Centenas traçam as coordenadas para sítios que antes nem sabiam existir no mapa. Fazem-se à estrada de mochila às costas, tenda e chinelo no pé. Memórias de mais um Verão de amizades e musicomania.
Deslocam-se aos magotes. A mochila às costas e as chinelas nos pés são, nestes dias, os melhores amigos. Mesmo que nunca se tenham visto antes. Rumam a Vilar de Mouros, Zambujeira do Mar, Paredes de Coura enfim, de olhos postos nos festivais de Verão. Os quilómetros que têm de fazer são esquecidos, os mosquitos, as casas de banho sujas, a cama que ficou lá em casa. E a música nem sempre é o mais importante. Nas edições deste ano, os vários festivais receberam mais de 50 mil pessoas por espectáculo. Uma invasão recorde que nem a crise travou.
Ela chama-se Joana Viveiros e tem 23 anos. Ele chama-se Luís Santos e tem 25. São ambos recém-formados em técnicos de Farmácia e ambos se queixam dos preços do consumo interno do campismo, na Zambujeira do Mar, quer dos bilhetes: “cinquenta euros pelo ingresso é muito dinheiro”. Joana Viveiros partiu de Seia (Castelo Branco) e Luís veio de Coimbra. Não fossem as poupanças feitas ao longo do ano, Joana não conseguiria marcar presença nesta sétima edição do Festival do Sudoeste. Presença assídua é também Luís Santos que este ano veio embalado pelo ritmo frenético de Jamiroquai. E no final, feitas as contas, os problemas com o dinheiro, esses, ficam para amanhã.
Bolsos diferentes têm Carlos Hernãn-dez, natural de Madrid, e Vítor Selas, de Badajoz, de 24 e 20 anos. São dois dos cerca de cinco mil espanhóis que marcaram presença no Sudoeste. Sentados em volta de um bar, as horas são poucas para beberem as cervejas que a sede lhes vai pedindo. O calor abrasador é fiel compa-
nheiro. Carlos e Vítor trocaram o Festival Internacional de Bennicàssim (FIB), na costa mediterrânica espanhola, pelo do sudoeste alentejano por uma questão de preços e diversão. É que no FIB (que decorre no mesmo fim-de-semana) teriam que pagar cento e vinte euros por apenas três dias. No Sudoeste, 50 euros bastam para quatro dias de folia. “Não se justifica que se pague cento e vinte euros. Por isso, preferimos vir a Portugal onde o festival é mais divertido e tem umas miúdas portuguesas muito bonitas.”
‘DER SPIEGEL’ E MOLOKO Silka, 25 anos, e Sandra, 26 anos, duas jovens alemãs de Köln e Bielefelde encontram-se instaladas fora da zona de campismo do parque do Sudoeste. No exterior de uma autocaravana lêem religiosamente o jornal ‘Der Spiegel’ para que a realidade do seu país não lhes passe ao lado. Na Alemanha já tinham ouvido falar do festival português. E, de férias no Algarve, não deixaram escapar a oportunidade. Juntaram-se à multidão formada em solo alentejano e aproveitaram para assistir a um festival eclético. Para elas, o cartaz não é o melhor. O chamamento é outro. A ansiedade transparece, mas a espera vale a pena. “Ontem vimos Jamiroquai e não gostámos. Que-remos é Moloko.” A ambiência característica ultrapassa os cartazes dos festivais de Verão. Sobressai a descontracção, nos trajes, nos comportamentos. No riso. No entanto, a falta de higiene encontrada por Silka e Sandra, no Sudoeste, é o maior senão: “Não se pode entrar naquelas casas de banho. É uma imundice”. Nem tudo é positivo para quem se refugia na natureza privada de comodismos.
Sem imposições e riscando no calendário de casa os dias que faltam para mais um “encontro da música”, como lhe chama, Alzira Silva, de 66 anos de idade, não perde uma edição do CBT – Dance Fes-tival, em Celorico de Basto, vocacionado para as novas tendências da música ‘techno’. Alzira Silva diz que embora não goste muito “daquela gente esquisita que por lá passa”, nem mesmo da música, encara aquela como a festa anual do concelho. “Já que não temos romarias."
