Fernando Rosas procura explicar 48 anos de ditadura à luz da época que se vivia na Europa, atualmente em recuo democrático.
Escrever ‘Salazar e os Fascismos’ (edição Tinta da China) foi consequência da necessidade de explicar a ditadura portuguesa em contexto europeu a todos e também aos seus alunos - numa altura em que volta a sua sombra.
Escreve que o "fascismo não cai do céu aos trambolhões". Que condições são propícias atualmente a regimes fascistas?
O paralelismo com o período entre as duas guerras mundiais está ao nível das pré-condições: a crise do sistema como pano de fundo; a derrota da força que se podia opor ao fascismo, embora nós não tenhamos o equivalente funcional dessa derrota que foi a implosão do mundo de influência soviética, que arrasta uma crise do marxismo como teoria explicadora; a rendição do liberalismo - o que temos hoje é uma certa rendição da social-democracia e dos partidos que ao centro asseguravam a herança da Segunda Guerra ao neoliberalismo e à brutalidade da ofensiva neoliberal; o esgotamento do centro político e a radicalização à direita com a unificação das várias direitas. Se olhar para Espanha (e não só em Espanha) verifica que aquela separação higiénica entre a direita tradicional e o populismo de extrema-direita tende a desaparecer. O Vox pode vir a viabilizar um governo. Mas a história não se repete, o fascismo que venha aí não será igual.
Disse "o fascismo que venha aí", portanto há uma certeza de que vem aí qualquer coisa...
Sim, está a emergir na Europa um novo regime autoritário - caso da Hungria - que a si próprio se designa como iliberal, na realidade antiliberal, autoritário, com atitudes de perseguição à liberdade de imprensa, de revisão da separação de poderes. O fascismo, a História, não se repete porque as condições históricas do fascismo são particulares e deram origem a regimes particulares, mas há paralelismos. Vejam o [Matteo] Salvini, que está a tentar constituir uma internacional nacionalista, autoritária e em grande parte antidemocrática e, portanto, vem aí qualquer coisa, sim.
Que se repete em países que já tiveram a experiência do fascismo...
A experiência foi comum a quase toda a periferia europeia. Uma característica particular da atual crise é que não é só nos países periféricos: não poupa o centro, o norte e o noroeste da Europa, que não tiveram regimes fascistas.
Qual é a responsabilidade da classe média?
O medo e a insatisfação da classe média existem como nos anos 30. Quem elege o Trump é a ‘cintura da ferrugem’, é a classe operária despedida. O discurso da América ‘great again’ (grande outra vez) e contra o imigrante - antigamente eram os judeus - tem aceitação.
Podemos compreender os eleitores da ‘cintura da ferrugem’, o que eu pergunto é sobre a classe média instruída que não está em risco social ou económico...
Pergunta-me porque é que a elite da classe média é também vulnerável... É vulnerável porque acha que todos esses projetos que estão a incubar na nova direita são úteis à manutenção do seu estatuto social ameaçado pela crise. Exatamente como nos anos 30, as classes dominantes, as elites, os industriais, os agrários e boa parte dos intelectuais, acharam que o fascismo era uma solução interessante porque rebentou com o terrorismo do movimento operário e sindical, acabou com o parlamento e porque fez intervir o Estado na economia e, no caso da Alemanha, porque se lançou na expansão territorial, para realizar a Große Deutschland (Grande Alemanha). O cordão sanitário entre a direita tradicional e a direita nacionalista está a desaparecer. Em Itália e Espanha desapareceu e vamos ver o que vai acontecer em França quando a senhora Le Pen provavelmente ganhar as eleições europeias.
O que poderá acontecer?
Acho que parte da direita tradicional francesa vai aliar-se à senhora Le Pen. Não sei se isso se reflete muito na UE enquanto instituição, porque estes partidos quando chegam ao poder esbatem o discurso antieuropeu. Mas vai reforçar políticas de agressividade neoliberal na Europa, de austeridade, de congelamentos salariais, de equilíbrio orçamental estrito, de limitação da atividade sindical e de políticas de interferência no poder judicial e de limitações à liberdade de manifestação e de associação. Na Hungria isso é absolutamente claro; é muito difícil aceitar que seja hoje um país democrático.
Porque é que escreveu este livro?
