno desportivo. Terem sido obrigadas a respirarem futebol, durante mais de uma década, já lhes chegou e sobrou para o resto da vida.
O SILÊNCIO DE JORDÃO
De todas as histórias em redor de ex-futebolistas, uma das mais singulares envolve Jordão, avançado que se notabilizou ao serviço do Sporting. Quando abandonou os relvados, o jogador disse total adeus ao ‘desporto rei’, adiantando apenas que o fim da carreira seria também o culminar de um período da sua vida. Tal atitude é ainda hoje um caso isolado, dado que os ex-jogadores costumam ficar ligados ao futebol, quer seja ao nível das equipas séniores como às camadas mais jovens, ou enquanto comentadores desportivos. Jordão preferiu o silêncio e o afastamento. Hoje, nem entre os milhares de espectadores do novo Alvalade XXI é visto. Preferiu a pintura, e quem conhece os seus quadros diz que o talento de marcador de golos passou para esta arte tão nobre.
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