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João Magueijo: "Posso ter sido muito ordinário"

Cientista garante que tudo o que escreveu sobre ingleses e Inglaterra é mesmo real, "por inacreditável que pareça".

02 de julho de 2014 às 12:53

Há mais de duas décadas em Inglaterra, o cientista português João Magueijo aponta, em ‘Bifes Mal Passados' (Gradiva), defeitos de uma terra "que não vale uma corneta", habitada por pessoas que tiveram "o azar de nascerem nesta porcaria de país". Mas garante que gosta de Inglaterra, na sua "infinita fealdade".

Admite a expulsão do Imperial College de Londres, ou até o fim da mais velha aliança do Mundo, se alguma editora britânica traduzir e publicar ‘Bifes Mal Passados'?

Posso ter sido muito ordinário com os bifes, e eles bem o merecem, mas clarifique-se o seguinte: O Reino Unido e Portugal usufruem da "mais velha aliança do Mundo" baseada num ódio mútuo a espanhóis e franceses. Nenhum aglomerado de impropérios pode destruir esta salutar comunhão entre os dois povos. Quanto à primeira questão, acho que Portugal exibe ainda muitos resíduos da mentalidade fascista (às vezes nos quadrantes mais inesperados), e só por isso não estranho a pergunta. Felizmente não é esse o caso do Reino Unido, que com as suas inúmeras pancadas nunca foi muito dado a repressões. Aqui ninguém é expulso ou despedido por uma coisa tão trivial e mundana como uma carga de caralh... Reprimir dá muito trabalho e o bife é um animal muito dado à preguiça.

O que o levou a descrever as más experiências numa Inglaterra "que não vale uma corneta", habitada por pessoas que "tiveram foi o azar de nascerem nesta porcaria de país"?

Tem muito mais piada escrever sobre desgraças turísticas do que sobre praias tropicais que são fotocópias de postais. As últimas são todas iguais, ao passo que as primeiras, tais como as famílias infelizes, são todas "cada uma à sua maneira", como famosamente disse certo escritor. Os cataclismos associados ao lazer à inglesa têm muito mais pimenta.

Olhar para eles como um etnólogo observa índios da Amazónia é o melhor remédio para combater o complexo de inferioridade de que os portugueses padecem quando está em causa a Inglaterra?

Estranhamente, eu não sofro desse complexo. Mas parece-me que muitos portugueses o têm, e não só relativamente a Inglaterra, mas a toda a Europa do Norte. Será arrogância fazer aos bifes o que eles estão constantemente a fazer aos outros? Quase toda a literatura de viagens inglesa é escrita do ponto de vista de uma implícita (e às vezes explícita) superioridade colonial. Inverter os papéis, no mínimo dos mínimos, dá vontade de rir. E pode até ajudar quem sofra desses ridículos complexos de inferioridade face aos povos do Norte. Talvez.

Os Monty Python sobreviventes concordariam com a sua afirmação de que o humor britânico nasce do facto de o país "ser uma m..."?

Sim, mas é mais subtil que isso. A qualidade redentora dos ingleses é o sentido de humor, e Monty Python é um excelente exemplo. Acredito piamente que um inglês que lesse o meu livro não se sentiria ofendido, e seria o primeiro a inventar pilhérias ainda piores sobre a Inglaterra. Nisto eles são muito diferentes dos alemães, que têm pancadas e defeitos semelhantes, mas sem o efeito suavizador do humor. Ao menos os ingleses riem-se dos seus defeitos, e fazem os outros rir com isso. Os alemães são tão sensaborões que nem vale a pena gozar com eles. São um povo sisudo e dado a extremos: ou lhes dá para tentar matar os judeus todos, ou então para insistir que não se devem matar os mosquitos, pois têm tanto direito à vida como os golfinhos. E em ambos os casos têm estas atitudes sem se rir. Que parolos.

Realça que a língua inglesa tem 50 palavras para designar "chuva" ou "chover", e que a precipitação é constante. Surpreendeu-se ao constatar que ao longo do ano cai mais chuva em Lisboa do que em Londres?

É óbvio para quem vive aqui. A diferença está em que, em Portugal, quando chove é um cataclismo, mas quando está bom tempo é também calor a sério. Aqui é sempre um caso de "nem chove nem sai de cima".

Sendo as praias inglesas "um pântano de esterco", consegue explicar que os turistas ingleses sejam mais conhecidos pelas tropelias nocturnas do que por aproveitarem os areais do sul da Europa?

É precisamente porque nunca tiveram a experiência formativa de gozar um bom areal. Imagine-se o que é ter sido criado nesta m... e, até se ter dinheiro suficiente para fazer férias no estrangeiro, identificar férias com um "pântano de esterco" onde o único divertimento efetivamente resulta de "uma grande bebedeira, uma cena de porrada e uma queca rápida espojinhado num lavabo imundo". E depois põem-lhes uma praia linda à frente, e dizem-lhes que é bonito. E o que é que eles fazem? Grande bebedeira, porrada, queca rápida, etc., etc.! Dar-lhes as praias do sul da Europa é atirar pérolas a porcos.

Arrisca uma estimativa dos danos sofridos pelo seu organismo após duas décadas de comida britânica?

Seriam vastos, imensos até, se de facto ingerisse essa dieta. Felizmente, passo metade do tempo fora de Inglaterra, e quando em Londres evito a comida inglesa. O que não falta aqui é cozinha de outros países, incluindo a portuguesa. Não morro à fome, abstendo-me das gordurreias inglesas.

Afirma que a Inglaterra tem um sistema de castas ainda mais explícito do que o indiano. Vislumbra maior tolerância para com os estrangeiros em alguma classe social?