Fui para História na tentativa de responder à grande interrogação da minha geração: como se explica uma ditadura de 48 anos? O livro vem da necessidade de explicar a ditadura salazarista em contexto europeu. Por outro lado, na cadeira de História dos Fascismos na Europa fui aprofundando e respondendo às perplexidades dos alunos. Devia-lhes um livro.
A sua perplexidade em relação à durabilidade do Estado Novo desapareceu?
Os 48 anos explicam-se pela arte de saber durar que o próprio Salazar teve, explica-se pela violência preventiva, o controlar alimentado a medo, alimentando a vaga ideia portuguesa do ‘não te metas na política’, ‘a minha política é o trabalho’, ‘deixa a política para os outros’. Havia instituições que organizavam esse medo de acordo com os nossos provérbios, que são todos de origem rural e conservadora: ‘de vagar se vai ao longe’, ‘o calado é que vence’, ‘mais vale um pássaro na mão do que dois a voar’.
Tem que ver com a natureza do português?
Se Mussolini não tem entrado na II Guerra Mundial, provavelmente tinha durado tanto tempo como Salazar.
Acha que se branqueia o regime de Oliveira Salazar?
Há um debate e há quem o branqueie e quem não o faça. Há uma polémica surda acerca da interpretação dos dados da memória. O que há, sobretudo, mas isso é geral, é a evacuação da memória. A criação do ambiente de presente contínuo. Isso tem efeitos políticos tremendos. Se os trabalhadores esquecerem que foi preciso haver rios de sangue para conquistar as oito horas de trabalho, mais depressa aceitam trabalhar dez ou doze.
Nasceu em 1946, como é que viveu a sua juventude em ditadura e o 25 de Abril?
Eu fui estudante universitário, o que era um privilégio absoluto. Mas a minha geração é de combate. Entrei com 15 anos para o Partido Comunista. Fui preso pela primeira vez aos 18, a segunda aos 21 ou 22 e na terceira vez, para não ser preso, passei à clandestinidade - casado e com um filho - na qual estava quando veio o 25 de Abril. Estive preso no Aljube, em Caxias e Peniche. No 25 de Abril, a dona da casa onde eu me abrigava veio acordar-me à cama. Estava em Linda-a-Velha e tinha uma 4L e, ao vir para Lisboa, subia o Tejo a canhoneira que supostamente deveria bombardear o Terreiro do Paço. A minha geração tinha um grande desafio pela frente que a politizava muito cedo, que era a Guerra Colonial. Na universidade, se nos portássemos bem, podíamos terminar o curso mas depois íamos para Mafra, para alferes, e depois para o mato. Só não iam para o mato os Rebelos de Sousa e os Freitas do Amaral porque eram de famílias importantes. Eu fui chamado para soldado raso porque tinha informação na polícia política mas não fui, desapareci.
Como viveu os anos do PREC?
Sei lá. Não se ia dormir a casa. Os militares abrem a panela de pressão e explode em torrente. O mundo ficou de pernas para o ar. Depois houve um processo de contenção programada: não acho que o 25 de Novembro tenha sido uma contrarrevolução. A revolução é a marca genética da democracia portuguesa e nisso distingue-se da espanhola. Não há nenhum partido da direita portuguesa que se reclame herdeiro do salazarismo. Em Espanha não é assim. Temos uma democracia que não foi oferecida. Lembro--me sempre daquela cena do Álvaro Cunhal a chegar de Paris e o Spínola a explicar que se havia de pensar numas associações que fossem partidos e do Cunhal responder: "Eu não estou a perceber bem porque no percurso para cá já vi cartazes de uns quarenta partidos."
Naquele seu percurso entre Linda-a-Velha e Lisboa, faz esta semana 45 anos, houve algum momento em que pensou: o fascismo acabou?
Há um momento desses, sim: quando o brigadeiro vem com os tanques da Cavalaria 7 na rua do Arsenal a mandar abrir fogo sobre os carros de combate do Salgueiro Maia e o alferes que comanda o carro recusa-se e é preso. E depois ele dá ordem ao cabo que está na torre para fazer fogo e ele não faz fogo e desobedece e parte da tripulação passa-se para o outro lado. Quando o Salgueiro Maia recebe ordens de ir para o Carmo, as pessoas já não vão a assistir, já vão penduradas em alguns tanques. A partir daí acabou.
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