No dia 1 de Março, Cristina saiu de casa e nunca mais voltou. A família está destroçada. Mas este é apenas o primeiro passo rumo ao abismo emocional. O mesmo abismo em que vivem os pais de quem desapareceu há muitos anos.
A fotografia de Jorge Manuel permanece intacta em cima do aparador da sala. Sempre que passa por ela, Maria Manuela Sepúlveda olha com saudade a imagem do filho, cabelo fino, ar traquina, brincalhão. Passa a mão pelo retrato, faz-lhe uma festa, recorda as travessuras, as alegrias e as tristezas da criança desaparecida a 15 de Agosto de 1991, feriado negro para a família, hoje escondida do mundo numa casa nas entranhas da Serra de Sintra. “O meu filho fazia trinta por uma linha na escola mas em casa era muito bonzinho. Não aborrecia ninguém, andava sempre com um sorriso nos lábios”, recorda, saudosa daquele tempo em que a harmonia reinava no lar.
Manuel, como era simplesmente conhecido entre os seus pares, fugiu após uma tão pequena quanto madrugadora reprimenda da progenitora. Escapuliu-se pela varanda do quarto, levando apenas os calções de banho e a ‘t-shirt’, mais uma idêntica muda de roupa posta à pressa na mochila. Para trás ficaram os objectos adorados, incluindo uns ténis novos que lhe acentuavam a vaidade, daí Maria afirmar com absoluta certeza que o regresso estaria nos planos.
Mas algo de estranho se passou. Manuel aproveitou o calor e passeou pelo paredão de São Pedro do Estoril, com destino certo em mente: praia ou piscina do Tamariz. Avistado pela última vez por uma colega de escola que passava nessa zona balnear, partiu sem deixar rasto. Alguém lhe terá deitado a mão, raptado a troco de aliciamento fácil.
Ao pandemónio dos dias seguintes seguiu-se o desalinho emocional, um permanente aperto no coração. Sem notícias por parte da Polícia Judiciária, a quem hoje tece duras críticas, Maria arregaçou as mangas e encetou uma busca por sua conta e risco. Tentou tudo. Colocou fotografias nas estações de Metro, correu as esquadras, pediu auxílio aos escuteiros e aos Mormons, percorreu com o marido o lado mais obscuro da noite lisboeta, palmilhou becos e vielas, deu entrevistas para jornais e televisões.
No meio de toda a confusão ganhou apenas uma mão-cheia de falsas esperanças, desvanecidas num emaranhado de contactos infrutíferos. “Apesar das ajudas, nunca conseguimos nada, mas vi coisas que jamais na vida tinha sonhado existirem. Cheguei a ir aos contentores daquela zona onde hoje é o Parque das Nações. Não levei um tiro por sorte. Fiquei horrorizada”, lembra antes de confessar que no turbilhão citadino chegou a confundir o filho com outras crianças. Perde a conta às vezes em que Pedro, o marido sempre presente, parou o carro para verem se era mesmo o Manuel. Pura ilusão provocada pelo desnorte.
O insucesso das buscas abriu espaço ao desespero e a uma aparente resignação. Surgiram as fúrias, as angústias, as revoltas. Um desgaste atroz. Durante anos, Maria levantou-se e deitou-se a pensar no filho; se estaria bem, se precisaria de alguma coisa, se viveria de aflições. “As pessoas não imaginam o que passamos, nunca viveram nada assim. Há alturas em que nos sentimos completamente perdidos, chega um momento em que não temos a noção de nada. Por que é que eu hoje tenho 20 e tal quilos a mais do que naquela altura?”, questiona enquanto mostra uma foto sua tirada há largos anos, corpo perfeito, ar feliz. Depois avança: “Porque estou cheia de comprimidos, aos quais fui obrigada a recorrer para não cair no abismo. Não tinha outra hipótese.”
