Cinco meses depois da ‘maré negra’, grande parte dos galegos – os maiores produtores de marisco do mundo – continuam a comer marisco e peixe como se nada tivesse acontecido. Só os pescadores preferem a carne
Augustim tem uma pequena marisqueira na cidade da Corunhã, onde vamos encontrar um grupo de jovens empresários que veio das Astúrias a comer marisco despreocupadamente. Todos dizem confiar na fiscalização e no facto da Costa não ter sido toda afectada, acreditando por isso que o peixe e marisco que chega às mesas cumpre todas as normas de qualidade e foi devidamente fiscalizado. Mais não seja, confiam nos profissionais de hotelaria...
Augustim, o dono da marisqueira, garante: “Sei identificar o que está bom e o que não está, basta ver a cor e cheirar. Isto é coisa que não se aprende em nenhuma universidade, ando nisto há muito tempo e sei muito bem que o marisco é pescado aqui”.
“O marisco que comemos nos restaurantes dá-nos garantias, confiamos no controlo de qualidade e nos profissionais de hotelaria” defende José, empresário galego de 55 anos, enquanto almoça na marisqueira Pablo Galego.
Manuel, seu companheiro de mesa afiança: “A minha mulher disse-me que não há qualquer problema”.
Pablo é o dono desta marisqueira de luxo situada na Praça Maria Pita, no centro da cidade da Corunhã. E sobre a qualidade do marisco e do peixe servido no seu restaurante, não tem dúvidas: “Ainda hoje de manhã foi aqui confeccionada a comida para o avião particular de Amâncio Ortega, mais conhecido como dono da Zara, e o sétimo homem mais rico do mundo. Foi pescada no forno”, conta.
No seu restaurante comeram já inúmeras figuras públicas, tanto espanholas como portuguesas, entre as quais o especialista que veio averiguar os danos causados pela maré negra do pretroleiro ‘Prestige’. Foi também Pablo que serviu Mário Soares em 1994, quando este foi galardoado com a medalha de ouro da Galiza.
A pesca continua oficialmente fechada na Costa da Morte mas o Conselheiro de Pesca e Assuntos Marinhos, Enrique López Veiga, deu conta da abertura da pesca em águas exteriores a partir de 17 de Março, baseando-se nas informações fornecidas pelo Instituto Espanhol de Oceanografia sobre o impacto do fuel derramado pelo petroleiro ‘Prestige’.
Nesse comunicado, enviado à Impren-sa, prevê-se para breve a abertura da pesca noutras zonas, até finalmente se atingir a actividade normal na pesqueira das Rias Baixas.
SEM GANAS PARA PROTESTAR
Em Finisterra os pescadores passeiam-se pelo porto ou juntam-se em pequenos grupos para olhar o mar perto da lota. Há quem limpe o crude que fica nos barcos, no regresso de mais uma viagem de limpeza.
É aqui que vamos encontrar José Ramon, pescador de 36 anos, profissional há 14 e dono de um pequeno barco de pesca que emprega mais um pescador.
A pesca está fechada mas os subsídios pagos aos pescadores desmotivam-nos de aderir a manifestações.
“Podia continuar sem pescar até ao Natal” afirma José Ramon, prosseguindo: “Pagam-nos por sermos afectados, pagam por mim e pela embarcação, e ainda para irmos limpar [a costa]. Por mês recebo cerca de 3000 euros, e a segurança social é gratuita”.
Cada pescador recebe 1.200 euros, e outro tanto é pago por embarcação. São ainda pagos 36 euros diários a quem trabalha na recolha do crude mais 60 euros por barco. O combustível é fornecido.
Assim se justifica que de Finisterra, uma pequena povoação piscatória, tenham saído apenas dois autocarros para a manifestação de Madrid.
É também José Ramon que nos relata o confronto que os pescadores de Finisterra tiveram há 15 dias com os pescadores das Rias Baixas, local onde a pesca não foi totalmente fechada.
“Os das Rias Baixas vieram aqui colher as crias dos mexilhões e tivemos que puxá-los para fora” explica. “Veio a Guarda Civil que ordenou: ‘Deixem trabalhar esta gente que tem permissão para tal. Tivemos que largá-los se não prendiam-nos, mas houve paulada e tudo”, assegura. Acrescentando, visivelmente indignado: “Estão a recolher o nosso marisco e isso não é correcto. Eles têm permissão para tudo e nós não podemos fazer nada”.
É também José Ramon que fala dos que continuam ilegalmente a pescar ou a recolher marisco, já apelidados de pescadores furtivos. “Há furtivos daqui que continuam a pescar”, garante José. “Claro que há vigilância, mas é impossível controlar tudo. Quando não andam de dia, andam de noite, e até descarregam na lota. Sei perfeitamente quem eles são”, assegura, com indignação.
Confrontado com o destino dado ao marisco pescado furtivamente, não tem dúvidas: “E claro que entra no mercado normal, se os furtivos pescam é porque há quem compre” .
