Santinho Martins é um dos maiores especialistas de arte erótica em Portugal. Não teme as almas puritanas da Nação, porque “a nudez nem sempre é perversa”.
À primeira vista Santinho Martins, de 60 anos, poderia ser confundido com um pornógrafo. Afinal, ele também colecciona desenhos de mulheres nuas e fotografias de órgãos genitais. As aparências, no entanto, iludem. A sua valiosa colecção de arte erótica é uma das mais ricas existentes em Portugal. O espólio inclui peças de porcelana chinesa de dinastias ancestrais e esculturas do tempo da Roma Antiga. “Sempre que vou a uma feira de Antiguidades, não resisto. Junto mais uma peça à minha colecção”, confessa o endocrinologista do Hospital Júlio de Matos.
Santinho Martins começou a comprar quadros e esculturas há quinze anos, quase “por brincadeira”. O ‘hobby’ depressa se transformou em “compulsão”. Hoje, sempre que viaja para o estrangeiro para participar em alguma conferência médica, tenta arranjar um tempo para procurar mais uma peça erótica para o seu museu pessoal. No entanto, as compras mais extravagantes foram feitas em Portugal. “Tenho uma peça feita em arame, que representa uma cabeça de uma mulher. No seu interior encontra-se um pénis”, conta. A obra é da autoria da escultora portuguesa Noémia Cruz e não é mais do que uma metáfora do secreto imaginário feminino. Os corpos nus pintados pelo alfacinha Artur Bual também são uma das suas perdições. É por isso que ele defende que “é no corpo que está o objecto do erotismo.”
PORNO-CHACHADA
Mas onde se situa a fronteira entre a pornografia e a arte? Há um século, Fernando Pessoa exclamava: “O olhar é uma perversão sexual” Santinho Martins não concorda inteiramente com o autor de “A Mensagem” e explica porquê: “Observar uma imagem pornográfica pode ser algo ‘voyeurista’, mas a sua nudez em si mesma nem sempre é perversa.”
Um exemplo? Um quadro renascentista de Miguel Ângelo representando mulheres despidas ou a escultura de João Cutileiro situada no Parque Eduardo VII, embora possam causar alguma polémica, “são inegavelmente obras de arte”. Já num vulgar filme pornográfico ‘hardcore’ não existe “nenhuma componente artística e poética”. Basta alugar um cassete “para adultos” no clube de vídeo mais próximo para comprová-lo: “Ali o acto sexual é explícito, cru, está à vista de todos e esgota-se em si mesmo.”
Para Santinho Martins, a pornografia “está ligada à violência e à submissão do outro” durante a prática sexual, e o seu fim é “proporcionar estímulo sexual” a quem assiste. A arte erótica, pelo contrário, é algo de belo, “que faz apelo à imaginação, à fantasia e ao desejo.” Um apreciador de arte erótica pode ter o mesmo tipo de prazer que um melómano quando ouve a sua música preferida. “Quando nos sentimos bem, libertamos hormonas como a meta-endorfina ou a dopamina”, explica. O endocrinologista conclui a sua ideia: “A arte pode conter pornografia, mas esta dificilmente será arte.”
EROTISMO OU FERTILIDADE?
A barreira entre pornografia e erotismo tem variado ao longo dos tempos e das civilizações. Exemplo disso é o da peça mais antiga de Santinho Martins: um falo erecto do Império Romano. “Os falos comprovam a importância atribuída ao órgão sexual masculino e destinavam-se a evitar o mau-olhado e a falta de potência, sendo simultaneamente objectos de fertilidade”, explica. “Na antiguidade, os símbolos fálicos estavam mais ligados à reprodução do que ao erotismo, embora na realidade não deixem de ser imagens eróticas.” Um dia, quando visitou o Museu de Boston, o médico não pôde conter uma sonora gargalhada quando viu desenhado, num pote de cerâmica da Grécia Antiga, uma imagem de cariz claramente homossexual: “Eram cinco homens a praticar o coito anal. O último deles meteu o dedo grande do pé no ânus do da frente.” O endocrinologista do Hospital Júlio de Matos só tem pena de não ter em casa aquela peça tão ‘sui generis’.
Menos risível é o preço de um pequeno quadro ou uma simples escultura. “Tenho obras de arte que me custaram 500 euros. Mas também existem peças de 3500 euros na minha colecção”, conta. Se calhar por isso é que não se encontram muitos coleccionadores de arte erótica em Portugal. Mas, para além do médico do Hospital Júlio de Matos, existem outros dois grandes apaixonados nesta área: António Cerveira Pinto e Rocha Mendes.
O primeiro é artista, galerista e ensaísta, coordenando o trabalho desenvolvido pela Quadrum, um dos mais ousados espaços culturais de Lisboa. Foi lá que, no Verão de 2001, esteve patente uma exposição dedicada ao tema da pornografia na arte. O segundo é urologista no Hospital Curry Cabral. O seu espólio inclui gravuras do pintor espanhol Pablo Picasso, do impressionista francês Edgar Degas e do português Júlio Pomar.
O CORPO E O DESEJO
Santinho Martins prepara com afinco a próxima exposição erótica, denominada “O Corpo Como Objecto de Desejo”, que estará patente de 20 de Janeiro até 14 de Março, na Sala Polivalente do Hospital Júlio de Matos. Para além das caixinhas de cerâmica chinesas do século XVII, esculturas tribais africanas ou pinturas indianas em marfim, também vão ser expostos trabalhos de autores portugueses como os dos escultores Jorge Vieira e Noémia Cruz, ou dos pintores Eurico Gonçalves, Daniel Nave, Cruzeiro Seixas e Gil Teixeira Lopes. Embora a nudez ainda seja objecto de alguma celeuma, o coleccionador não espera reacções negativas por parte do público: “Os portugueses já estão habituados ao erotismo, principalmente porque são bombardeados todos os dias com anúncios publicitários cada vez mais sensuais.” Nem a Igreja se sente incomodada com os quadros de nus e esculturas representando falos erectos. Afinal, “o erotismo é apenas mais uma forma de expressão artística.”
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