Provocador e iconoclasta, descreveu a depravação como se fosse uma arte.
Luiz José Gomes Machado Guerreiro Pacheco (1925-2008) foi o melhor aluno do seu ano no liceu Camões e entrou para a Faculdade de Letras com isenção de propinas. Dificuldades económicas obrigaram-no a abandonar a universidade. O seu primeiro emprego foi como fiscal da Inspeção de Espetáculos.
Mas a sua vocação era a escrita e logo em 1950 fundou a editora Contraponto, que viria a publicar escritores como Cardoso Pires, Vergílio Ferreira, Herberto Helder, Mário Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa e Natália Correia, além dos seus próprios livros, de forte pendor autobiográfico. Cultivou desde cedo "a personagem do vadio e do pedinte, de libertino, de libertário, de iconoclasta", como lhe chamou o editor Vítor Silva Tavares, criando um estilo que batizou de ‘neoabjecionismo’.
Passou por períodos de grandes dificuldades, pedindo esmola para sustentar os filhos (oito, de três mulheres adolescentes). No ‘Diário Remendado 1971-1975’ reproduz uma carta bajuladora enviada em 1973 a um industrial, acrescentando uma nota explicativa: "Esta carta rendeu 2 contos (10 euros)."
Além de publicar os seus textos, com destaque para ‘A Comunidade’ e ‘O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor’, tornou-se também um crítico literário temido e um polemista feroz. Nos anos 80 aderiu ao PCP porque gostou de ver o funeral de Ary dos Santos com a bandeira no caixão. Em 2008, quando morreu, também teve direito à bandeira vermelha.
Do livro ‘O Libertino Passeia por Braga, a Idolátrica, o seu Esplendor’, Edições Colibri
"Baixa, encorpada, ancas cheias como se quer, barriga abaulada, leveza nos modos, gravidade e força de mulher no corpo, uma suave expectativa de adolescente. Que beleza! Que maravilha! Morena, olhos atentos, cabelo entrançado (seria? ou rabo-de-cavalo?). Adivinho e aspiro o perfume do seu sexo; leio-lhe nos olhos os gritos que ela daria de prazer se a possuísse agora, nesta luta de vida ou de morte contra o Mafarrico, a última, a grande vitória do Libertino. O espichar de corpo, o estrebuche no orgasmo, que beleza, que maravilha!
(…) passam por mim duas miúdas: uma, grande cu descaído, badalhoca de cara, trouxa de carne a dar às pernas - é a que me tenta; outra, muito compostinha no trajar, casaco preto, saia branca ou creme, muito viva, muito espevitada. Atiro pontaria na badalhoca, a ver se avanço depressa o negócio, jogando no ganha-perde da beleza física e no cálculo das probabilidades dos complexos das feias. Vou-as seguindo, de rabo alçado como um garanhão, e a gorduchona já me topou.
(...) Mas agora o grupo das meninas complicou-se: entrou por ali uma velha gorda, e inútil, e naturalmente sabichona e danada por invejar o prazer dos outros como é próprio de velhas; com ela, e tão empatas como ela, duas estúpidas de duas garotitas, broncas e também inúteis para questões de sexo. (…) vou comprar castanhas ao cimo duma escadaria porque as duas miúdas broncas para coisas de entre-pemas vieram também ali abastecer-se; o meu fito era chegar à fala com elas e daí às mais graudinhas. Começo a comer castanhas e fico raivoso - ou embuchado? Escrevo então dois bilhetinhos (de que desculparão o estilo parvóide: nestas coisas de engates de miúdas e, até, de graúdas, segundo opinam os entendidos, quanto mais estúpidas as declarações de amor mais resultado dão, aqui a intenção, a sugestão é tudo), em folhas arrancadas da agenda, assim: ‘Preciso muito de falar consigo, diga-me o seu nome e morada’, outro, assim: ‘Lambia-te toda, desde as maminhas até ao pipi. Verás que gozo, é melhor que bom’, em linguagem infantilizada, a ver se pega. Amachuco-os até caberem numa bolinha dentro duma casca vazia de castanha, que guardo na algibeira da blusa (...).
A castanha amorosa é para mandar à gorducha ou à outra, a tal compostinha (...). A velha topa-me ou é informada (porque há gente capaz de tudo, seria alguma das miúdas ou das brutinhas primárias?), e resolve arrecadar o rebanho para casa. (…) Preparo uma vingança digna dum Libertino nos domingos sonolentos de Braga. Elas vão ao fundo da avenida; então, chamo um puto com cara de esperto: ‘Eh pá, queres ganhar uma croa? (eu tinha só três) sim, senhora! atão, entrega esta castanha àquela menina que vai ali, de casaco preto e saia branca. Mas de modo que ninguém veja...’ O puto desata numa corrida e eu atravesso logo para o outro passeio, como o bombista que se afasta dos estilhaços que ele próprio provocou. Anarquismo minhoto!"
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