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Lagosta suada

‘A Lagosta’ não é um filme para estômagos sensíveis. Fala de relações num mundo diferente do nosso ou nem tanto quanto isso

22 de maio de 2016 às 15:00

Que animal é que você gostaria de ser depois de morrer? Um cão? Uma mosca? Um leão? Lagosta é o animal que dá nome a este filme, que, apesar das aparências, não trata o tema da reencarnação. O enredo é, aparentemente, descabido e surreal - trata-se de uma sociedade, em muitas coisas igual à nossa, na qual nenhum adulto pode estar solteiro mais do que 45 dias. Assim, de cada vez que alguém perde um parceiro é levado para um hotel especial para que volte a encontrar um par. Nesse local, encontram-se, portanto, desemparelhados que devem, rapidamente, formar um casal. Caso a alminha solitária não seja bem-sucedida, será levada para a floresta para ser abatida e transformada no animal que escolheu para encarnar. Já esses bosques não são apenas habitados por condenados, mas também por rebeldes a este sistema estapafúrdio. Tão revolucionários que são fanáticos. Soa a maluquice? Visto ainda é pior. Na verdade, estas liberdades do filme põem a nu o absurdo que pode ser o paradigma do amor romântico em que vivemos. Na contem- poraneidade ocidental, as pessoas não nascem destinadas a casar com outras, não se fazem o tipo de arranjos matrimoniais e de conveniência do passado e, aparentemente, cada um namora/junta-se/casa com quem bem entender. O paradoxo reside, pois, na pressão que existe para constituir par. Ou seja, é como se a nossa sociedade atual gritasse o tempo todo: "Podes ficar com quem quiseres, desde que fiques com alguém!".

 

Companhia

Assim, todos os solteiros têm de responder à pergunta: "Então, quando arranjas companhia?", proliferam sites e aplicações para o telemóvel de encontros ou namoros e, sobretudo, na televisão ou nas redes sociais a felicidade parece ser obrigatória. A felicidade é o produto último e acabado do consumismo. Já a solidão é insuportável, o silêncio e a falta de estimulação são indesejados. O paradigma é o do amor romântico mas este mundo parece um deserto onde não mora sonho, desejo.

‘A Lagosta’ não questiona apenas essa venda da felicidade, mas interpela igualmente o tipo de relação que os pares constroem. Por exemplo, nesse hotel que, afinal, é como se fosse um centro reeducativo próprio das ditaduras, os potenciais casais têm de ter uma característica em comum que, no tom supostamente disparatado do filme, pode ser sangrarem do nariz ou apresentarem uma tremenda falta de empatia. A longa-metragem satiriza igualmente essa ideia de que um ingrediente fundamental para o sucesso das relações é os mesmos gostos ou os mesmo interesses (o que pode até surgir num questionário nos tais sites de engate), como se o amor fosse uma lista de filmes, livros, restaurantes, estilos ou mobília. A intimidade, a partilha, a confiança, o sacrifício, o investimento e o esforço não vendem sabonetes. Enfim, ‘A Lagosta’ é uma dura e inesperada distopia sobre o amor pronto a vestir, plástico, aditivado, regido por uma app. ‘A Lagosta’ é suadinha e não se recomenda a estômagos sensíveis.

 

realizador Yorgos Lanthimos

Interpretação Colin Farrel

exibição DVD

FILME

‘Viver à Margem’

Eis um filme sem história: apenas o retrato de um homem que vive na rua. Um vagamundo, como diria Pessoa. Aqui não moram sentimentalismos ou brilharetes, mas apenas um filme sóbrio e direto que ilumina uma parte da vida nas grandes cidades que, a maioria das vezes, está soterrada. E, vejam bem, Richard Gere faz um papelão.

realizador Oren Moverman

exibição cinemas

FILME

‘O Amor é uma Coisa Estranha’

Dois homens vivem 40 anos juntos e casam-

-se. Quando tudo parecia encaminhado para a estabilidade plena, a vida troca-

-lhes as voltas. Trata- -se de um filme tranquilo, subtil e agri-doce sobre um pequeno drama burguês. Com honestidade e sem estridências, consegue despertar compaixão.

realizador Ira Sachs

interpretação John Lithgow, Alfred Molina

exibição cinemas

 

FILME

‘Bons Rapazes’

Chegou o filme mordaz e ritmado, muito bem construído mas despretensioso, de que estávamos a

precisar. As interpretações são geniais e a trivialidade muito inteligente. Para esta primavera, eis a comédia perfeita.

+ info.:

O realizador participou no filme ‘O predador’ em 1987

realizador Shane Black

Interpretação Ryan Gosling, Matt Bomer, Russell Crowe

exibição cinemas

FUGIR DE:

‘Actividades Criminosas’

Um punhado de amigos de longa data decide fazer um investimento que supostamente o tornará rico. O dinheiro é emprestado e o negócio falha. Só sobram os sarilhos que não passam de um amontoado de clichés, contrabando das longas-metragens de Tarantino, género contrafação de feira. Material fraco, imitação foleira. Ninguém merece.

realizador Jackie Earle Haley Interpretação

Michael Pitt, Dan Stevens, Christopher Abbott, John Travolta

exibição cinemas

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