Quase 14 anos volvidos sob o desaparecimento do Manuel, a mãe acredita que o menino frágil está vivo, transformado num homem feito. “Deve saber mais de mim do que eu dele, não tenho dúvida disso. Provavelmente estará ligado a uma dessas redes de pedofilia”, afiança sem pestanejar. E ninguém lhe tira da ideia que só não disse nada por receio de reprimendas. “Perdi a ilusão de o ter em casa. Bastava que me aparecesse e que eu pudesse saber dele pelo menos uma vez por mês, mesmo que ao telefone. Não queria mais nada.”
A DOR DE FILOMENA
Apesar de praticamente caídos no esquecimento, existiram outros casos sem solução anteriores ao de Jorge Manuel, entre os quais o de Tiago Francisco, desaparecido a 23 de Julho de 1987 no coração da Serra da Arrábida, para onde terá ido praticar espeleologia.
Por essa altura, a programação do horário nobre da televisão estatal, a reinar sozinha no audiovisual português, costumava ser interrompida para uma mensagem directa: “Desapareceu de casa dos seus pais no passado dia…” O anúncio, num fundo negro a augurar más notícias, vinha acompanhado dos contactos da PJ e incluía o aviso para que quem soubesse o paradeiro da pessoa em causa não hesitasse em telefonar.
Rui Pedro não pertence a esse tempo. Desapareceu de Lousada a 4 de Março de 1998, contava onze anos de uma meninice tranquila. Fez manchetes de jornais, abriu noticiários, tudo por culpa de Filomena Teixeira e Manuel Mendonça, que quando sentiram o mundo às avessas lutaram até à exaustão para encontrar o filho. O país comoveu-se com os seus depoimentos, identificou-se com aquele casal jovem, gente simples, bem sucedida no trabalho e no negócio, pais de uma outra menina mais nova.
Sete anos decorridos, o núcleo familiar não ruiu mas dá indícios de debilidade emocional. As tensões aconteceram graças a duas estratégias antagónicas, ambas sem resultados. Carlos apostou tudo na Judiciária, acatando os seus conselhos, enquanto o pai de Filomena, José Teixeira, optou por métodos paralelos, contratou detectives de duvidosa reputação que lhe foram sugando dinheiro a troco de vãs esperanças. Nada nem ninguém lhe tirava da cabeça a missão de encontrar o neto.
Passaram semanas, meses, anos, e apenas o estado de alerta de Filomena não cedeu. Quando o pai morreu, há pouco mais de um ano, a ‘mãe coragem’ que deu a conhecer o seu drama familiar ao país perdeu o principal aliado. Sentiu-se inundada por uma dor insuportável, fraquejou psicologicamente.
Internada num hospital psiquiátrico no Verão de 2004, passa actualmente ali três dias por semana, ocupada em actividades terapêuticas, distracções que a afastam da terrível realidade. “É uma mulher forte, trabalha, escreve crónicas semanais para o TVS (Terras do Vale do Sousa), mas a verdade é que se foi abaixo. Ainda hoje não adormece sem a fotografia do Rui Pedro nos braços”, refere Carlos com semblante carregado.
Ele, por sua vez, encontra no talho, na quinta repleta de animais e na filha Carina, preste a completar 16 anos, a terapia possível. Ainda não perdeu a esperança de descobrir o Rui Pedro, acredita que a PJ não o esqueceu, mas não tem a mesma condescendência para com o poder político, acusando-o de não ter disponibilizado todos os meios aos que se empenharam nas buscas. “Faço uma excepção a Bagão Félix, que me contacta regularmente, e a Margarida Uva, esposa de Durão Barroso, que sempre apoiou a minha mulher e ainda hoje segue de perto as dificuldades pelas quais agora passa”, ressalva.
ONDE PÁRA CLÁUDIA?
O endereço electrónico da Interpol transmite uma ínfima imagem do drama vivido por casais como Filomena e Manuel. Num total de 25 páginas perfilam-se as fotografias de duas centenas de crianças a quem ninguém põe a vista em cima.