Infelizmente, a maior intolerância com os estrangeiros provem da "working class" (que me recuso a traduzir por "classe operária", precisamente porque a inglesa é uma bela porcaria comparada com a dos outros países, especificamente Portugal). Devidas excepções assinaladas, a maior intolerância, racismo e xenofobia vêm exactamente das classes-ditas-baixas em Inglaterra. Quanto ao resto, às outras classes, depende muito dos casos individuais. Mas, inesperadamente, a maior tolerância encontrei-a na estratosfera aristocrática. Não sei se isto é real. Se calhar, escondem melhor os preconceitos, não sei.

Ficou muito impressionado com os motins nas cidades inglesas em 2011. Será que foram apenas um ensaio para algo ainda mais grave?

Não creio que seja um ensaio para algo mais grave, mas seguramente é um problema recorrente. O sistema de classes britânico cria uma ampla classe de gente sem recursos, mas pior ainda, com um sentimento de alienação face ao resto. Gente que se sente desligada da sociedade, e é capaz de qualquer acto anti-social, por mais brutal que seja, sem muita motivação específica. Isto rebentará sempre em explosões de violência desarticulada. Veja-se o caso recente de todos estes britânicos que foram lutar para a Síria e Iraque... Este tipo de fanatismo só pode nascer num vácuo total, num "estou-me a cagar para tudo".

‘Bifes Mal Passados' não tem muitas páginas dedicadas à monarquia. Diria que os defeitos que aponta à Inglaterra e aos ingleses persistiriam numa república?

Isso não é verdade: falo imenso da monarquia, precisamente porque lhes acho imensa piada. Por exemplo, o príncipe Philip é um atrasado mental tão grande que tinha de figurar proeminentemente. Agora não acho que converter Inglaterra numa república mudasse muito. Por exemplo, o sistema de classes pode ser um subproduto de um regime associado à monarquia, mas manter-se-ia, e de muito boa saúde, no improvável caso de a rainha receber uma ação de despejo.

Conhece assim tantas meninas finas inglesas que, ao ficarem podres de bêbadas, são mais ordinárias do que uma varina portuguesa?

Revela que, devido ao estilo de vida de Cambridge, chegou a vomitar para cima da mulher do diretor do Colégio de St. John's, mas no dia seguinte todos fizeram de conta que nada se tinha passado. Isto seria possível em Portugal?

Em Portugal a pena de morte seria reinstituída para lidar com o caso. Os ingleses, de facto, não levam as coisas a peito muito facilmente. "They take it in their stride", como se diz aqui: olha, este vomitou-me em cima da mulher, e depois?...

Enumera os principais defeitos dos ingleses, desde a falta de higiene à obsessão com o espaço entre carruagens e a plataforma. Qual é o que perturba mais?

A estupidez e incompetência combinados com a impressão de que isso é "cool". Quando é um português a ser incompetente é "um preto do Sul da Europa" que não tem miolos, mas quando é um bife (ou um sueco, ou gente dessa) acham que é um exemplo de inteligência fulgurante. As piores incompetências que presenciei ocorreram em Inglaterra (o que é surpreendente, considerando que passo vários meses por ano na Itália). E o irritante é o facto de acharem que estão a ser "superiores" com isso.

É só mesmo entre os ingleses que fazer sexo oral é mais comum do que dizer "bom dia" ou "boa tarde" às pessoas conhecidas?

Isto é para eu falar do Bill Clynton, não é? Adiante. Essa coisa do sexo oral não contar como sexo é certamente uma característica anglo-saxónica, que se encontra também disseminada nas culturas associadas, por exemplo na americana e canadiana.

Vê alguma contradição entre a violência e agressão entranhadas na maneira de ser dos ingleses e os inegáveis triunfos artísticos, literários e científicos do país?

Como digo a certa altura no livro, não só não há contradição como penso que as duas coisas estão ligadas. Se não houvesse tanta agressão neste país também não haveria tanta energia criativa. Aliás não estou a dizer nada de novo. Primeiro exemplo que me vem à cabeça: o filme 'Laranja Mecânica', que aborda precisamente este assunto. Hooliganismo e Beethoven não só não são contraditórios, como são grandes parceiros.

Deixa uma garantia aos leitores: todos os episódios que relata aconteceram mesmo, "de uma forma ou de outra". Pareceu-lhe que a realidade ultrapassava a fronteira do que é verosímil?

Claro. O bife é um animal tão proboscídeo que, em partes, pode parecer que sou eu a inventar o homem elefante. E no entanto tudo o que se relata neste livro, incluindo o mais obsceno, passou-se mesmo, por inacreditável que pareça. Mas a razão dessa nota final é outra. Quis proteger a identidade de muita gente que ali figura, e portanto há uma espécie de código criptográfico, baseado em retirar as coisas do contexto e baralhá-las. Achei que o leitor devia ser informado disto.

No entanto, admite que, no seu caso, ficar em Portugal "teria sido a asfixia". As oportunidades de investigação são aquilo que torna suportável a permanência?

Não só. Também digo que isso seria como passar a vida no dentista: faz bem à saúde, mas não é um prazer. Claro que acabo por gostar de Inglaterra, com a sua infinita fealdade, além das oportunidades de investigação. Tenho feito várias tentativas de mudança, mas acabo sempre por voltar. Passei dois anos lindos no Canadá, mas acabei por regressar. Tentei passar metade do tempo em Portugal, e foi uma desgraça. Neste momento passo cerca de um terço do ano em Roma, mas a minha base continua a ser Londres. Com todos os defeitos, isto há de ter algo de bom, bem escondido por baixo da superfície. Nunca hei-de conseguir passar o tempo todo em Inglaterra, mas também nunca a conseguirei deixar completamente.

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