‘Música no Coração’ celebra 50 anos. Autor do novo livro sobre os segredos da rodagem do filme desmistifica o clássico.
A cena é das mais famosas do cinema, mas a rodagem não foi tão serena e inspiradora como aquilo que ficou na montagem final: Julie Andrews surge luminosa no meio de um prado verde, em Salzburgo, na Áustria, entoando a plenos pulmões "The hills are alive with the sound of music" (traduzível por "as colinas estão vivas com o som da música"), logo no arranque do filme ‘Música no Coração’, musical de Robert Wise que acaba de assinalar 50 anos desde a estreia. Ora, na filmagem da cena, o helicóptero que sobrevoou a atriz – e onde estava o operador de câmara – terá feito tanto vento e pressão quando se aproximou do local que levantou a saia e levou algumas vezes Julie Andrews ao chão, caindo sobre lama.
Quem o revela agora é o argumentista de mais de 30 musicais da Broadway e escritor norte-americano Tom Santopietro, no livro que lançou para assinalar o meio século do musical que venceu cinco Óscares em 1966, incluindo o de Melhor Filme.
Ao longo de 288 páginas, ‘The Sound of Music Story’, ainda não editado em Portugal, recorda o sucesso estrondoso do filme, atesta a aura de clássico, mas também se diverte a desfazer mitos e a expor um olhar apurado sobre os bastidores da obra.
À ‘Domingo’, Tom Santo
pietro, que lançou na segunda-feira, oficialmente, o seu livro em Nova Iorque, enumera os motivos da longevidade de ‘Música no Coração’: "Tem uma maravilhosa banda sonora, com um número de êxitos que mais nenhum musical conseguiu ter. Tem uma estrela que estava no topo do seu poder, num papel para o qual nasceu para fazer", refere sobre o talento de Julie Andrews.
No entanto, a mensagem subjacente à trama será a chave: "É um filme sobre a família: a família como santuário, proteção, refúgio. Os Von Trapp acabam por representar – em Maria e na sua música – o amor na família que é universal", diz Tom Santopietro, autor de outras obras sobre Barbra Streisand, Frank Sinatra ou ainda sobre o clássico ‘O Padrinho’.
Se muitos cresceram com a emocionante jornada da noviça Maria, que deixa o convento para se tornar ama dos sete filhos do capitão Von Trapp, poucos sabem que nem tudo o que se vê é fiel à história verídica em que se inspira, nem a obra foi um projeto fácil de produzir. Porém, nada disso transparece no resultado final: "As pessoas veem o filme vezes e vezes sem conta e é como se quisessem mergulhar para o ecrã e fazer parte daquele mundo", refere Santopietro.
DESVIOS E APROPRIAÇÕES
A própria escolha de Julie Andrews não foi a primeira, nem mesmo a segunda, dado que os executivos da Fox estavam mais interessados em ver duas outras estrelas platinadas para o seu lugar: Doris Day, também cantora e muito popular na década de 1960, e Grace Kelly, já retirada para se dedicar à realeza do Mónaco.
Foi só depois de levar duas negas e de ver Andrews em ‘Mary Poppins’, filme que ainda não tinha estreado na altura de ‘Música no Coração’, que o realizador Robert Wise percebeu que tinha encontrado a protagonista.
Já para a figura do barão Von Trapp, Christopher Plummer só foi contratado depois de Sean Connery e Rex Harrison terem sido sondados. Fez saber depois que odeia a personagem e que esteve alcoolizado durante as filmagens das cenas de dança no salão.
No filme, há também apropriações face ao rumo e comportamento da família que enfrentou e escapou ao regime nazi. A verdadeira Maria, que morreu em 1987 aos 82 anos, não era tão bela e doce como Julie Andrews. Sisuda e pouco dada à beleza, tinha acessos de raiva e um temperamento difícil (por vezes insuportável) para os mais próximos. Quando ficou ama das sete crianças, a empatia terá tardado e mesmo o casamento com o capitão Von Trapp só se concretizou porque Maria estava mais interessada em ser uma segunda mãe em vez de uma segunda mulher. O amor lá acabou por surgir e mais três filhos vieram juntar-se aos sete. "A composição de Julie Andrews suavizou os extremos de Maria", explica Tom Santopietro.
Nas cenas de fuga aos nazis, a família Von Trapp também não se refugiou nos Alpes suíços como se vê no filme, mas terão antes apanhado um comboio para Itália. O barão, que seria menos austero do que o retratado por Christopher Plummer, viu o seu banco falir e a família viveu em sérias dificuldades. Consta que terá sido a formação do coro composto à força pela ex-freira e os enteados que ajudou a equilibrar as contas em situações de aperto. Já depois de fugirem para os EUA, passaram a Trapp Family Singers e atuaram até 1955. Maria vendeu depois os direitos da história da família.
No entanto, os cerca de mil milhões de euros que o filme terá gerado até hoje em receitas (num valor ajustado aos preços atuais) pouco se terão traduzido em dinheiro para os bolsos dos Von Trapp.
Tom Santopietro recorda o encontro entre Andrews e a verdadeira Maria von Trapp: "Foi na rodagem do filme, quando Maria surgiu para fazer uma breve presença durante uma cena. Julie estava nervosa, desejando a aprovação de Maria. No final, as duas mulheres simpatizaram uma com a outra e respeitaram-se bastante mutuamente", descreve à ‘Domingo’.
EM BUSCA DO FINAL FELIZ
O ano de 2015 é, de certa forma, o de celebração dos 50 anos de ‘Música no Coração’. A cantora Lady Gaga deu o pontapé de saída, surpreendendo tudo e todos quando, na gala dos Óscares, interpretou temas do filme sem nunca desafinar. "Senti-me especialmente tocada pela extraordinária prestação de Lady Gaga", reagiu depois Julie Andrews, que, aos 79 anos, e incapaz de cantar como antes após uma cirurgia às cordas vocais, também subiu ao palco do Dolby Theatre para homenagear o filme e ser aplaudida. O momento teve largas repercussões nas redes sociais no dia seguinte, com 214 mil menções por minuto só na rede social Facebook.
Já ‘Música no Coração’ vai voltar em breve a 500 salas de cinema norte-americanas. Está ainda agendado já para esta segunda-feira o lançamento de uma edição do filme em DVD e Blu-Ray, repleta de extras, como documentários sobre os Von Trapp e um que ilustra o regresso de Julie Andrews à Áustria.
A completar as homenagens está o livro ‘The Sound of Music Story’, de Tom Santopietro, editado pela Saint. Martin’s Press. É um olhar nostálgico para o clássico, no meio de vícios e virtudes. Até porque, como referiu à ‘Domingo’, ‘Música no Coração’ faz "as pessoas acreditarem na possibilidade de um final feliz e, mesmo que, enquanto adultos, saibamos que a vida é mais complicada do que isso, o filme dá-nos a esperança desse final, e todos queremos esperança".
Há 50 anos que é assim.
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