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Ao atravessarem a fronteira, deram com um território desconhecido. Cinco profissionais espanhóis a trabalhar em Portugal confessam a sua antiga ignorância sobre este lado da Península. Mas agora adoram o País
Quando, em 2000, o médico David Vercher, 33 anos, resolveu fazer a especialização em cirurgia geral em Portugal, vasculhou o burgo de Valência, de lés-a-lés, em busca de um professor de português. Não encontrou. O melhor que arranjou foi um par de brasileiras que lhe ensinaram a língua de Camões em aulas particulares.
Este pequeno episódio elucida bem como dois países tão próximos podem estar tão distantes. O desconhecimento dos espanhóis sobre Portugal é aflitivo. No livro de memórias ‘O Meu último Suspiro’, o cineasta Luis Buñuel refere-se a Portugal como um País que para os espanhóis está mais longe do que a Índia. E também os portugueses, quando pensam em estrangeiro, têm na mente o espaço além-Pirenéus ou além-mar. Estranhos preconceitos que a história teceu...
Monica González, 24 anos, enfermeira nas urgências pediátricas do Hospital de Santa Maria, natural de León, no norte de Espanha, não tinha uma ideia do que poderia ser Lisboa. Conhecia a fronteira rural do interior, de ir a Miranda do Douro com os pais, às compras. Por isso, tinha a imagem de um País menos desenvolvido. Quando desceu à Capital – até à foz do Tejo – previa apenas ficar por seis meses. Agora está em Portugal há dois anos. E pensa continuar: aqui gosta de tudo (adora pastéis de feijão) e em Espanha não há muito trabalho para enfermeiros.
Semelhante opinião prévia também tinha o jornalista Jesus Alvarez, 50 anos, que foi durante cinco anos (até meados de 2002) correspondente da agência noticiosa Efe em Lisboa. “Tinha do País a ideia do que tinha visto há 30 anos, explica. Viajara até Lisboa de cravo na lapela, em 1974, para ver a revolução. Décadas passadas, quando veio para cá viver, deparou-se com um vizinho renovado. Ao regressar à pátria das espingardas em flor, em 1997, com as obras para a Expo’98 quase concluídas, confessa ter ficado muito surpreendido. “As compras eram mais caras do que em Espanha e o imobiliário também. Portugal teve um desenvolvimento bastante coerente, afirma. O problema foi a recessão de 2001.”
NÃO CONHECEMOS PORTUGAL
Jordi Graupera é um estudante catalão de 21 anos, apaixonado por literatura e Fernando Pessoa, natural de Barcelona, que está a fazer o programa Erasmus e a estudar Direito e Filosofia na Universidade Católica. Vive desde Setembro do ano passado em Campolide e gasta o tempo livre a escrever para o Avui, o maior jornal diário de língua catalã.
“Portugal fica tão perto... Podemos ver um filme francês e perceber algumas palavras, mas se ouvimos um jogador de futebol português a falar não percebemos nada.” Tinha uma ideia romântica de Lisboa: “Esperava uma cidade europeia, mas sem a euforia do consumismo ou da tecnologia.” Encontrou uma Capital consumista, mais ou menos tecnológica, mas lenta e burocratizada, espetada num País muito mais contraído do que ele esperava num povo do Sul. Todavia, diz gostar de cá estar. “Na minha antiga escola secundária, pediram-me para fazer uma conferência sobre como é ser correspondente aqui. Disseram-me: ‘Não conhecemos nada de Portugal...’” O habitual...
Eis outra impressão no mesmo sentido: Manuel Fernández, 49 anos, director-coordenador de operações do grupo Totta, conhecia o País de umas curtas férias em Lisboa. Profissionalmente, aterrou neste canto à beira-mar plantado em Junho de 2001. No entanto, confessa: “O País em si era-me desconhecido, apesar da proximidade geográfica, e não tinha sobre Portugal nenhuma ideia pré-concebida.” Talvez por isso se tenha surpreendido tanto: “Actualmente, e apesar do País atravessar algumas dificuldades decorrentes da conjuntura macro-económica – havendo um nível de profissionalismo elevado, como o que encontrei nas equipas com quem trabalho –, penso existirem todas as condições para Portugal fazer os reajustamentos necessários para a retoma da sua economia, quando a conjuntura internacional o permitir.” É a opinião de um homem dos negócios.
David Vercher, o cirurgião valenciano (trabalha no Hospital de S. Francisco Xavier), já percebeu que há muito mais informação aqui sobre Espanha do que lá existe sobre Portugal. Em Madrid não é fácil comprar jornais portugueses. Mas, se ele quisesse encontrar um professor de espanhol numa cidade média portuguesa, decerto conseguiria. David não tinha a percepção da velha rivalidade ibérica: “Uma das coisas que achei piada foi ao vosso sentimento de estarem a ser invadidos por espanhóis. Não fazia ideia de que havia esse ressentimento histórico em relação a Espanha... Nós não sentimos o mesmo em relação a Portugal.”
Apesar disso, gosta de viver num País onde diz não ter a sensação de ser estrangeiro. E a língua? “Os portugueses acham que os espanhóis não se esforçam por compreendê-los... É que realmente não se percebe, responde o médico. Vocês falam de uma forma muito fechada...” E remata, justificando que uma colega sua, outra médica, diz que os espanhóis “não têm o gene dos idiomas”. Talvez dobrem demasiados filmes...