VOLUNTÁRIOS FORAM A SALVAÇÃO
Entre os pescadores fala-se do trabalho dos voluntários com gratidão. E há quem acredite que o ‘Prestige’ levava muito mais fuel do que os dados oficiais fazem crer (cerca de 110 mil litros, pelo menos). “A ajuda dos voluntários foi mesmo muito bem-vinda” diz José Ramon. “Só por Muxía, que foi uma das zonas mais afectadas, passaram 60 mil pessoas, isto foi um exemplo para o mundo. Se os voluntários não tivessem vindo isto continuava tudo na mesma”, defende, para recordar com admiração um rapaz negro, professor universitário, que veio do Brasil de propósito para ajudar, irlandeses e até japoneses, que aqui chegaram.
Jaime, 19 anos, que trabalha num barco com mais três homens, não se conforma com o facto dos pescadores reformados ou de pesca desportiva poderem pescar para consumo e os profissionais não. “Alguns até já foram multados por terem apanhado um bocado mais do que é permitido”, conta. “Há reservatórios de crude por todo o lado, apanhado nas praias e espalhado por tudo quanto é sítio. Eu nunca mais tive vontade de provar o peixe, come-se carne ou peixe congelado, mas há quem pesque, claro!”, relata.
Na povoação de Lira, mesmo ali ao lado, três pescadores, colegas de trabalho e de embarcação, dedicam-se a trabalhos de limpeza da praia. Todos confirmam que a pesca desportiva nunca encerrou, podendo cada pescador apanhar quilos de peixe por dia. Jesus, o mais velho mostra-se indignado: “As análises mostram que o peixe está demasiado contaminado. Como pode a pesca ser permitida a alguns? Será que aos reformados e aos pescadores desportivos o peixe contaminado não faz mal?”, interroga-se.
Rosé, 31 anos, diz já ter tido curiosidade de provar o peixe, mas o medo é maior. Para estes pescadores, o grande problema reside no fundo do mar, e não à vista de todos.
GOVERNO DE AZNAR FOI ‘FALSO’
A falta de informação por parte do governo Espanhol continua a revoltar quem foi mais afectado pela ‘maré negra’. Os pescadores sentem-se enganados e acreditam que toda a informação foi sendo manipulada, desde a quantidade de petróleo derramado, até ao número de pessoas que se manifestaram em Madrid. “A única informação credível era a que vinha de Portugal” assegura Andres, de 33, o mais calado dos três. “O satélite Português dizia exactamente onde estavam as manchas e a sua quantidade, falavam de 100 ou 200 toneladas ao dia e tinham razão. O governo Espanhol referia-se a umas manchitas dispersas, uns litritos” afirma, sentindo-se claramente defraudado.
É Rosé quem mais atrevidamente dispara: “Nós não pensamos assim, mas o governo espanhol achou que os portugueses eram os atrasados de sempre. Só que nisto eles foram muito mais adiantados do que nós. Fizeram bem em apontar as armas e mandar o navio de volta”, sublinha, com convicção.
PESCADORES DESCONFIAM
Com dualidade de critérios ou não, o marisco continua a chegar à mesa dos galegos, que não parecem reticentes em relação ao seu consumo ou preocupados com a sua proveniência. Os pescadores, no entanto - talvez por possuírem informação ‘previligiada’ - preferem o peixe congelado ou a carne.
O mercado do Lido, no centro da cidade da Corunhã, fervilha de gente. Entre apreciadores e compradores encontra-se Dolores, que compra amêijoa: “Estão a ser feitas análises constantemente, e o preço subiu. O marisco está melhor e mais controlado do que nunca”, defende.
Mónica vende aqui marisco desde 2001. Nos primeiros meses [a seguir ao desastre] ninguém comprava nada, mas agora o negócio vai voltando à normalidade. “O peixe que vem do mar alto não foi afectado. O camarão agora vem da Escócia e a amêijoa é um marisco que depura muito. A inspecção tem que ser feita em alto mar, não aqui no mercado. E a Junta de Sanidade também nunca por aqui passou...”, confessa.
Felicia, a dona da banca, acrescenta: “Tem-se feito muito má publicidade e demagogia com o que aconteceu. Na realidade, só os percebes foram afectados, porque vivem nas rochas e não podem fugir. Em todo o caso, o marisco vem das rias baixas, zonas que não foram afectadas porque aqui a pesca está fechada”.
Maria Jesus trabalha no mesmo mercado há seis anos, vende na banca ao lado e exibe com orgulho fotografias recortadas de diversos jornais, onde aparece nas manifestações do ‘Nunca Mais’. “Fomos à manifestação para tentar cobrar ao governo alguma ajuda, mas não nos pagaram nada”, reclama.
“FALA-SE EM CANCROS...”
É entre a estranha diversidade de voluntários que trabalha a oito quilómetros de Finisterra que se encontra Milagros. Veio de bem perto, da Corunha, é bióloga e está a trabalhar na limpeza das praias desde que o governo os deixou ajudar. A voluntária fala com dureza dos estragos irreparáveis: “Todo o ecossistema vai ficar afectado entre 15 a 30 anos”. Embora a Natureza se regenere a si própria, a bióloga fala de mais um ano ou dois de limpeza.
