Não soube dizer não à pasta da Defesa, mesmo sem ter ido à tropa. Foi atingido pelas mortes no 127º curso de Comandos
Escreve com as duas mãos e joga ténis com a esquerda. Adora t-shirts. Se puder fugir de uma gravata, foge. Foram muitas as vezes, nos estúdios de televisão na Cidade Invicta, que lhe emprestaram uma camisa para entrar no ar. José Alberto de Azeredo Ferreira Lopes, um crânio em Direito Internacional e do Mar, chegou ao Ministério sem tropa feita e depressa se tornou num alvo a abater. O teimoso como uma porta – a metáfora não é bonita, mas é aquela que de imediato espelha o grau de obstinação que o assiste – viu-se alvo da indignação dos generais.
Depois do tabu da homossexualidade no Colégio Militar e da demissão do Chefe de Estado-Maior do Exército, Vasco Lourenço juntou-se ao coro de protestos de militares contra o ministro da Defesa, apelando a que nenhum oficial aceitasse tomar o lugar de Carlos Jerónimo. Numa carta aberta, Garcia Leandro, ex-vice-chefe do Estado-Maior do Exército, deixou até ao ministro um aviso que não precisa de bom entendedor: "Se voltar a repetir este procedimento com outros chefes de Estado-Maior, é provável que saia o ministro em vez do chefe de Estado-Maior em causa."
Azeredo Lopes aguentou-se, mas, no início deste Setembro, a morte de dois instruendos do curso de Comandos voltou a pôr a Defesa na ordem do dia.
NA ERC
Morais Sarmento voltaria a lançar segundo convite ao doutor em Direito: presidir à recém-instituída Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC). O director do Centro Cultural de Belém, Elísio Summavielle, que lhe aprecia a "inteligência e a ironia fina", não duvida: "Fez um bom trabalho."
Há quem não pense da mesma maneira: "Protegeu José Sócrates." A indicação do seu nome terá sido acordada entre o primeiro-ministro do XVII e XVIII Governo e Marques Mendes, o então líder da oposição. Entre 2006 e 2011 muito aconteceu; a extinção do jornal nacional da TVI, por exemplo, e, como prossegue um antigo jornalista, "outras caldeiradas". Foi precisamente na ERC, entre 2006 e 2011, durante governos socialistas, que Azeredo ganhou notoriedade e inimigos. Já em 2009 tinha ficado famosa a polémica em que acusou membros da entidade a que presidia de estarem na origem de uma fuga de informação para o ‘Expresso’ sobre o depoimento de um administrador da Media Capital no caso da TVI no tempo de Sócrates. E já em 2010, Luís Gonçalves da Silva, vogal da ERC, demitiu-se por considerar que o organismo não era isento nos processos que envolviam o poder político e pediu "reflexão sobre o modelo de regulação".
MESTRE COZINHEIRO
Acima do clube das cores do xadrez acha-se a sua família. A mulher, Isabelle Tulekian, francesa de origem arménia, professora universitária, e três descendentes, Guilherme, Leonor e Maria. Foi pela ocasião do baptizado da filha mais nova, no raiar dos anos 90, que Azeredo Lopes procurou o padre José Nuno Ferreira da Silva, para oficializar o primeiro sacramento da filha, nascida com trissomia 21. Azeredo Lopes e Nuno Ferreira haviam travado conhecimento na Universidade Católica do Porto, nos tempos em que o sacerdote estudava Teologia e o ministro era professor assistente de Direito. Eis os encómios vindos do actual Capelão do Hospital de São João e Assistente Diocesano dos Capelães Hospitalares e da Pastoral da Saúde: "Tem lucidez, verticalidade, coerência e uma inteligência aguda da realidade."
E é um amigo para toda a vida. Após ter sido tornada pública a queixa que o padre José Nuno Ferreira da Silva fez, em 2010, ao núncio apostólico em Lisboa, D. Rino Passigato, onde constava a suspeita de assédio sexual de D. Carlos Azevedo, Azeredo Lopes deu a cara pelo padre Nuno Ferreira.