São das mais diversas nacionalidades, do Brasil ao Azerbaijão, e não raras vezes apresentam o ar feliz de quem até àquela altura vivia em lares sem outros problemas que não as trivialidades do dia-a-dia. Além da ficha de Rui Pedro, encontram-se lá também as de Cláudia Sousa e Rui Correia.
Em Oleiros, concelho de Vila Verde, todos conhecem aquela imagem da menina e recordam a desgraça antiga. “Já foi há muito tempo, mas a dor e o vazio que estão cá dentro não passam”, desabafa Maria de Jesus Sousa, cuja existência fica embargada pelo trágico e estranho acontecimento. Quase onze anos após o fatídico 13 de Maio de 1994, mantém vivas as recordações dos momentos ligados ao desaparecimento da filha, que marcou a comunidade local.
De lá para cá, Maria de Jesus vive numa incerteza de cortar a respiração. Já acreditou em histórias passadas de boca em boca, já atravessou campos a pé, já estabeleceu uma série interminável de contactos. Tudo para se desenganar, esbarrando sempre em mais equívocos.
Doméstica, mora com o marido numa casa pequena, pobre, sozinhos porque uma outra filha casou e foi para novo lar. Numa luta interior entre o que a razão lhe sussurra e o que o coração não quer ouvir, mantém uma réstia de optimismo, acredita que a morte não bateu à porta da sua flor, sublinhando que Cláudia “está em algum lado”.
É pelo menos essa a mensagem enviada por mezinhas e contactos com o oculto, aos quais recorreu em desespero de causa. “Todas as bruxas me disseram que ela está viva e que um dia haveria de me vir visitar. Mas até hoje nada”, conta visivelmente desiludida e descrente quanto a um final feliz para a triste novela da sua vida, ainda que sublinhe: “A esperança nunca morre”, assim como a memória e as mágoas de uma mãe que “não mede o amor a um filho.”
Da obscuridade do mundo das trevas continua a não aparecer a chave para o enigma: o que aconteceu a Cláudia? Tudo indica ter sido levada por dois homens, obrigada a entrar à força num carro, partindo rumo a parte incerta. Quem terá feito tamanha maldade? Existem várias teses, desde uma prima enciumada que terá encontrado na menina a filha nunca gerada à vingança da comunidade cigana em rota de colisão com as gentes de Oleiros. Mas disso, como de outras lendas, não falam as bruxas.
SEIS ANOS DE TORMENTO
"Tenho dentro de mim uma ferida que está sempre aberta, e não há maneira de estancar a dor.” Tem sido assim que, nos últimos seis anos, Laurinda Correia define o seu estado de alma. Com a tristeza estampada no olhar, fala de Rui Manuel Pereira, desaparecido a 2 de Março de 1999, em Famalicão, como se a esperança morresse. “Que é que eu posso dizer? Já lá vão seis anos e nem sinal do paradeiro do meu filho. Sem saber se está vivo, se está morto, nada. Nem sei como temos aguentado tanta dor, tanto sofrimento”, disse no dia em que passavam seis anos sobre o desaparecimento do miúdo.
Joaquim Martins, o marido, explica que em casa todos – ele, a mulher e dois filhos – tentam evitar o assunto. Mas é um jogo familiar perdido. Quando ao final de mais um dia se juntam à mesa para o repasto que se desejava tranquilo, o lugar vazio deixado por Rui não dá hipóteses de esquecimento. “Como o pensamento não sai dali, a páginas tantas lá estamos nós outra vez no mesmo. Ninguém queira passar por isto. Não deve haver nada pior”, acentua Joaquim com ar cansado e mãos calejadas, porque a vida é dura e não perdoa.
Sempre atencioso, mas sem vontade de revelar o seu estado de alma, o homem a quem a desgraça bateu à porta sublinha: “Às vezes o que vale é trabalhar de sol a sol, senão dava em doido”.
Apesar de atravessarem seis anos de tormento, tanto os Correia como os vizinhos que vivem naquela aberração arquitectónica que é o edifício das Lameiras, espécie de presídio com portas habitado por 250 famílias, acreditam que o Rui possa estar vivo. E é por isso que continuam a aceitar falar, sempre com o olhar fixo no retrato do petiz.