“Estão a abrir a pesca em diversos locais e, aos poucos, deixam de pagar as despesas aos pescadores. Mas não é porque se possa pescar. Se fizerem análises como deve ser vêem que tanto o peixe como o marisco estão impróprios para consumo. O governo devia ser o primeiro a fazer o alerta”, reclama Milagros.
Santiago, membro da Associação para a Defesa Ecológica da Galiza, é da mesma opinião: “Nas rias, travou-se a entrada de fuel, mas nas bocas das rias está tudo afectado, o que vai dar ao mesmo”.
Santiago acredita que a campanha ‘Nunca Mais’ resultou de uma consciência colectiva e lembra que as manifestações começaram de forma espontânea em cada cidade. Santiago de Compostela manifestou-
-se a 1 de Dezembro. “O governo falou em três mil pessoas, mas havia pelo menos 30 mil nas ruas”. Mais tarde foi a vez de Madrid. “E mais uma vez os números não coincidem”, ironiza. “O Governo fala em 100 mil pessoas, a organização fala num milhão”.
De Santiago de Compostela saem todos os dias dois a três autocarros com voluntários que vêm trabalhar a tempo inteiro na limpeza das praias. Só por esta associação já passaram dez mil voluntários, grande parte mulheres, e só estudantes foram seis mil.
Há pessoas que estão de baixa por terem participado nos trabalhos de limpeza. “Fala-se em cancros...”.
Preocupado com a continuidade desta missão, Santiago garante que o governo não quer continuar a fornecer o material necessário para a limpeza, justificando-se com os gastos elevados. “São 30 eruos de material por dia para cada voluntário”.
Jaime vive na povoação de Finisterra, tem 19 anos e há dois que é pescador profissional. Foi com a embarcação onde trabalha, com mais quatro pescadores, que encontrou dois corpos dos portugueses que perderam a vida em Entre-os-Rios. “Sabíamos do que se tinha passado em Portugal, e tínhamos sido avisados para estarmos alerta, mas nunca imaginámos que os corpos cá chegassem”, assegura, lembrando que o local da tragédia, no rio Douro, dista de Finisterra cerca de 300 quilómetros, e que mais um corpo acabou por ser encontrado na Costa da Morte.
”AINDA APARECE CRUDE”
Foi na cidade da Corunha, no ‘Aquarium Finisterae’, que erncontrámos informação mais concreta sobre o que acontece a um ecossistema afectado por uma ‘maré negra’. “As ‘marés negras’ são grandes derrames de petróleo, ou de algum dos seus derivados no meio marinho, que podem causar graves danos ecológicos, sobretudo quando atingem a zona costeira”, lê-se no folheto que está à disposição dos visitantes. “Todos os seres vivos formam uma rede alimentar, em que uns dependem dos outros para sobreviver. Por isso, os primeiros peixes a serem afectados são os que dependem das algas – será o caso das sardinhas, das marmotas e dos sargos”.
António Ribeiro, responsável dos biólogos no aquário, diz que as espécies mais afectadas “são os organismos que vivem no substrato, que têm uma reduzida mobilidade e, como tal, não lhes é permitido escapar. É o caso das algas, invertebrados e muitos moluscos como as amêijoas, o mexilhão...”
A 13 de Novembro de 2002 o aquário fechou a captação de água do mar, o que não impediu que as focas – que estão num tanque exterior – fossem atingidas pelo crude. António Ribeiro fala das dificuldades pelas quais a ‘Casa dos Peixes’ passou. “Até ao Natal foi o pior, mas ainda agora, na maré alta, continuam a chegar bolas de crude”, conta.
PORTUGUESES INDIGNADOS
Bombardeados com a constante informação – ou falta dela – estão quatro estudantes portugueses que encontrámos na Universidade da Corunha. Miguel, Susana e Rui chegaram há apenas um mês e depararam-se com a campanha levada a cabo pela instituição de ensino. “Há cartazes por todo o lado, houve palestras e debates e até se fez um almoço para credibilizar o marisco de cá”, conta Rui.
Susana destaca a vontade de conhecer as zonas afectadas e como convenceu os colegas portugueses a inscreverem-se no programa de voluntariado da universidade, acrescentando: “Não me quero ir embora sem ir ao local para ver e ajudar”.
Helena está de passagem. Veio visitar o namorado, estuda em Cárceres desde Outubro e fala dos movimentos de ajuda criados em torno desta causa: “Espanha toda se juntou para ajudar. De Cárceres veio gente, e são quase 14 horas de viagem”. E refere-se ao alarmismo generalizado. “Ninguém sabia o que pensar, as pessoas ficaram revoltadas, mas agora isto já está um bocadinho adormecido”, revela.
Sobre a possibilidade de consumir marisco, é cautelosa: “O Rui gosta muito. É algarvio, e está cheio de vontade de comer uma mariscada, mas lá em baixo... Aqui, a história do ‘Prestige’ ainda continua no ar”.
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