Homem de fé, com ligações à hierarquia da Igreja, não poupa críticas se o assunto lhe tocar o calo. Dizem que é o seu lado minhoto, vindo do pai, que o faz não ter papas na língua. No Facebook, local por si povoado à grande e sem baias até ir para o governo, a propósito da ausência de Cavaco Silva nas comemorações do 5 de Outubro, apelidou-o de ‘rapaz malandro’, mas em inglês.
A sua mãe, professora, dava aulas na escola Carolina Michaelis, bem de frente ao liceu Rodrigues de Freitas, onde Azeredo Lopes andou desde o antigo 7º ano, em 1974/1975, até ir para a faculdade. Carlos Vale Pereira, colega de carteira, recorda: "José Alberto era acima da média. E era muito amigo do seu amigo." A fase do PREC haveria de ser vivida apaixonadamente. Cada um na sua barricada. Carlos à esquerda e Azeredo Lopes mais à direita, próximo de Adelino Amaro da Costa, personalidade que o marcou bastante. Defendia valores suspeitos para o Processo Revolucionário em Curso e marcou presença nas manifestações organizadas por Pires Veloso. Morais Sarmento sintetiza-o: "É um homem de direita atípica. Revolucionário mesmo em matérias internacionais." Os filmes dantes chumbados pela censura desataram a chegar a Portugal. Logicamente que os viu. Os laços de camaradagem entre os dois colegas de turma não acabaram com o final do liceu. Carlos Vale Pereira ingressou na universidade, mas depois optou pela vida empresarial. Azeredo Lopes ingressou na Faculdade de Direito da Universidade Católica do Porto. Em 2002, já é Doutor.
Um docente universitário caracteriza-o num repente: "Faz parte dos professores que não amedrontam os alunos. Ajudam-os." Homem de causas, a razão de ter ido trabalhar na equipa de Rui Moreira, garante um antigo social-democrata, dispõe de cinco letras: Porto. O mesmo ministro assegura: a Azeredo Lopes não lhe é conhecida ambição política. Largou o gabinete de Rui Moreira não por ser alguém incapaz de finalizar as suas obrigações: "Tem a ver com quem lhe lançou o convite para ser ministro. Não soube dizer não." Disse sim sem ter tido uma única experiência ministerial. Não é o único. E não será o primeiro a não ter cumprido o serviço militar obrigatório. Pediu adiamento atrás de adiamento.
A sua capacidade de rir de si próprio é, revela fonte próxima, ilimitada. Outrora, numa altura em que por motivos profissionais dividia casa na rua das Trinas, em Lisboa, com um amigo, o funcionário do café pensou que se tratava de um casal gay. Azeredo Lopes não se ralou e até alimentou, por segundos, a ideia. Que nunca se confunda uma brincadeira com um assunto sério: após as afirmações do sub-director do colégio Militar, o Ministério da Defesa considerou "inaceitável qualquer situação de discriminação, seja por questões de a Constituição e a Lei", e exigiu explicações ao Estado-Maior do Exército e o afastamento do subdirector do Colégio Militar. Os militares não acharam piada nenhuma.
As duas mortes ocorridas na sequência do treino do 127º curso de Comandos colocaram-no no centro da actualidade e o ministro da Defesa acabaria por ir ao Parlamento.
Terá sido mau casting, diz um coronel que não dá a cara. Numa das suas crónicas no ‘JN’, em de Outubro de 2015, escreveu: "Mesmo que isto tudo fosse possível – e tenho dúvidas firmes –, não seria um Governo de ‘Esquerda’. Porque não existe ‘Esquerda unida’ (a não ser como conceito) no atual sistema político-partidário nacional". Mais um mês e este portuense de 20 de Junho de 1961, fundador da ‘Somos Nós’, Associação para a Integração e Autonomia de Jovens Deficientes, tomou posse.
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