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Mais perto do céu

As vidas de trabalhadores para quem subir é o verbo mais comum

16 de junho de 2013 às 15:00

O escritório de António Bento Ferreira tem uma vista deslumbrante. De um lado, a cidade de Vila Real, encaixada entre as serras do Alvão e do Marão. Do outro, o majestoso vale do rio Corgo, que corre 300 metros abaixo do cubo de quatro metros quadrados onde António passa oito horas por dia. E o melhor é que, em poucos segundos, António Bento pode rodar a cabina em qualquer sentido, mas nunca o faz por causa das vistas. Trabalha no topo de uma das maiores gruas alguma vez montadas em Portugal, que até há poucos dias ajudou a construir o viaduto do Vale do Corgo, que se estende ao longo de 2795 metros para permitir a ligação por autoestrada de Bragança a Vila Real.

António, de 53 anos, passou os últimos dois anos e meio a subir e a descer escadas. Os números impressionam: as duas gruas usadas na construção do vão principal têm 210 metros de altura desde as fundações, abaixo dos pilares do viaduto, ao topo, por cima das torres de sustentação. O rio Corgo corre ainda mais fundo, 100 metros abaixo. "Quando a grua chegou aos 170 metros de altura, o meu chefe disse-me que ainda ia subir mais 40 metros. Aí duvidei, disse que não era trabalho para mim. Mas depois convenci-me. No início, fazia-me ainda me fazia impressão, mas depois habituei-me."

António Bento começou a trabalhar como gruista em 1980, graças à ajuda de um cunhado. "Entrei para a empresa Soares da Costa, para a construção civil, mas sempre olhei para as gruas e achei que gostava desse trabalho. Na altura, o meu cunhado era gruista e, com a autorização do encarregado da obra, comecei a subir lá acima e a aprender a mexer nos comandos. Quando saiu um dos gruistas, eu agarrei a oportunidade e desde aí não faço outra coisa", conta.

Escadas sem fim

A obra do Vale do Corgo está quase concluída. As gruas já foram entretanto desmontadas, mas quem lá trabalhou nunca se vai esquecer delas. "No pico do trabalho, éramos oito gruistas, a fazer três turnos diários. As máquinas só paravam se o tempo estivesse mesmo muito mau." Dia e noite, António galgou milhares de degraus da estreita escada que o levava ao topo. "Leva-se entre 15 e 20 minutos a chegar cá acima." Nos meses de maior volume de trabalho, um gruista recebe cerca de 1400 euros por mês. "O ordenado--base é baixo, mas se acumularmos prémios de produtividade e horas extras fica mais composto", explica António.

A operação com as gruas exige concentração total. "Nunca me esqueço de que as vidas dos que estão por baixo de mim dependem das manobras que faço. É possível manobrar a grua sem estar a ver o que se passa lá em baixo, mas só se a operação for coordenada via rádio por um encarregado em quem eu tenha total confiança." A tecnologia é uma aliada preciosa. "Quando eu comecei, havia gruas com bancos de pau, em que a cabina não girava com a lança. Havia momentos em que perdíamos a noção de onde estava a ponta da grua." Hoje, um computador pára o guincho quando a carga está a chegar ao solo, e um aviso sonoro alerta o operador se for excedido o limite de segurança da velocidade do vento. "As coisas mudaram muito e mudaram para melhor", conta António Bento, sentado na confortável cadeira forrada a couro em que comanda o gigante de metal.

A desmontagem das gruas que funcionaram ao serviço da Soares da Costa esteve a cargo da Ibergru. Humberto Reis, de 57 anos, monta e desmonta gruas há mais de 30 anos. "Conheço a África toda, desde a África do Sul a Cabo Verde, já andei pela América Latina, corri o Mundo", conta o técnico, que, com a ajuda do eletricista Joaquim Janeiro, conduziu os trabalhos em altura para a preparação da desmontagem. "Quanto mais alto estou, mais seguro me sinto", diz Joaquim, que aos 50 anos ainda não se cansou de andar pendurado em estruturas metálicas, a apertar parafusos, a pregar estacas metálicas e a ligar cabos elétricos. A crise é palavra que há muito assombra o setor da construção civil, e quem vive de montar gruas sente na pele o efeito da escassez de obras. "Neste momento, consigo ter um rendimento na ordem dos 1500 euros num mês bom, mas aqui há uns anos, quando havia obras, tirava-se muito mais dinheiro", conta Joaquim Janeiro, que há mais de 14 anos se dedica a estas funções.

