‘O demónio de neon’ tem como protagonista Jesse, que está determinada a ser modelo profissional em Los Angeles, e tudo é possível
‘Transforma-se o amador na cousa amada’, escrevia Camões, inspirado por Petrarca. Transforma-se o amante naquilo que ama, metamorfoseia-se o guerreiro naquilo que combate, advém o ressabiado naquilo que despreza. Não é incomum e acontece – o sujeito ficar parecido, acabar por se assemelhar com o objeto do seu desejo /ódio. Ainda que, no caso do amor, a transformação seja da ordem do crescimento e do conhecimento e, no caso do ódio, seja da ordem do decrescimento, da morte. Combater o fundamentalismo com posições radicais ou castigar o crime com crime são disso exemplos comuns.
O filme
Trata-se também do tipo de paradoxo em que cai o último filme de Nicolas Winding Refn. Pretende-se criticar o mundo da moda, a sociedade espetáculo, o narcisismo, a superficialidade e o império da imagem pela imagem, a contemporaneidade doente e canibal. E ‘O Demónio de Neon’ é exatamente esse universo, e apenas esse – moda, espetáculo, narcisismo, superficialidade, canibalismo. É literal, não tem metáfora ou metonímias, não imagina ou supõe. É tudo aquilo e apenas aquilo mesmo, sem entrelinhas, sem símbolos. Os atores não interpretam, posam e o filme choca por chocar, sem narrativa ou mensagem. É como se fosse um mundo autista onde a linguagem, e toda a base de sustentação da humanidade e cultura – o simbólico, a fantasia e o implícito – não pudessem existir. E nesse espetro tão curto, sentido de humor e erotismo não entram, claro. Sobra a pornografia e a gargalhada brega. A hipótese mais benevolente dirá que o filme, mais do que se apropriar dos códigos do glamour, encarna-os, veste a sua pele, faz do seu corpo o seu casulo, estando muito para além de uma simples sátira. Pode até ser mas, nesse caso, limita-se a incorporá-los exatamente como um canibal incorpora o outro. Literalmente. Esta ultima longa metragem de Refn parece querer captar a mescla perigosa da beleza com a brutalidade e do luxo só que… transforma-–se o amador na cousa amada e ‘O Demónio de Neon’ não passa disso mesmo, de uma luz Neon, muito chamativa e brilhante mas pouco mais. Na verdade, sai-se da sessão com um amargo de boca, uma certa sensação de desamparo. Uma crítica sólida e inteligente à sociedade de consumo teria, com certeza, um efeito de consolo, daria, seguramente, uma impressão de outro mundo ser possível, mesmo que não chegasse a vias de facto, mesmo que não conseguisse propor alternativas ou supor uma comunidade diferente, melhor, mais densa e solidária. Assim, transformando-se o filme exatamente naquilo que pretende escalpelizar e criticar, o público é deixado num imenso vazio, num deserto infinito. Fica-se com medo do espaço aberto e vivo na área contígua da sala de cinema. No limite, fica-se com medo de desaparecer, medo do vácuo, de morrer. Transforma-se o amador na coisa amada e, talvez por isso se diz que só a poesia (ou, na versão de Camões, ‘as valorosas obras’) nos liberta da morte..
realizador Nicolas Widing Refn
intérpretes Elle Fanning e Jena Malone
exibição Cinemas
Série de televisão
‘Broad City’
Eis uma ‘série de gajas’ que não retrata amores/desamores, intriguinhas e maquilhagem. Trata-se de uma comédia veloz sobre mulheres que tentam mas falham e depois tentam melhor, desastradas, esforçadas, preguiçosas, tontas, espertas. No meio de um quotidiano caótico e sempre imprevisto.
Resumo
Retrato da vida de duas mulheres em Nova Iorque
canal TV series
Género comédia
autores Ilana Glazer e Abbi Jacobson
intérpretes abbi Jacobson, Ilana Glazer, Hannibal Buress
Série televisiva
‘Night Of’
Aqui está uma série com bagagem para se tornar num clássico se não se deixar formatar no cliché da história de tribunal, e seguir mais o pulsar da seiva que capta no brilhante primeiro episódio. Esse número piloto é realmente excecional e pode até ser visto isoladamente. A dúvida toma o espectador e é inquietante.
+info
Série originalmente criada pela HBO
Canal Tv series
Género Crime e drama
autores Richard Price Steven Zaillian
intérpretes Riz Ahmed, Peyman Moaadi, Poorna Jagannathan e john Turturro
Série de televisão
‘Mr. Robot’
Original e até eletrificante, eis um ciber -thriller que vive de um espírito rebelde e esquisito, a lembrar o Brazil de Terry Gilliam. Atenção porque tem potencial viral para a cabeça do espectador, podendo provocar aquele fenómeno de overdose de episódios ao domingo.
+info
Ganhou este ano o Globo de Ouro para Melhor Série Dramática
exibição Tv series
género drama
autor Sam Esmail
intérpretes Rami Malek, Christian Slater, Portia Doubleday
FUGIR DE:
‘Os Traficantes’
Do realizador de ‘A ressaca’ esperava-se uma boa comédia para o verão. Infelizmente, a coisa não passa de uma papa flácida, cheia de capítulos desnecessários e cenas preguiçosas. Mas uma coisa fica– a história real em que se inspira parece ser mesmo interessante e merecedora de destaque. Tomara que façam um filme.
Resumo
Dois amigos participam numa missão para fornecer munições às forças no Afeganistão.
realizador Todd Phillips
intérpretes Miles Teller, Bradley Cooper, Ana de Armas
exibição Nos cinemas
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