Como se toda a dor do desaparecimento não fosse suficiente, a viagem a um mundo desconhecido deu-lhes a conhecer a palavra pedofilia, que já tinham ouvido pronunciar mas à qual nunca tinham dado grande importância. “Que Deus me perdoe mas, sinceramente, preferia ver o meu filho morto do que descobrir que mo roubaram para o usarem numa rede de pedofilia”, dispara, inconsolável, Laurinda, perante a concordância do marido. Já basta a amargura e o nó no estômago por não saberem onde está o Rui. Continuam com as vidas suspensas. Até quando?
UMA HISTÓRIA ESTRANHA
O mais recente desaparecimento de um menor está envolto num mistério sem precedentes. Cristina Castro, 14 anos, foi vista pela última vez no dia 1 de Março, em Vila Fresca de Azeitão, concelho de Setúbal. Desde então, família, colegas e amigos não sabem do seu paradeiro.
Ao Correio da Manhã, os pais descrevem-na como uma menina calma, habituada a uma existência que se limita ao caminho entre a casa e a escola, e afiançam que terá sido raptada por alguém que lhes quer mal. Contactado na passada quarta-feira pela Domingo Magazine, Márcio Castro, um dos quatro irmãos da miúda, adianta: “Neste momento, não sabemos de mais nada. A história é muito estranha e parece-me que isto é obra de alguém que tem raiva aos meus pais e quis vingança.”
As pistas também não ajudam. No dia em que sumiu, a adolescente terá sido avistada pela última vez por um homem, que garantiu à família ter observado Cristina ser levada à força num carro. Dias depois, uma carrinha abrandou perto da firma do clã Castro e alguém não identificado terá arremessado de lá de dentro uma série de folhas com “frases estranhas”, todas de conteúdo sexual.
Mas o enredo não acaba aí. Até há duas semanas foram feitos telefonemas e enviadas mensagens do telemóvel da jovem, através do qual um homem fez ameaças à família. Desde então não existe qualquer outro sinal ou pista sobre o possível paradeiro de Cristina.
À PROCURA DAS CRIANÇAS
Dias André, inspector chefe da secção de desaparecidos da Polícia Judiciária, acredita que muitos casos estão ligados ao contexto familiar ou a uma rebeldia própria da adolescência. “Existem situações em que os filhos, numa tentativa de contrariarem os pais, ameaçam com a fuga, que a acontecer na maior parte das vezes dura apenas um ou dois dias. Vão dar uma volta e acabam por arrepender-se.”
A questão complica-se quando o desaparecimento se dá devido a um aliciamento por parte de alguém exterior ao círculo no qual o menor se inseria, da família aos amigos e colegas de escola.
A passagem da fronteira agudiza o drama e diminui as hipóteses de resultados positivos, primeiro pela distância geográfica, depois porque a lei só permite um mandado e a captura internacional quando a pena em instância seja superior a três anos. “Há um desaparecimento, mas qual é o seu fim? A lei portuguesa, por exemplo, não prevê a imputação de uma pena pela venda de uma criança. Qualquer pessoa pode fazê-lo – desde que não seja para escravatura ou abuso – sem ser penalizada. É uma lacuna que nos restringe a actuação”, salienta o inspector.
Só na área de actuação da equipa de Dias André, entre Elvas e Santarém, foram tratados e investigados durante o ano passado cerca de 286 desaparecidos. Cinco continuam por encontrar, e só serão arquivados quando se der a localização do menor, morto ou vivo.
O responsável aceita as críticas recorrentes dos familiares de desaparecidos, adiantando que têm toda a legitimidade: “Quando não se sabe de um filho diz-se tudo. Isso é da natureza humana, até porque muitas pessoas acusam-nos de inoperância mas não sabem dos esforços que fazemos. Muitas chegam aqui noutro dia e pedem desculpa. A quante, em pânico e desespero, é sempre muito complicado gerir as emoções.”
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