Um gosto de família

Humberto Reis vivia e trabalhava na África do Sul quando nasceu o filho Daniel. Desde miúdo que se habituou a ver o pai pendurado nas alturas e não tardou a acompanhá-lo escadas acima. O gosto ficou e, aos 18 anos, começou a trabalhar com o pai na montagem de estruturas. Depois optou por outro caminho profissional, mas sempre bem acima do chão: "Comecei a fazer escalada e alpinismo e ganhei o gosto pelas cordas. Especializei-me nos trabalhos em altura que são realizados em torres eólicas."

Daniel Reis, de 23 anos, e Pedro Pereira, de 39, trabalham para a empresa On Rope, que tem na inspeção e reparação de torres eólicas duas das suas principais atividades. Passaram as últimas semanas no Parque Eólico da Senhora da Vitória, na Nazaré. Vistas ao longe, as torres não parecem muito grandes. É preciso chegar perto para ter a noção dos 80 metros de altura das torres eólicas. Só as pás das turbinas têm 37 metros de comprimento. E, sendo um parque eólico, é certo que o vento é um dos principais inimigos de quem se dedica a esta atividade. "É um trabalho muito específico, que obriga a ter várias formações certificadas, relacionadas com o trabalho em altura e a reparação das turbinas", conta Pedro Pereira, que há 15 anos anda pendurado em cordas. Começou por montar outdoors de publicidade, depois especializou-se em eólicas. "É um trabalho aliciante porque nos permite viajar muito. Grande parte do trabalho que fazemos é no estrangeiro", conta Daniel Reis, que não esquece uma paisagem que conheceu na Grécia: "De um lado, tínhamos as montanhas cheias de neve, do outro, a praia e o mar. Foi magnífico."

Daniel não se imagina a trocar o trabalho em cordas por um emprego num escritório, mas admite que a sua profissão tem riscos. "Claro que existe medo, só quem é tolo é que diz que não há medo. Já morreram pessoas a fazer estes trabalhos. Mas temos todos os cuidados e certificamo-nos de que são cumpridas todas as regras de segurança antes de nos pendurarmos nas cordas. Nesse momento, sabemos que nada pode falhar."

Um trabalhador especializado em torres eólicas pode tirar mensalmente cerca de 1500 euros em Portugal (mais perto dos 2000 no estrangeiro). "Mas é um trabalho muito exigente física e psicologicamente, que tem riscos e nos obriga a estar permanentemente em formação", conta Pedro Pereira. E tem o inconveniente de parar no inverno, quando as condições do clima obrigam a suspender trabalhos em cordas no exterior.

De fachada em fachada

Dimitry Anishchik veio da Bielorrússia para Portugal em 2011. "Comecei a trabalhar nas obras. Na minha terra, fazia alpinismo e escalada e comecei a perceber que muitos dos trabalhos com andaimes seriam mais rápidos se fossem feitos por cordas. Em 2005, comecei a fazer trabalhos nesta área como freelancer e, em 2010, eu e o meu amigo português Paulo Almeida criámos a nossa empresa." A Workalp faz todo o tipo de trabalhos em edifícios e outras estruturas. Um dos trabalhos mais recentes que a empresa fez foi a montagem de equipamentos para a exibição de faixas na cobertura do Estádio da Luz, a ‘casa’ do Benfica. E, não fosse o desastrado final de época dos pupilos de Jorge Jesus, os adeptos encarnados bem poderiam ter visto no seu estádio faixas com palavras de celebração nos 50 metros que vão da cobertura até ao relvado. A Domingo encontrou a Workalp num trabalho mais modesto: a empresa está a fazer obras de conservação num edifício de 5 andares, em Lisboa, na zona das Olaias. "As pessoas ainda não estão habituadas a ver trabalhos de construção civil feitos desta forma, mas percebem facilmente que é muito mais rápido e seguro, porque não deixamos andaimes montados que possam permitir o acesso de intrusos", conta Dimitry.

Cláudio Malhó, de 25 anos, é um dos colaboradores da Workalp. Começou a trabalhar com cordas há 10 anos, nos Bombeiros de Alcobaça. "Tirei o curso de operações de resgate e salvamento e fiz várias missões desse género. Comecei a fazer trabalhos em altura como profissão em resposta a um anúncio de emprego." E assim passou a andar pendurado várias horas por dia, mas garante que não sente medo: "Temos muita segurança. Podem acontecer sustos, mas não corremos perigo. Aprendi a trabalhar em todo o tipo de estruturas", conta.