‘GRACIAS, CATALUNHA’
“São de uma amabilidade sóbria”. Foi o que Jordi Graupera, o estudante do Erasmus, disse a Jordi Pujol, presidente do Governo da Catalunha e amigo da sua família, quando aquele lhe perguntou o que achava dos portugueses. O líder nacionalista catalão concordou. “As formalidades são aparentes. Quando se supera essa barreira, tudo é mais fácil. Mas a ignorância sobre Portugal é eloquente da solidão acompanhada dos povos peninsulares.” Jordi diz que foi à manifestação contra a guerra no Iraque e que telefonou para Barcelona a contar: “Quando disse que o ‘slogan’ era: ‘Durão, Bush e Blair, esta guerra ninguém quer!’, perguntaram-me o que era o Durão.”
Mas há mais: “Quando converso com gente mais culta, pensam que Portugal é governado por socialistas, pois está um Partido Social Democrata no poder. Na escola, revela ainda o estudante, na disciplina sobre a História da sua região autónoma, os catalães aprendem que Portugal é livre porque, em 1640, também houve uma revolta independentista na Catalunha. Resultado: como Filipe II acorreu primeiro ao fogacho catalão, quando se voltou para Oeste a defesa portuguesa já estava organizada.
Enquanto esteve em Lisboa, o jornalista Jesus Alvarez era solicitado para cobrir os mais variados assuntos para a agência Efe (que tem muitos clientes na América Latina). Mas, sobretudo, tinha que dar atenção aos temas económicos. “Assisti a toda a operação de venda do grupo Champalimaud e à consequente compra do Totta pelo Santander”, recorda, ao telefone, a partir de Madrid. “Havia notícias que interessavam muito à Galiza ou à Extremadura, as duas regiões raianas com relações mais estreitas com o lado português.”
QUANDO OS ESPANHÓIS NOS TRAMARAM...
Há 200 anos, na sequência da Guerra das Laranjas (1801), que opôs Portugal e a coligação invasora franco-espanhola, foram alterados os limites da mais antiga linha de fronteira do mundo. Olivença é, desde então, um espinho cravado nas relações entre os dois países, embora a questão não faça, actualmente, parte da agenda dos dois governos. Em 1817, no Tratado de Viena, a Espanha aceitou a devolução do território, mas nunca a concretizou. Até hoje, aqueles ex-alentejanos continuam sob administração espanhola.
Celta 7 - Benfica 0
Ficou na história como um marco negro do clube da Luz. Em Novembro de 1999, o Benfica jogou com o Celta de Vigo para a taça UEFA e perdeu por 7-0. Com a assinatura dos galegos, esta foi a maior humilhação de sempre sofrida pelos encarnados. Os jogos para as competições europeias contra clubes espanhóis são sempre difíceis, mas nunca se tinha visto um esmagamento assim.
Sobretudo no Algarve, são comuns os tiros de aviso das lanchas rápidas da Marinha de Guerra contra embarcações de pesca espanholas, que arrastam ilegalmente em águas portuguesas e não se deixam interceptar. Estes pescadores nem pagam as multas enviadas para Espanha. Em termos de política europeia, os dois países mantêm divergências sobre o acesso às águas e aos recursos piscatórios.
Em Novembro passado, José María Aznar confirmou a construção de uma linha de TGV até à Extremadura, unindo Madrid, Cáceres e Badajoz. A decisão foi tomada sem haver acordo prévio com Portugal para a ligação entre os dois países. Espanha impôs-se e os comboios de alta velocidade deverão entrar em território luso através do Alentejo. O Governo português preferia uma ligação pela Beira Alta, através de Salamanca.
Quando a EDP tentou entrar no capital da empresa eléctrica das Astúrias, o negócio foi travado por Madrid. Os espanhóis criaram uma legislação que não permitia a empresas estrangeiras o exercício de mais de 3% dos direitos de voto nas suas companhias energéticas. Demorou tempo, mas a EDP acabou por entrar em 40% do capital da Hidrocantábrico. Todavia, ainda não se percebeu muito bem a totalidade de contrapartidas oferecidas pelos portugueses.
A Espanha considera-se um país tão grande quanto os maiores da União Europeia, pois na hierarquia do Velho Continente vem logo a seguir ao Reino Unido, Alemanha, França e Itália. Por isso, alinha com eles. O Governo de José María Aznar defende a eleição de um presidente para a UE, enquanto Portugal, um dos países pequenos, é contra a proposta, devido ao receio de marginalização no seio da União.
Quando o navio, que neste momento liberta fuelóleo ao largo da costa da Galiza, já estava condenado a afundar-se, o Governo de Aznar mandou o petroleiro ‘Prestige’ seguir para Sul, na esperança que o acidente se desse mais longe, na Zona Económica Exclusiva portuguesa. Segundo o jornal ‘Público’, a Embaixada de Portugal em Madrid soube da situação pelos jornalistas e não por via oficial. Mas o navio foi ao fundo mais depressa do que o previsto e a poluição acabou por ficar do lado espanhol, para infelicidade dos galegos. A costa portuguesa, porém, ainda não está livre de perigo: a qualquer momento a maré negra pode rumar a Sul.
A população de Miranda do Douro está apreensiva com a intenção do governo espanhol em colocar um cemitério de resíduos nucleares junto à fronteira portuguesa, perto do parque natural do Douro internacional. Os mirandeses protestam, dizendo que, se o depósito é inofensivo, então que o implantem o mais perto possível de Madrid. O ministro Isaltino Morais já disse que manifestará total oposição ao projecto.
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