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A psicóloga analisou o discurso político e concluiu que a direita usa muito melhor princípios básicos da psicologia
As escolhas políticas que fazemos resultam de um processo complexo, em que a emoção tem papel primordial. No livro ‘O Cérebro da Política', Edições 70, a psicóloga (e política) Joana Amaral Dias desvenda os mecanismos que nos influenciam a votar à esquerda ou à direita.
Cita no seu livro estudos que mostram que há reações fisiológicas diferentes de pessoas de direita ou de esquerda em resposta a situações de stress. Como é que isto acontece?
Aquilo que se constata é que as pessoas que se dizem de direita, quando colocadas perante situações experimentais de ameaça, mostram mais reações fisiológicas de stress. Como aumento da pressão sanguínea, alteração do ritmo cardíaco, alterações dos níveis açúcar no sangue, produção de adrenalina e outras. O livro não é propriamente sobre as reações fisiológicas, mas é um bom exemplo para demonstrar como o fato de pessoas serem de direita ou de esquerda não resulta de uma mera construção racional do sujeito. Há determinadas estruturas de personalidade e formas de cognição que transformam as pessoas de esquerda ou de direita e até os eleitores oscilantes. Depreende-se que as pessoas que se sentem mais ameaçadas pela ameaça, passe o pleonasmo, ficam mais stressadas, são mais defensivas. Ou seja, mais facilmente vão apoiar políticas contra a imigração, ou o controlo das contas públicas. Ao passo que pessoas que reagem com pouca ansiedade perante a ameaça tendem a ser mais favorável por exemplo ao estranho, nomeadamente à imigração.
Pode-se falar de uma predisposição genética?
Não, aliás o livro é muito claro nisso. A psicologia politica evoluiu muito nestes últimos cem anos. Começou com as famosas experiências do Asch e Milgram, onde nós constatamos que as pessoas cedem absolutamente ao poder da maioria e à autoridade. Essas experiencias continuam pertinentes e atuais, mas integram hoje conhecimentos da genética, da neurociência, sociologia, da fisiologia, antropologia e outras ciências porque a psicologia politica resulta também do cruzamento dessas áreas de saber. Hoje sabe-se que os genes e a influência do código genético existem mas não são determinantes. A interação entre o meio e os genes é que é determinante
A família será sempre a primeira pedra da formação política?
Fala da evolução em ‘u', teoria que explica que são os jovens e os idosos são mais suscetíveis a mudar as suas crenças políticas. Porquê?
O fato de uma pessoa saber se tem rendimento garantido (a reforma) influencia as suas escolhas políticas?
Diz no seu livro que esta é uma faixa etária negligenciada muitas vezes pelos partidos...
É absurdo, e aliás prova como a psicologia política pode dar contributos. São cidadãos que votam mais regularmente e não são abstencionistas, mas são mais voláteis. Portanto, medidas que ataquem a terceira e a quarta idade - para além de me parecem abjetas porque são cidadãos que merecem respeito depois de uma vida de trabalho - são politicamente erradas Porque é desperdiçar uma predisposição para o voto e comprometer o voto mais adequada e mais útil para aquela faixa etária. Do ponto de vista estritamente eleitoral é um erro crasso.
O que fica claro no seu livro é que a emoção é primordial na escolha das pessoas em que se vota...
Diz que as eleições se ganham ou perdem com os indecisos. Porquê?
É especialmente crítica da esquerda. Diz que a direita tem uma narrativa inequívoca e um discurso sobre o mundo que a esquerda abdicou de praticar...
