No século XX português, poucos homens foram tão influentes. Mas a personalidade do fundador do Partido Socialista, ex-Primeiro-Ministro e ex-Presidente da República é complexa. Eis três episódios que mostram traços obscuros do homem que cresceu como um ‘menimo mimado’.
Por Maria Filomena Mónica
Antes do 25 de Abril, alguns dos meus amigos esquerdistas tinham-me falado de Mário Soares com sobranceria. Apesar de este já ter sido preso doze vezes pela PIDE, não o tinham em consideração, por não o considerarem capaz de concretizar a revolução proletária de que o país supostamente carecia. Até que um dia chegou a Revolução dos Cravos, o que permitiu que Soares regressasse do exílio.
Lembro-me de o ver, a 28 de Abril de 1974, a discursar na varanda da estação ferroviária de Santa Apolónia. Lembro-me de o ver junto ao Palácio da Cova da Moura, sede do Estado-Maior General das Forças Armadas, onde se deslocara para um encontro com o general Spínola. Lembro-me de o ver, entre Álvaro Cunhal e um marinheiro, no primeiro 1º de Maio em democracia. Lembro-me de o ver junto à sede do ‘República’, quando este jornal, um dos poucos não afectos ao PCP, foi ocupado pela Comissão de Trabalhadores. Lembro-me de o ver, em 1975, empenhado na concretização de umas eleições contestadas pelo PCP e pela esquerda radical. Lembro-me de o ver lutando para que o país aderisse à CEE. Lembro-me de o ver, enérgico, quando, na sede do MASP, reinava o desânimo após os maus resultados obtidos na primeira volta das presidenciais.
No século XX português, poucos homens foram tão influentes quanto Soares. Até certo ponto, era único, como única era a sua atitude em relação a um sem número de coisas. Nunca ouvi alguém falar da passagem pela prisão como ele o fez. Em vez de se armar em mártir, mencionou episódios dolorosos com um sorriso altivo. Física e psicologicamente era corajoso, o que, num país em que impera um medo ancestral, se notava. Muitas das suas características, boas e más, vinham-lhe de ter sido um menino mimado. Sentia-se capaz de tudo – o que era positivo – e acima das regras que norteavam os restantes mortais – o que era negativo. Algumas coisas - a criação da ‘sua’ Fundação, os dinheiros do Partido Socialista, a clique de que se rodeou – levantam suspeitas, mas, aqui, como na vida, temos de separar o trigo do joio.
Encontros e desencontros
Só ocasionalmente me cruzei com Soares e, por muito que me custe dizê-lo, as nossas conversas terminaram sempre mal. Em 2002, a SIC estava preparar uma série intitulada ‘O Século XX Português’, a que Mário Soares estivera ligado, tendo posteriormente desistido de o fazer, pelo que a empresa me pediu a consultadoria histórica. Terminada a série, a realizadora optou por a mostrar ao Dr. Soares, o qual, ao ver o primeiro episódio, discordou que algumas imagens fossem exibidas. Temerosa, a equipa solicitou que me dispusesse a dialogar com ele. No episódio em causa falava-se do regicídio, pelo que surgiam imagens do carro funerário que transportava o corpo do rei D. Carlos. Virando-se para mim, Soares declarou que teríamos de retirar "aquilo", não fosse alguém pensar que tinha havido gente a chorar a morte do rei. A sua posição era tanto mais patética quanto, ao contrário do que afirmava, as pessoas que, da rua, olhavam o cortejo, eram poucas. Mas queria aquilo cortado, porque…
Não o deixei acabar, tendo dito à equipa da SIC que, se cortasse um milímetro que fosse da série, eu retiraria o meu nome do genérico. Isto não impressionou o Dr. Soares, que optou por mudar de táctica, tendo declarado ser eu "uma salazarista". Afirmei que não lhe admitia lições e que, já agora, o obrigava a ver o 2º episódio, sobre os primórdios do Salazarismo, em que certamente notaria o que eu pensava do Estado Novo. Foi então que percebi que Soares não tolerava quem lhe fizesse frente.
Alguns anos passados, voltei a encontrá-lo numa sessão cinéfila, na Embaixada de Marrocos, para a qual eu fora arrastada pelo meu amigo António-Pedro Vasconcelos. Ao fundo, estava Mário Soares. Um homem que gostava de mulheres, cometeu o erro de julgar que me conquistaria, dizendo-me, entre sorrisos, que o tratasse por Mário, coisa que recusei. Eu tinha acabado de vir de Barcelona, pelo que lhe disse que, se calhar, sem a revolta dos catalães (1598/1640), Portugal jamais teria reconquistado a independência. Declarou não ser eu uma patriota, após o que me virou as costas. Foi então que percebi que podia ser malcriado. O terceiro encontro teve lugar em casa de um amigo comum. A certa altura, a conversa enveredou por um jantar que Soares tivera em Paris. Contou-me que tinha estado no Chez Lipp, na companhia do Embaixador Seixas da Costa, quando lhe ocorreu telefonar ao eng. Sócrates para que este fosse ter eles. A meio do relato, perguntei-lhe de onde, na sua opinião, vinha o dinheiro que permitia ao ex-Primeiro-Ministro levar uma vida tão faustosa. O tom das vozes elevou-se. Dado que o nosso anfitrião era um senhor importante, decidi que o melhor era regressar à minha posição de cega, surda e muda. Foi então que percebi que, sob o seu ar bonacheirão, existia uma placa jacobina.
Como todas as personagens interessantes, a personalidade de Mário Soares é complexa. Do lado positivo, temos a alegria de viver, a coragem, o instinto político; do negativo, a prepotência, o desprezo pelas regras e a incapacidade de lidar com iguais. Soares correu o risco de ser um Kerenski português – alguns vaticinaram-lhe tal destino – mas sempre considerou que, como veio a acontecer, seria capaz de vencer Cunhal. Apesar dos seus defeitos, Portugal deve-lhe muito. É bom não o esquecer.
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