O cardiologista Carlos Perdigão dá esperança aos que sofreram de uma doença cardiovascular – “o mal já está feito”, é preciso olhar para a frente. Em Portugal, tal como na maioria dos países ocidentais, morre-se sobretudo de doenças cardiovasculares. E os jovens são já um grupo de risco. A intervenção governamental – defende – é urgente
Metade das portuguesas correm o risco de ter um AVC. O dado é recente ou foi sempre assim?
Não é uma novidade. Estamos é a dar maior visibilidade à mulher, porque até agora as mulheres eram vistas como tendo alguma protecção em relação às doenças cardiovasculares.
Porquê essa ‘protecção’?
Há 20 anos as mulheres morriam pouco de AVC porque duravam menos. Agora temos uma esperança média de vida que na mulher está quase nos 80 e no homem acima dos 70. A mulher, à medida que vai avançando na idade, não morre de outras causas, por isso vem a morrer de doenças cardiovasculares.
Não porque tenha mudado o estilo de vida?
Não se pode dizer isso, embora em alguns factores de risco possa ter alguma expressão. Por exemplo, a mulher fuma mais agora do que fumava há 20 anos, mas o tabaco é apenas um dos factores de risco em relação à hipertensão arterial, ao colesterol elevado, à diabetes, à obesidade... Mas é igual no homem e na mulher, até porque estamos a apostar não tanto nos grupos etários mais avançados mas mais até na juventude.
Os jovens já são um grupo de risco...
Pois, aí é que há uma mudança de padrão em relação há dez ou vinte anos. O padrão de vida dos jovens, actualmente, desde o pré-escolar até à universidade, mudou. Com as novas tecnologias, o computador, a internet, a juventude faz muito menos actividade física. E tem, por outro lado, o chamamento do fast-food, os hambúrgueres e tudo isso que não havia há alguns anos. Hoje, os pediatras e os médicos em geral estão a assistir a uma juventude muito mais obesa porque mais inactiva, e como a obesidade está ligada à diabetes também temos mais diabéticos. Falamos actualmente de um contexto de risco cardio- metabólico.
Uma criança não pode ter mesmo um AVC...
O que este padrão faz é que as crianças que já têm estes factores de risco podem vir a ter AVC dez anos mais cedo. Que é o que vai acontecer à população jovem se não fizermos nada.
Quanto mais novo se é maior a probabilidade de recuperar?
Não está tanto dependente da idade mas da localização e da artéria afectada. Teoricamente, um indivíduo novo tem maior probabilidade de recuperar, a idade é favorável, porque em princípio há menos estrago geral.
Qual o tipo de doença cardiovascular mais difícil de recuperar?
Provavelmente, é a trombose. Mas depende: por exemplo, um aneurisma grande que faça uma hemorragia intracraniana pode até não ter recuperação nenhuma. Se for um pequeno aneurisma, que dê sinais, podemos ir a tempo de perceber o que está a acontecer.
É possível intervir...
Qualquer das situações de AVC tem hoje terapêuticas mais agressivas mas muito eficazes. Já não estamos como há uma dúzia de anos, em que a atitude perante um AVC era muito expectante, agora há a possibilidade de intervenção.
Aumenta a esperança...
Claro, embora apostemos mais na prevenção, é mesmo o melhor remédio. Temos que chegar mais à população para podermos prevenir. Se ainda não estamos a prevenir é porque ainda não somos eficazes na redução dos factores de risco. E um dos principais factores de risco é a tensão arterial elevada.
As pessoas o que podem fazer?
Reduzir o consumo de sal, mas este é um problema que não é só das pessoas. Porque elas podem querer reduzir o consumo de sal mas se só tiverem pão com sal custa-lhes reduzir. E se a comida fabricada e os enlatados continuarem a ter a quantidade de sal que têm é difícil, mesmo que as pessoas deixem de pôr o sal na sopa ou no arroz...
Não é só uma opção individual...
Pois. Tem que haver uma intervenção global. A indústria tem de perceber isso, mas sozinha tem alguma dificuldade, porque tem muitas vezes necessidade de conservar os alimentos e os alimentos são conservados com sódio, com sal. E reduzir o sal na alimentação implica alternativas que poderão não ser as mais económicas.
É preciso mais...
O esforço junto da indústria tem que ser feito em conjunto pelo poder político com as autoridades de saúde. Por exemplo, a Finlândia fez uma redução drástica no sal há alguns anos num programa governamental e reduziu drasticamente a hipertensão arterial.
Este esforço conjunto é uma das batalhas da Sociedade Portuguesa de Cardiologia?
