Homem da rádio relata doença que levou ao internamento da mulher, com Alzheimer.
Há mais de dois anos que Fernando Correia, figura da rádio e do desporto nacionais, foi confrontado com o Alzheimer da mulher, Vera, mãe das suas três filhas mais novas. Conta tudo no livro ‘Piso 3, Quarto 313’ (Guerra & Paz), na esperança de ensinar familiares de outros doentes.
Houve algum momento em que tenha pensado em desistir de escrever o livro?
Primeiro, pensei não o escrever. Depois, comecei a escrevê-lo na terceira pessoa, porque o protagonista não devia ser eu. Infelizmente, é a Vera, minha companheira, que tem doença de Alzheimer. A meio da escrita, o editor disse-me: "Tem de ser mesmo na primeira pessoa." Tive que reunir as nossas três filhas e perguntar se consentiam.
Numa espécie de conselho de família?
Exatamente. "Se é para bem, se é para ajudar, claro que sim", responderam-me. E o editor garantiu-me que os leitores iriam entender que o objetivo é alertar para os perigos do Alzheimer e para quem não sabe lidar com os doentes. Eles sofrem, mas não sabem que estão a fazer sofrer.
Relata a evolução da doença e o internamento da Vera, mas também como se conheceram e a vida que tiveram até a doença se manifestar. Custou-lhe mais descrever os anos luminosos ou os anos sombrios?
A parte mais complicada é recordar aquilo que foi muito bom. Três filhas nasceram da ligação, que para mim era um oásis, pois estava traumatizado de duas relações anteriores, das quais tinha dois filhos. Recordar tempos bons – estou ligado à Vera há 43 anos, mas conheço-a há 51 anos –, é marcante. A parte da doença é factual e pragmática. É aquilo. Só tenho de cuidar dela, e cuidar bem.
Quando um médico lhe perguntou se estava conformado, respondeu que estava habituado...
Estou ao pé da Vera todos os dias, mas nunca me conformarei. Ninguém pode conformar-se perante a doença. Sendo todas más, esta é horrível, porque é a degeneração progressiva do cérebro. Não é explicável nem traduzível em palavras. Ninguém concebe o que é um cérebro vazio. A Vera passou quatro meses numa tentativa de recuperação cognitiva na Casa de Saúde das Irmãs Hospitaleiras. Não andava, não falava e não comia. Agora, no internamento de longa duração, para não dizer definitivo – é uma palavra muito dura e que não se deve usar, pois ninguém sabe o que pode evoluir na Medicina –, voltou a comer, ainda que não sozinha, dá uns passos amparada e faz gestos. No cérebro dela há algo inexplicável que a leva a ver, e a tentar agarrar, algo que não vejo. Habituei-me a estar ao pé dela, e sei que devo conversar como se estivesse bem.
Consegue esquecer, ainda que por meros instantes, aquilo que aconteceu?
Não me esqueço nunca. Ela às vezes, muito esporadicamente, sorri para mim. Esse é o meu momento de felicidade. Se ela sorri, sabe que está lá alguém que lhe quer bem. Quando me dizem que é o amor da minha vida, respondo que é muito mais. Tenho solidariedade e fraternidade para com outro ser humano que precisa de mim. São sentimentos superiores ao amor e à paixão. Ser fraterno mesmo, amigo mesmo, e solidário mesmo, é essencial. Muitas vezes só o descobrimos tarde demais.
Apercebeu-se, pelo convívio com outros internados, que há pessoas não recebem visitas...
Há muitos que me dizem: "O Fernando também é a nossa visita. Vem visitar a Verinha, e a nós também." Dão-me beijos e fazem-me festas.
Consegue entender os familiares que se esquecem de quem está internado?
Não. O ser humano foge das responsabilidades. Quantos pais, quantas mães, quantos filhos abandonam familiares em casas de saúde, hospitais e asilos? Para quê? Para viverem a vida sem consciência?
Visto que a evolução da doença foi muito gradual, consegue identifica o momento em que se apercebeu de que algo estava errado?