Pedalar nas alturas

Outra tarefa vedada aos que sofrem de vertigens é a montagem de cabos de alta tensão. Que o diga o brasileiro Rogério Gomes, técnico da empresa Pinto & Bentes, que a Domingo conheceu na instalação de linha de alta tensão entre Sines e Fanhões. Pendurados em cabos a mais de 60 metros do chão, os técnicos pedalam nas bicicletas, percorrendo vãos que podem chegar aos 500 metros para instalar amortecedores e separadores na linha. "Sou de Minas Gerais, onde já fazia trabalhos desta natureza. Ao fim de pouco tempo, deixamos de ter medo e só estamos concentrados no trabalho", conta o técnico de 24 anos, que trabalha nas alturas com vários compatriotas. O percurso nos cabos leva os técnicos a pedalarem por cima da autoestrada que rasga a lezíria. Nada que os atrapalhe. "No Brasil, existem linhas ainda mais altas e a distância entre postes é maior. Aqui o trabalho é menos complexo", conta Wagner Rodrigues, de 29 anos, que está em Portugal há cinco anos.

Outra empresa especializada em estruturas de alta tensão é a EIP – Electricidade Industrial Portuguesa , que concluiu no final do ano passado a instalação de torres e cabos na zona da Régua, junto ao Douro. Gil Catalão, de 24 anos, gaba a paisagem, ou não fosse ele um filho da terra. "Sou de Vila Real, para mim é uma paisagem muito especial." Mas o técnico confessa que, quando está pendurado nas linhas, não tem muito tempo para apreciar a vista. "Estamos muito concentrados nas tarefas que temos de desempenhar, até nos esquecemos que estamos lá em cima."

Como técnico pré-oficial de montagem de linha, Gil Catalão tem um salário mensal a rondar os 600 euros (fora as ajudas de custo), mas tem perspetivas de progredir na carreira. O maior inconveniente é ter de andar sempre com a mala pronta a caminho de uma nova empreitada com destino incerto. "Vamos para as obras que nos chamam a cada momento, agora estou em Castelo Branco e não sei onde será o próximo trabalho."

Altino Cunha, encarregado de obra da EIP, explica como se formam os técnicos que fazem estes trabalhos: "Temos um centro de formação em Montemor-o-Novo, onde os candidatos começam por aprender todas as tarefas no chão. Depois começam a subir aos postes. Ao princípio, trabalham nos 17 metros e, no final da formação, os que estiverem aptos já conseguem chegar aos 80 metros." O encarregado sublinha que, apesar da altura, todos os trabalhos são feitos em total segurança. "Os técnicos estão permanentemente ligados a uma linha de vida, que os sustém caso aconteça algum acidente."

Ponte vigiada

Desde que, no final dos anos 90, a Ponte 25 de Abril começou a ser atravessada por comboios, multiplicaram-se as tarefas de manutenção. Neste momento decorrem na ponte trabalhos de verificação da tensão dos parafusos que fixam as braçadeiras que ligam os pendurais aos cabos de sustentação do tabuleiro. Trocado por miúdos, isto significa que há 2500 parafusos para inspecionar, com recurso a uma plataforma de 8 metros de altura que vai progredindo ao longo dos cabos de sustentação para chegar ao topo das torres que sustentam a ponte, 190 metros acima do rio Tejo. Dentro da estrutura, quatro trabalhadores verificam as condições do material, mas à frente da plataforma vão mais dois profissionais pendurados em cabos.

Nuno Viegas, de 39 anos, é um dos técnicos que fazem estes trabalhos. "Faço parte da equipa que vai à frente da estrutura. Fazemos a preparação mecânica das braçadeiras que vão ser inspecionadas. O nosso trabalho é quase todo feito em suspensão."

Nuno começou a trabalhar em altura precisamente na Ponte 25 de Abril, há mais de 15 anos: "Estávamos a fazer trabalhos de pintura e percebeu-se que era preciso pessoal com formação especializada para pintar os cabos de sustentação. Fiz parte de uma equipa de seis elementos que se especializaram nestas funções." Nuno criou depois a sua própria empresa, a NMGV, que tem por missão assegurar o acesso em segurança a todo o tipo de instalações. "Uma das valências que temos é o resgate de trabalhadores em instalações industriais. Infelizmente, ainda é frequente acontecerem acidentes por falta de cumprimento das regras de segurança. Nós asseguramos que conseguimos retirar um trabalhador ferido de qualquer ponto onde ele esteja numa fábrica ou noutro tipo de instalação."

Com Lisboa em fundo e o Tejo a correr por baixo dos pés, Nuno Viegas não esconde a satisfação por trabalhar na Ponte 25 de Abril. "É um orgulho trabalhar numa obra tão importante."

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