Cristina Rocha, 24 anos, decidiu, em conjunto com um grupo de amigos, deslocar-se de terras algarvias ao Alto Minho “para curtir o som ‘elektro’".
A PRIMEIRA PASTILHA
Totalmente na “descontra”. Diz Bruno Gonçalves sobre a forma de estar em Paredes de Coura. Eles andam de calções, tronco nu, óculos escuros e chinelos. Elas optam por um ‘pareo’ em volta da cintura ou pelo biquíni. São as imagens de marca. Por entre tendas e mochilas, um grupo de jovens com idades entre os 18 e os 23 anos, aproveitam a ocasião para puxar pelas cordas da guitarra e ‘socar’ uns batuques. Entre eles está André C., 19 anos, de Vila Nova de Gaia. Pela primeira vez está a experimentar as “graças” do Festival de Paredes de Coura e não só. É que André escolheu o festival para tomar a sua primeira pastilha de ‘ecstasy’. “Os meus colegas já tomam há muito tempo, mas eu sempre me limitei a fumar uns charros”, diz como se a inexperiência seja motivo para a vergonha que demonstra. A meio da tarde, em Paredes de Coura, o termómetro passa já dos 40 graus, óptimo pretexto para um mergulho no rio Coura.
Por baixo de um pinheiro, e perante uma gritaria de crianças, estava a família Rocha. Deixaram para trás o bairro da Madragoa, em Lisboa, e juntaram-se a milhares de pessoas para o Paredes de Coura. No total são “mais de vinte pessoas”, diz Eduarda Rocha, enquanto prepara o almoço. As idades variam entre os 14 meses e os 46 anos: “Todos gostam de boa música e este ambiente é agradável para nós. Ainda não faltámos um ano, desde o início do festival.” Os Rocha montam dez tendas. E a hora do almoço é a mais indicada “para sentir o pulsar deste grupo. Depois das refeições desaparecemos e só voltamos a vermo-nos de madrugada, para dormir”.
Durante o dia, o sol abrasador belisca os corpos cansados. As emoções só fervilham com o pôr-do-sol. Cai a noite e a loucura é total.
Passavam já das duas horas da madrugada. Ana Ferreira, 28 anos, estudante em Nova Iorque, onde completa a sua pós-graduação, está em êxtase. Ao som dos Guano Apes, Ana fala de forma desenfreada e sem deixar os pés no chão um só segundo. “Vim de Nova Iorque para estar aqui a ouvir Guano. Perdi dois voos. Aproveitei para vir a Portugal passar uns dias de férias com a família mas este concerto, aqui em Vilar de Mouros, isto nunca poderia perder!”
ANNE, A GRÁVIDA ALEMÃ
Decorria a edição de 2000 do Festival do Sudoeste, quando Sofia Peres, grávida de quase nove meses e a trabalhar numa das bilheteiras do festival, sentiu as primeiras dores de parto. Queixou-se à mãe, que diligenciou a ajuda. No Hospital de Beja viria a ter a pequena Dánia Esmeralda Peres. Três anos depois, em volta da pequena piscina do espaço VIP, a pequena Dánia, entretanto “baptizada” como a “Bebé Su-doeste”, diz que gosta muito de lá estar.
De barriga enorme de grávida, Anne, uma jovem alemã de 26 anos chama a atenção pela sua exuberância no meio do recinto na Zambujeira do Mar, ainda vazio. De vestido curto preto, botas até à canela, Anne dança, corre, salta e bebe cerveja na companhia do companheiro Paulo César, que conheceu há três anos em Hamburgo. Paulo César, um cabo-verdiano de 36 anos, usa longas tranças do movimento ‘rasta’ e assegura que “Anne está bem de saúde e com seis meses de gravidez. Ela foi sempre muito divertida”.