Ela começou muito cedo, antes dos 60 anos, a ter esquecimentos, a trocar palavras, a não saber muito bem onde estava... Coisas momentâneas. Foi a médicos, que pelos exames disseram que não era nada importante e lhe deram medicação para recuperar do que poderia ser senilidade precoce. Mas uma médica, a quarta a vê-la, não teve dúvidas de que era Alzheimer e explicou o que iria acontecer. Tive alguém a tomar conta dela de dia, pois tenho de trabalhar, e outra à noite. Levantava-se três, quatro, cinco vezes, e andava pela casa à procura de nada. Depois, começou a bater nessas pessoas e a tratá-las mal. Aconselharam-me uma consulta na Casa de Saúde das Irmãs Hospitaleiras, perto de Belas. O médico que a viu disse que a única solução era interná-la para tentar a recuperação cognitiva. Esteve lá quatro meses e não recuperou.
Tinha esperança de que ela voltasse a ser a mesma?
Toda a esperança do mundo, mas vi logo que iria ser muito complicado. Houve uma altura em que deixou de comer e teve de ser operada para lhe porem a sonda gástrica. Um dia, com o pragmatismo dos médicos, disseram-me não havia nada a fazer. Ou a tirava dali ou eles proporcionavam o internamento de longa duração no piso 3. Foi para o quarto 313, onde ainda está. A única coisa boa é que voltou a reconhecer alimentos e foi-me colocada a hipótese de lhe ser retirada a sonda. Embora não seja autónoma, come o que lhe dão. Tinha emagrecido trinta e tal quilos e está a recuperar lentamente. Não parece tão magra e tão envelhecida, sendo ela mais nova do que eu quase dez anos.
Qual é a sua definição de inferno na Terra: vê-la internada ou o tempo em que ela o insultava e agredia?
Preferia tê-la ao pé de mim insultando-me, desde que tivesse tempo para a tratar. O maior desgosto foi ser forçado a levá-la para uma instituição. Os gritos dela, quando a deixei lá, nunca mais saíram da minha cabeça.
Há momentos em que se sente viúvo?
Rejeito completamente isso. Encaro a solidão como algo que me foi imposto. A Vera está ali, de vez em quando ela sorri para mim, e essa é a minha alegria. O meu momento de felicidade.
O que pensa de quem o critica por receber visitas?
É um mal português. Tenho uma assistente, que produz os meus programas e faz o meu secretariado, pois já não tenho tempo nem cabeça, e que vai muitas vezes a minha casa tratar de assuntos. Sei que a olham de lado e até já lhe perguntaram se era minha filha. Ainda que houvesse segunda intenção, ninguém tem nada a ver com isso. Estou sozinho em casa, sem ninguém a dormir e a morar lá, há quase dois anos. Tenho consciência de que não estou a trair, mas acho isso mesquinho e pequenino.
Mantém uma vida profissional muito ativa…
Não sei o que seria de mim se não tivesse a vida preenchida de manhã à noite. Levanto-me às seis e meia para ir à TVI, estou na Rádio Amália todos os dias exceto domingo; escrevo os meus livros. Se não me sentisse útil e ativo, não andava cá a fazer nada.
Hesitou em partilhar o que estava a acontecer?
O Manuel S. Fonseca, editor e amigo, convenceu-me de que faria bem em partilhar. Escrever tirou um peso de dentro de mim. Dividi-o pelas pessoas que irão ler. Não estou feliz, não posso ser feliz, mas sinto a dor minorada.
O que espera que o leitor aprenda?
Como um doente de Alzheimer, ou outro doente mental, deve ser tratado, compreendido e ajudado. Há casos de familiares a agredir doentes. O que isto tem de grave!
Até hoje, ninguém recuperou de Alzheimer.
Vamos imaginar que dentro de alguns anos – não muitos – se descobre a cura. Gostava muito que fosse numa altura em que ainda pudesse usufruir da regalia de a Vera ser curada, embora perceba que os danos que ela têm no cérebro, segundo os médicos, são irrecuperáveis.
É-lhe mais fácil acreditar num milagre da Ciência do que num milagre de Deus?
Acredito numa entidade abstrata criadora do Universo. Tenho fé, sem formação ou crença religiosa. Se há algo mais poderoso, podem acontecer coisas. Acredito mais em algo a que se pode chamar milagre do que no homem, que é limitadíssimo. Pode ser médico, ou o Fernando Correia, mas não é nada.
Acredita que se a Vera pudesse ler este ‘Piso 3, Quarto 313’ iria gostar do livro?
Na mesa de cabeceira dela estão todos os livros que escrevi. Peguei neste e coloquei-o em cima dos outros, junto à nossa cama, onde só durmo eu. Se está lá, foi a pensar que um dia ela poderá lê-lo.
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