"É uma casa de família”. António Calvário faz questão de o frisar, embora uma grande área deste refúgio, vivido sempre com a presença de primos e sobrinhos, irmão e cunhada, tenha a sua marca, o seu cunho pessoal.
Foi a primeira morada que conheceu em Portugal, ele que nasceu em Moçambique e viajou para “o continente” com apenas oito ano de idade. Ainda se lembra da vida livre que levava em África, tal como todas as crianças da sua idade no continente negro, e admite que, na época, foi uma sorte ir para Portimão e não para a capital: “Se viesse logo para Lisboa teria sido um choque. O Algarve suavizou” o impacto. A infância prosseguiu por ali, entre as brincadeiras com os primos portugueses que só então conheceu, a escola e as aulas de piano e canto com a professora Elisa Dutra, a mesma que foi depois encontrar no colégio onde completou o quinto ano, antes da vinda para Lisboa.
A casa, essa, é uma “daquelas antigas, tipo solarão, com cerca de duzentos anos.” Mantém até hoje a traça original, com tectos altos e espaços amplos. Tinha sido adquirida pelo pai de Calvário, ainda nos tempos de solteiro.
O cantor lembra-se dela desde sempre cheia de gente, entre tios e primos. Continua a ser amplamente frequentada. “Nunca estou sozinho.” Seja Verão ou Inverno, “fins-de-semana e dias de semana”, há sempre companhia no refúgio dos Calvários. “E se por algum acaso calho estar aqui só, o que é muito raro, sinto sempre uma presença.” Para tal contribuiu, provavelmente, o facto de ter preservado a decoração e a disposição dos móveis tal qual estava quando a mãe, a última da geração anterior a partir, se despediu da vida.
As crianças da família, “sobrinhos-netos, sobrinhas-netas ficam deslumbrados quando cá vêm”, conta. “Eles nasceram em Lisboa, num ambiente completamente diferente” e respiram as memórias que transpiram de toda a habitação. “As paredes são um mundo de fotos e recordações.
” Talvez por isso, o artista se comova algumas vezes ao falar da casa. “Quando cá estou, parece que sinto toda a família antiga aqui. Lembro-me dos Natais em que eram largas dezenas de pessoas, toda aquela azáfama. E parece que ainda sinto esse movimento, é algo espiritual, há uma força cá dentro.”
Num ano em que comemora o cinquentenário da sua carreira, António Calvário tem tido ocasião de passar metade da semana na sua “cidade adoptiva”, já que participa numa peça de teatro de revista levada em cena pela companhia local, Clube Boa Esperança.
Considera esta oportunidade “uma sorte e um privilégio, já que foi em Portimão que cantou pela primeira vez. De há dois meses para cá, ruma então ao Algarve à quinta-feira e regressa à segunda. Quase sempre acompanhado por algum membro da numerosa família. Encontra a casa invariavelmente impecável, graças aos serviços da “empregada à moda antiga” que ajuda a manter tudo no seu lugar. As refeições, essas, são frequentemente feitas fora: o ritmo de actividade assim o exige.
De qualquer forma, na cidade algarvia, o embaraço seria unicamente o da escolha: “Aqui há muitos e bons restaurantes.” Como aquele que todas as terças-feiras serve papas de milho com molho de caldeirada, onde gostaria de jantar sempre nesse dia da semana. O gosto pelo manjar típico algarvio ficou dos tempos da infância, de quando a avó usava a mó, que ainda hoje conserva, para moer o milho com que depois se faziam as deliciosas papas.
Apesar da falta de tempo, o cantor gosta de cozinhar e gaba-se de o fazer muito bem. E quando há quorum no refúgio, diverte-se a ocupar o sítio dos tachos e das panelas ao despique com os sobrinhos, a ver quem consegue o petisco mais saboroso. Para gáudio dos que se sentarem à mesa.
O ANO DE TODAS AS COMEMORAÇÕES
2008 marca para António Calvário duas importantes comemorações. Completa 50 anos de carreira e 70
de idade no próximo mês de Outubro. A participação na revista ‘Bicha a dar com um pau’ permitiu-lhe abrilhantar com duas novas e “fabulosas” canções o best-of ‘Nos Palcos da Vida’ que sai para os escaparates antes da Páscoa. Por outro lado, até ao Verão, será editado, com a chancela da Guerra e Paz, o livro de cariz autobiográfico “Histórias da Minha História’ que conta com o prefácio do seu amigo e antigo companheiro de palco(s), Francisco Nicholson. Um contributo que muito o comoveu.
PIANO DA INFÂNCIA
O velho piano foi presente dos pais quando vieram morar para Portugal. “Iniciei os estudos de música ainda em Moçambique”, conta António Calvário. O canto, acrescenta, “aparece mais tarde” por acaso, quase que por engano: “não era para ser cantor”.
O gosto pelas coisas antigas levou-o a adquirir o banco que hoje convida a tocar nos teclas. Em redor do instrumento, as fotos de família que, por toda a casa, trazem à lembrança dias de outros tempos.
O enorme sofá, um móvel de família, encontra-se na marquise que aguarda quem chega ao cimo da longa escadaria: uma espécie de recompensa. “Dá muito jeito para descansar depois da subida”, confessa o cantor, que colecciona troféus, prémios e medalhas de “concursos e festivais” vários. Afinal, são 50 anos de carreira...
Portimão tem lugar cativo no coração de António Calvário. Um apreço recíproco. Em 1997 recebeu o título de Cidadão Honorário da edilidade.
PROFISSÃO: Cantor
IDADE: 69
LOCAL: Portimão
COMPANHEIROS DE REFÚGIO: Irmão, cunhada, primos e sobrinhos
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