No palco principal, os jamaicanos Sly & Robbie perguntam: “Portugal, how are you doing?” (Portugal, como tens passado?). Com os braços no ar, Anne não tem dúvidas: “Portugal loves you”. Entretanto, está indecisa. Não sabe se continua a seguir os Sly & Robbie, no palco central, ou vai para o Palco ENERGIA/SIC Radical, onde Boss AC, faz as despedidas. Paulo César pega-lhe na mão e segura-a.
Nas traseiras do palco principal do Festival de Vilar de Mouros, a organização decidiu assentar as instalações da Cruz Vermelha Portuguesa. António Gonçalves, 55 anos, é o responsável por uma equipa de 18 profissionais.
Com 36 anos de profissão, o cirurgião que fala de maneira pausada e que acompanha o festival desde o seu início, garante que as principais queixas foram picadas de insectos, entorses e reacções alérgicas. António registara só dois casos com alguma gravidade. Um caso de atropelamento e outro de uma rapariga que ingeriu amoníaco para evitar... mau-olhado.
O PRESIDENTE ATRÁS DO BALCÃO
A vila da Zambujeira do Mar, em Odemira, dista sete quilómetros do local do festival. Cerca de 1000 ‘almas’ moram nos 41 Km2 a sul do Cabo Sardão. Para lá das praias estão a agricultura, a pecuária e a pesca. Mas o turismo é a grande fonte de rendimento.
Para quem não tem transporte próprio, a organização do Festival do Sudoeste colocou à disposição dos festivaleiros uma frota de autocarros, que fazia a permanente ligação. Não é normal ficar restringido ao recinto do festival. A costa oferece atractivos de sobra.
António Rodrigues, 32 anos, nascido e criado na Zambujeira do Mar é um dos motoristas que faz ligação do acampamento à vila. Diz que, desde o início do festival – e já lá vão sete anos – “nunca lá pôs os pés”. Para o motorista, o evento significa “muito barulho junto”, mas admite que traz benefícios à sua terra natal: “Não gosto desse tipo de música, mas é bom porque os de fora vêm conhecer o potencial da nossa terra. Trazem dinheiro e dão trabalho à gente”.
No interior da vila, a agitação é muita e as pulseiras cor-de-laranja ou roxas denunciam os festivaleiros. Os habitantes da Zambujeira do Mar ainda não se habituaram à ideia de ver tanta gente junta. Para eles, nomes como Morcheeba, Múm, Skin, Jamiroquai ou Moloko não significam absolutamente nada, o que querem é apenas sossego.
As ruas estão cheias de vendedores, desenhadores, músicos ambulantes, coisas que os nativos só vêem por “altura do Festival do Sudoeste”, diz Rosa Fernandes, 80 anos.
Sentada à sombra numa esquina de uma transversal da Avenida Miramar, que vai dar as falésias da praia, Dona Rosa Fernandes diz que “toda a gente é bem-
-vinda, desde que se comportem como nós”. Acha piada aos jovens com penteados mais ousados, como os de cabelo grande e carecas e não deixa de comparar com os jovens da sua geração: “antigamente é que era. Os moços apresentavam-se sempre bem penteados e bem cheirosos. Agora, parece que não sabem gozar a vida”, diz, com um sorriso envergonhado.
Tão agitada esteve a vila da Zam-bujeira do Mar que nem o presidente da Junta de Freguesia escapou. Fomos encontrá-lo a servir gelados no restaurante do pai. Por instantes, António Rita Viana, 33 anos, à frente dos destinos da vila há dois anos, trocou o gabinete pelo balcão: “tem que ser assim. Eu faço tudo no restaurante. Está cá tanta gente que não podemos parar”, explica. Para o presidente da Junta, o maior quebra-cabeças é a enorme movimentação de pessoas, de resto “está tudo bem”, embora prefira tempos mais calmos.
Com o festival, a Zambujeira pacata transforma-se numa metrópole dentro de pouco espaço. A variedade dita as regras. A diversão tira lugar ao sono. A euforia contagia tudo e todos. A música, essa, é apenas um pretexto.
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