As sociedades científicas batem-se muito por isso, mas felizmente sentimos que já não são só elas. Há dois anos, a União Europeia subscreveu um documento, a Declaração do Luxemburgo, uma parceria entre a UE e os ministérios da Saúde dos vários países, a fim de estudarem medidas de prevenção.
Só assim é eficaz...
Tem de ser por aí. Tudo o que se tenta passar através do profissional de saúde não é suficiente. Numa consulta, pode aconselhar-se o doente, mas são indicações que ficam pouco, as medidas têm de ser contextualizadas. Um exemplo bom é este do tabaco. Há quantos anos nós andamos nestas campanhas, a avisar que o tabaco faz mal, e foi preciso sair uma lei antitabaco para se reduzir o consumo em 15 por cento. Se não fosse uma medida imposta por um Governo não tinha impacto.
As leis têm que ajudar a saúde...
Não há outra maneira.
É certo que as doenças cardiovasculares são as que mais afectam os portugueses.
A principal causa de morte em Portugal e nos países desenvolvidos. Nas doenças cardiovasculares incluímos a doença coronária, o enfarte do miocárdio, o AVC e as doenças periféricas. São a principal causa de morte e de morbilidade. O dado mais fácil de obter é a mortalidade, mas existe a morbilidade. E a morbilidade depois de um AVC é grande.
Convive com essas pessoas?
Sim, faço clínica já há muitos anos.
O que lhe transmitem na fase posterior a um AVC?
Varia com o nível socioeconómico. As pessoas que tinham uma grande actividade intelectual têm uma sensação de negação da doença, o ‘isto não está a acontecer-me’. Nos outros estratos há uma vivência mais acomodada, um ‘mas porque é que isto me aconteceu?’. Muitas vezes caem em depressão e precisam de ser ajudadas por um psicólogo que lhes explique que não foi o fim do mundo. O cardiologista também explica, mas não é a mesma coisa...
E sem esconder nada...
Temos que ajudar a encarar a doença perspectivando o futuro. O mal que tinha a fazer já fez: ‘Se fumava, acabou, põe uma pedra sobre isso. Agora, não pode é fumar a partir daqui.’
Há profissões de maior risco?
Há é comportamentos e personalidades de risco. Durante muitos anos catalogávamos dois tipos de personalidade, as de tipo A e as de B. As A são os indivíduos muito activos, que estão sempre preocupados com o que têm de fazer, com o que deixaram de fazer, têm muita iniciativa. Os comportamentos de tipo B são os mais pacíficos, os deixa-andar, o ‘tudo se vai resolver’. Na verdade, há estudos que mostram que estes comportamentos de tipo A têm maior incidência no enfarte do miocárdio. Porque não se pode dizer que os executivos é que têm enfarte, porque os trabalhadores da enxada também têm.
Podemos encarar o stress como um factor de risco?
Temos que o encarar como qualquer factor, é importante porque interfere com outros factores de risco como a pressão arterial. E também aumenta a glicemia, há muito açúcar presente no sangue.
A escritora Margarida Rebelo Pinto descreveu, a propósito do AVC que sofreu há um ano, qualquer coisa como o ter percebido que estava a acontecer algo estranho a que tinha de reagir.
Quer no enfarte do miocárdio, quer no AVC, a pessoa pode ter a sensação de que está a acontecer uma coisa que não é normal. Há mesmo muitos doentes que contam a situação de morte iminente. Quer em relação ao coração, quer em relação ao cérebro, o tempo conta muito. Minutos que se guardam, minutos que salvam.
É possível ser detectado em análises de rotina que há um risco iminente de AVC ou de enfarte?
Não, porque são doenças agudas. Quantas vezes um doente vai à Urgência e é mandado para casa, porque nesses sítios fazemos electrocardiogramas, fazemos as enzimas, e ainda não há sinais de fase aguda.
PERFIL
Carlos Perdigão tem 64 anos e nasceu no Seixal, terra onde ainda tem um consultório médico. Casado, pai de três filhos e avô de cinco netos, cedo percebeu que o caminho futuro seria a medicina. A explicação é simples: 'A medicina vem do gostar de auxiliar. Nessa altura, quando eu era pequeno o médico era visto nas terras pequenas como o antigo João Semana.' Foi essa vontade e o ‘modelo’ do médico de família da sua meninice, Carlos Ribeiro, do qual acabou por seguir as pisadas, que o incentivaram a formar-se na área, em Lisboa. Carlos Perdigão faz prática clínica, é professor na Faculdade de Medicina/Hospital de Santa Maria e ainda coordenador do Grupo de Estudo de Risco Cardiovascular da Sociedade Portuguesa de Cardiologia. O grupo tem dois anos e como um dos objectivos incluir o médico de família na prevenção das doenças cardiovasculares – para que trabalhem em conjunto no alerta à comunidade.
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