Não sei, se é assim. Até porque já tive reações de pessoas de direita protestando aquela história de que as pessoas de direita reagirem mal a situações ameaçadoras. Isto é um livro de divulgação científica, não se trata de tomar partido, embora as minhas posições de esquerda sejam completamente conhecidas. Não é por vestir a bata que o cientista deixa de ser pessoa. Há críticas e inputs que a psicologia politica pode dar à esquerda mas também à direita. Do ponto de vista da narrativa, da propaganda, da qualidade discursiva, a direita conseguiu construir discurso que tem ressonância emocional nas pessoas, e portanto é mobilizador. Conseguiu transformar a sua ideologia em respostas emocionais e a esquerda - em parte por uma questão de preconceito de achar que não se brinca com as emoções por isso ser considerado manipulador - não conseguiu transformar a suas propostas políticas em valores. E depois os valores não suscitam respostas emocionais, nem uma narrativa ancorada emocionalmente e por isso perde votos. Nós sabemos que um discurso político que fale estritamente sobre os números de emprego do desemprego ou da precaridade, não arregimenta nem mobiliza ninguém.
É um discurso demasiado tecnicista para chegar às pessoas?
É impossível ganhar uma discussão se se aceitarem esses termos?
Um político de esquerda que se distingue por nunca ser defensivo é José Sócrates...
É importante contar uma história com princípio, meio e fim?
Qual é a narrativa da esquerda?
Se calhar o PCP é o único caso de força de esquerda com uma narrativa. Isso explica o sucesso eleitoral?
O crescimento da extrema-direita é potenciado pela falha no discurso das forças adversárias, por exemplo em relação a temas como a família?
Para a esquerda, nacionalismo e autoritarismo são quase sinónimos...
A esquerda está afundada nos seus preconceitos?
Faz também uma analogia entre os conhecimentos da psicologia do comportamento de grupo e o funcionamento da coligação que nos governa. O que é comum?
Esta coligação é um bom exemplo de pensamento grupal, que é um termo de psicologia politica. O grupo está sempre a reforçar a suas próprias crenças, mesmo contra todas as evidências. O caso da política de austeridade é um bom exemplo. Continua contra todas as evidências em contrário - aumenta a dívida, o desemprego, as pessoas vivem cada vez pior... Muitas vezes me perguntam se eu acho que Passos Coelho sabe mesmo o que está a fazer ou é um malfeitor por natureza. A questão não é uma coisa nem outra. A Aliança Portugal - ou melhor a tríplice aliança porque temos de acrescentar o Presidente da República - vai-se reforçando a si própria nas suas crenças. Quando faz um erro, alguma coisa que tem um efeito perverso, em vez de arrepiar caminho, a preocupação é não perder a face. Todos nós experimentámos a situação em que fazemos um erro e em vez de admitirmos esse erro, optamos por justificá-lo, defendê-lo e acabamos por nos comprometer com esse erro, potenciando a hipótese de o repetir para a frente. É um bom exemplo de como funciona um grupo que está em pensamento grupal que é uma forma patológica de funcionamento. E portanto é irrelevante se Paulo Portas e Passos Coelho acreditam naquilo que estão a fazer ou não acreditam, estão engajados num processo patológico do qual será muito difícil sair de uma forma racional ou mesmo emocional.
Esse grupo olha para António José Seguro como um líder degenerado- no sentido da psicologia de ser visto como um líder com poder mas desorientado?
Em Portugal essa cultura está muito enraizada...
Analisando os dois candidatos do ponto de vista científico, digamos assim, Costa é mais eficaz que Seguro?
Não será demasiado tarde para o eleitorado aderir emocionalmente ao atual líder do PS?
Este novo Seguro é mais eficaz?
Os conhecimentos da psicologia política são conhecidos e utilizados pelos partidos portugueses?
Surpreendentemente, constato que não. A psicologia política não é tida em conta quando se desenvolvem estratégias de comunicação, nem é costume fazer um trabalho básico como o estudo do perfil do líder. Alguns dos poucos ‘spin doctors' que temos em Portugal têm pouca formação nesta área, que deveria ser complementar da ciência política. Desperdiçam-se ferramentas comprovadas cientificamente, que poderiam até ajudar a reduzir a abstenção.
Foi muito comentada a sua participação numa convenção do PS. Agora que se demitiu do Bloco de Esquerda, onde se situa politicamente?
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