Livros e documentários que apregoam verdade histórica apresentam o Filho de Deus como um homem normal. Terá sido mesmo assim? Ou será uma tentativa de reconstruir Jesus para o tornar igual a nós?
Teve irmãos, casou, foi pai, morreu e o corpo permaneceu sepultado. Qualquer semelhança com a figura de Cristo apresentada nos Evangelhos canónicos há-de ser mera coincidência. É contudo a figura humanizada do Filho de Deus que suscita cada vez maior interesse. E faz vender milhões de livros. E gastar milhões de dólares – com o objectivo de ganhar muitos mais.
Dois milhões de ‘verdinhas’, um pouco menos em euros, foi quanto custou o documentário sobre o alegado túmulo de Cristo, produzido por James Cameron – o mesmo de ‘Titanic’ e do ‘Exterminador Implacável’ –, a exibir amanhã nos Estados Unidos. Durante 90 minutos tenta provar-se que os seis caixões encontrados em 1980 num túmulo perto de Jerusalém contêm os restos mortais de Jesus e da sua família.
Depois de Dan Brown, autor do best--seller ‘O Código de Da Vinci’, ter apresentado, com a aura da verdade histórica, Cristo enquanto pai, Cameron e o realizador israelita Jacobovici aproximam-no ainda mais da experiência humana, ‘concedendo-lhe’ a morte do corpo. De caminho questionam um mistério basilar: a Ressurreição.
Nos Actos dos Apóstolos, o discípulo S. Pedro diz: “Deus ressuscitou-O ao terceiro dia e permitiu-Lhe manifestar--Se não a todo o povo, mas às testemunhas de antemão designadas por Deus, a nós que comemos e bebemos com Ele, depois de ter ressuscitado dos mortos.” Para S. Paulo, sem Ressurreição não há Cristianismo.
Bispo auxiliar de Lisboa e secretário da Conferência Episcopal Portuguesa, D. Carlos Azevedo aceita com naturalidade que, em cada época histórica, de acordo com o espírito do tempo, se sublinhem certas dimensões de Cristo –“pobre e servo; libertador dos oprimidos; religioso e adorador do Pai; taumaturgo [que cura e opera milagres]”.
Muito diferente, continua o bispo, é “tentar denegrir a figura de Cristo e transformá-lo numa pessoa que não foi mediante pseudodescobertas científicas”. Para D. Carlos Azevedo, trata-se ainda de o reduzir “à dimensão do nosso quadro mental” e isso, lamenta, significa perder a oportunidade de “nos deixarmos surpreender pela novidade e pelo mistério.”
Muito pouco é dito pelos quatro evangelistas acerca da vida de Cristo entre os 12 e os 33 anos. Moisés Espírito Santo, professor catedrático na Universidade Nova de Lisboa (UNL) e sociólogo das religiões, não duvida de que “foi um homem como os outros – com uma ou várias mulheres, dado que no tempo dele vigorava o sistema poligâmico”.
Que actualmente se proceda a uma espécie de reconstrução popular da figura de Cristo, acentuando-lhe a humanidade, não surpreende o sociólogo. “Os textos apócrifos [considerados falsos pela Igreja Católica] apresentam-no assim e hoje há autonomia intelectual. Quebrou-se o monopólio da Igreja sobre doutrina”. Ou seja, para o investigador das religiões, trata-se apenas de repor uma faceta que teria sido eliminada dos textos canónicos.
“Se segundo Cameron ou outros aparece um túmulo com uma inscrição, é porque haveria um corpo, logo, não poderia ter ressuscitado e ascendido ao Céu como sustenta o dogma. Confirmaria que Jesus Cristo teria sido apenas um homem”, observa Helena Barbas, professora do Departamento de Estudos Portugueses da UNL e autora de uma tese de doutoramento sobre ‘Maria Madalena – Imagens e Sombras’.
Segundo a investigadora, “este aspecto abalaria outro – o facto de [Cristo] ser Deus ou Filho de Deus”, o que não é novo, constituindo “a essência de muitas heresias, como, por exemplo, o Nestorianismo, que afirma a diferença entre o corpo de Jesus homem e a figura do Filho de Deus”. Quanto à relação com Maria Madalena, é “mais uma acha para a fogueira”, visando directamente o celibato dos padres”.
