São cada vez mais as mulheres que têm filhos mais tarde. os prós e os contras pela voz delas, no dia que celebra quem dá a vida
No dia anterior ao nascimento de Benjamim, Bárbara Taborda foi à praia e aos Santos Populares. O filho mais novo nasceu dois dias depois de a relações-públicas completar 40 anos, num parto normal em que a mãe conseguiu desfrutar do momento do nascimento de uma forma que não conseguiu fazer com a filha mais velha, quando tinha menos dez anos e toda uma outra perspetiva de vida. Para Bárbara, a idade, longe de ser um peso na gravidez, foi fator de serenidade e descontração, sem receios nem dramas de maior. "Ele nasceu e ficámos ali os dois meia hora, com ele a mamar e todo o tempo do mundo. A idade mostra-nos que isto um dia acaba e por isso temos mais consciência de que temos de desfrutar do tempo que temos com os nossos filhos. Quando fui mãe da Constança, estava a adorar ser mãe, mas não pensava no futuro. Aos 30, queremos viver. Com 40, o meu maior desejo é vê-los crescer, e os meus programas são sempre pensados a três."
Apesar de o pico de fertili-dade das mulheres ser aos 25 anos, há cada vez mais mulheres a ter filhos uma década mais tarde – e até depois –, fruto de várias mudanças na sociedade. "Têm-se observado diversas alterações sociais que contribuem para uma alteração nas etapas de desenvolvimento [os 30 são os novos 20], o que, como consequência, tende a favorecer o adiamento da maternidade. A escolarização é mais longa, a entrada no mercado de trabalho acontece mais tarde, a necessidade de estabilidade económica é maior, bem como a necessidade de uma relação a dois estável e segura. A partir do momento em que ter filhos assume-se como cada vez mais um projeto planeado e estruturado e não uma obrigação, em que, mais do que ter capacidade de os vestir e alimentar, importa ter disponibilidade emocional para cuidar e educar, percebe-se a legitimidade de adiar o projeto de maternidade", contextualiza Filipa Jardim da Silva, psicóloga clínica da Oficina da Psicologia.
No Brasil, chamam a estas mulheres ‘mães lobas’ – uma resposta irónica a uma teoria de Freud de que os homens, quando chegavam aos 40, estavam na idade do lobo, numa referência à vitalidade sexual naquele período da vida. E em Portugal os números não mentem: em 1970, a média de idades de uma mulher que tinha o primeiro filho era de 24,4 anos; em 2014, situava-se nos 30. Em 2011, nasceram 3702 bebés de mães com idades entre os 40 e os 44 anos e no ano passado esse número subiu para 4502.
Exames e medos
"Ainda hoje [quarta-feira, dia 27 de abril] tive uma reunião no Hospital de Santa Maria [em Lisboa]: estávamos a ver as senhoras internadas que tiveram bebés e tinham na sua maioria 30 e muitos, quarenta anos. Até comentámos que tínhamos poucas mulheres a ter filhos abaixo dos 30 anos. Está a aumentar cada vez mais, a obstetrícia mudou muito, já temos exames complementares de diagnóstico com muito melhor precisão, podemos detetar precocemente algumas anomalias, fazer diagnósticos precoces de malformações e também vigiar as gravidezes de outra maneira. Para além disso, todas as mulheres acima dos 35 anos podem ser seguidas nas unidades hospitalares a que pertencem", explica Maria do Céu Santo, ginecologista e obstetra. Por outro lado, continua, "aumenta o risco da diabetes gestacional na gravidez, da hipertensão e de algumas patologias associadas com a idade". Além disso, "o tempo que a mulher leva a engravidar poderá ser dife-rente devido ao envelhecimento dos óvulos, que pode constituir um obstáculo. Fisiologicamente, sabemos que, à medida que se avança na idade, a capacidade de lidar com privação de sono, a recuperação da forma física e a própria resistência física tenderão a poder diminuir", considera por seu lado Filipa Jardim da Silva.
Alexandra Menezes tinha 40 quando engravidou de Constança, 41 quando a filha nasceu. "Tive uma gravidez com algum risco devido à idade, tive um pequeno descolamento da placenta e por isso foi necessário estar em repouso muitos meses, mas o que interessa é que ela já cá está". A bebé tem agora nove meses e nasceu depois de um período conturbado na vida da mãe, uma luz no final de um túnel. "Não fui mãe mais cedo porque quis apostar no meu currículo, chegava a casa depois das 23h30. Depois tive um esgotamento e estive um ano e meio a tomar medicação, tive uma perturbação psiquiátrica e um ano e meio em casa. Nessa altura, nas conversas com o psicoterapeuta é que percebi que estava muito obcecada num ângulo e que a minha vida pessoal estava um bocadinho para trás. Foi o clique".
Tinha 38 anos, mas naquela altura a medicação que tomava impediu-a de começar a tentar de forma imediata. "Depois fui à minha obstetra e ela disse: ‘Perceba agora que, com 40 anos, não é a mesma coisa que aos 20 nem aos 30. Tenha paciência, que pode demorar’, mas a verda-de é que demorei um mês e meio. Essa gravidez não correu bem, mas passados dois meses voltei a engravidar", partilha a técnica de ação social, que só se arrepende de não ter investido mais cedo na maternidade. "Agora olho para a Constança e acho que ela precisava de um irmão ou uma irmã, não devia ter adiado. Eu nunca pensava na morte; agora, quando penso, não é por mim, é porque gostava de estar mais tempo cá para poder ver a minha filha. Não sei, por exemplo, se vou ser avó", lamenta Alexandra.
"A minha mãe, que foi mãe aos 21 anos, dizia-me: ‘Tu, com 40, estás a ter uma gravidez abençoada, eu quase que não me aguentava em pé’, por isso posso dizer que tive uma gravidez tranquila, apesar da idade", brinca a atriz Carla Salgueiro, mãe de Caetana há oito meses. Como todas as mulheres com mais de 35 anos, foi aconselhada a fazer uma amniocentese – que permite eliminar ou confirmar a possibilidade de síndrome de Down ou outra anomalia cromossómica. "Apesar de ter feito um exame antes [Harmony], que disse que o meu organismo era igual ao de uma rapariga nova, resolvi fazer. É uma responsabilidade, trazer uma vida a este mundo", diz quem vinte dias depois do parto (por cesariana) já estava a trabalhar com a bebé a tiracolo, em camarins e digressões.
Também Fernanda Serrano, mãe do quarto filho aos 40, não faz distinção entre uma e outra gravidez. "Correram muitíssimo bem", diz a atriz. "A da Caetana não foi vivida de forma diferente. Os medos, expectativas e anseios, esses, sim, vão crescendo, mas, por mim, pela consciencialização de novos e cada vez maiores perigos na nossa sociedade. E pela falta crescente de oportunidades", conclui.
Marta Braga também foi mãe depois dos 40. "Tinha tido um primeiro casamento que não resultou, já tinha retirado essa ideia da cabeça, pensava ‘vou usufruir mais dos meus sobrinhos’, até que conheci a pessoa ideal, que me falou disso. Pensei: ‘Ou decido agora, ou depois não posso voltar para trás’." Decidiu que sim. Pouco depois, a dona de uma empresa de catering engravidou de Maria do Castelo, agora com 18 meses. "Sinto que aproveitei bem a liberdade até aos 42 anos, depois tudo mudou, mas compensa imenso acordar de manhã e ter uma coisinha daquelas a agarrar-nos pelo pescoço e a dizer ‘mãe, mãe, mãe’." lD
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