Helena Barbas não tem dúvidas: “Todos estes esforços para (pseudo)‘humanizar’ a figura de Jesus constituem um ataque ideológico aos fundamentos da Igreja Católica”, até agora “apenas com argumentos pseudocientíficos e pseudo-historicistas”.
Maria João Sande Lemos, do Movimento Nós Somos Igreja, que defende a ordenação de mulheres, tem a certeza de que Cristo escolheu homens casados para apóstolos – “curou a sogra de S. Pedro” –, mas se ele próprio tinha mulher e filhos – e a esse respeito “os “Evangelhos são absolutamente omissos” – pouco lhe interessa. Que assim tenha sido, garante, “não diminui em nada a fé dos cristãos”.
O padre e estudioso da Bíblia José Tolentino Mendonça referiu, em 2005, aquando da publicação do seu livro ‘A Construção de Jesus’, o risco de “dessubstanciação” da figura de Cristo, associado ao interesse crescente na forma em detrimento do conteúdo. Queria dizer que a curiosidade acerca do homem que foi Cristo pode sobrepor-se ao valor da sua mensagem.
“O mais importante é o que ele nos disse – que o amássemos acima de tudo e amássemos os outros como a nós mesmos”, lembra Maria João Sande, para quem, dada a imperfeição humana, o amor ao próximo é o maior desafio. “Pelo menos, podemos tentar.”
TÚMULO DA SAGRADA FAMÍLIA
'ARQUEOLOGIA INVENTADA E VONTADE DE VENDER'
Em 1980, no Bairro de Talpiot, perto de Jerusalém, foram encontrados dez ossários, seis dos quais apresentavam nomes supostamente ligados à família de Jesus Cristo: Jesus, filho de José; Judas, filho de Jesus, Maria, Mariamme, José e Mateus. Quase trinta anos depois, com o produção de James Cameron, apresenta-se ao público televisivo o documentário ‘O Túmulo de Jesus’.
As reacções não tardaram: Fabrizio Bisconti, secretário da Comissão Pontifícia de Arqueologia Sacra, afirmou que tais nomes e em especial a inscrição ‘Jeshua bar Joseph’ – ‘Jesus, filho de José’ – eram frequentes no tempo de Cristo. “Arqueologia inventada e vontade de vender”, fez saber, por seu turno, a Faculdade de Ciências Bíblicas e Arqueológicas de Jerusalém.
SANTO SUDÁRIO DE TURIM
MANTÊM-SE AS DÚVIDAS SOBRE A AUTENTICIDADE
Historiadores, crentes, cientistas, académicos, a discussão entre eles acerca da autenticidade do Sudário de Turim, supostamente exibindo a imagem do corpo martirizado de Cristo, ainda não acabou. Uma porção de tecido foi sujeita a datação por carbono 14. Resultado: remonta a um período entre os séculos XIII e XIV.
Os defensores da autenticidade do sudário contestaram, alegando nomeadamente que a parte analisada tem características diferentes do todo. A Igreja Católica, a quem o Sudário pertence, não emitiu opinião.
PRINCIPAIS FILMES SOBRE JESUS
‘O Evangelho Segundo S. Mateus’ 1964, Pier Paolo Pasolini
Expõe uma visão diferente, marxista, da pregação e martírio de Jesus Cristo.
‘A Paixão de Cristo’, 2004, Mel Gibson
Relata as últimas doze horas de vida de Jesus Cristo, antes da crucificação.
‘ Última Tentação de Cristo’, 1988, Martin Scorsese
Jesus é tentado por uma imagem da sua vida com Maria Madalena.
‘O Rei dos Reis’, 1927, B. De Mille
História de Jesus Cristo de acordo com os Evangelhos
‘Jesus Cristo SuperStar’, 1973, Norman Jewison
Retrata a vida de Cristo, em conformidade com os Evangelhos, embora faça uso da linguagem moderna e de gíria nas letras das canções.
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.