Maior prédio residencial de Boston é o último grande projeto da empresa de António Frias
Há quem veja na Millennium Tower, prestes a tornar-se o mais alto prédio residencial de Boston, uma torre com 209 metros de altura e 60 andares. Mas aos olhos de António Frias é também dez mil toneladas de ferro e 66 mil metros cúbicos de cimento. Só nas fundações estão mais de duas mil toneladas de ferro e seis mil metros de cimento, lá colocados em 21 horas, por "seiscentos e tal" camiões, ao serviço da S&F Concrete, a empresa por si fundada há 50 anos.
"Gosto muito do que faço. Fico entusiasmado, como se fosse uma criança", disse à ‘Domingo’ o empresário açoriano, nascido há 77 anos na ilha de Santa Maria. Do outro lado do Atlântico, quando mais um dia de trabalho começava nos EUA, a voz deixava adivinhar a alegria com que ultimava a festa da quinta-feira passada, data em que assinalou meio século da oficialização da empresa, ao lado do irmão mais novo, José Frias, e de Joaquim Santos, de quem os irmãos se "separaram amigavelmente" dois ou três anos depois. "Ele não queria nada com sindicatos, mas eu pensei que para continuar em frente, com obras nas cidades grandes, teríamos de chegar a acordos", explicou, acrescentando, com uma gargalhada sonora: "É a mesma coisa que fazer um pacto com Lúcifer!"
Antes de fornecer cimento armado e ajudar a conceber obras emblemáticas, incluindo o Centro de Convenções de Boston ou os pavilhões dos Celtics e dos New England Patriots, as equipas de basquetebol e de futebol americano da maior cidade do estado do Massachusetts, ultrapassou grandes dificuldades: "Estivemos 17 semanas sem trazer um centavo para casa. Cheguei a pedir dez dólares à minha mãe para comprar leite para os meus filhos." Agora é tudo muito diferente.
VIDA DE TRABALHO
Quando lhe perguntam se os EUA são a terra das oportunidades, tem resposta pronta: "Isto não é perfeito, mas quem tiver saúde e quiser trabalhar não encontra uma terra como esta." Assim foi consigo, ao chegar ao Massachusetts, em 1955, com os pais e os irmãos. Foram viver para Hudson, terra natal da mãe, embora esta tivesse voltado aos Açores em criança. A localidade tinha a alcunha de "cidade dos sapatos", e António percebeu logo porquê: "Cheguei às sete da manhã, e às sete e meia já estava a fazer sapatos." Tinha 16 anos, e somava aos dólares que ganhava de dia, na fábrica, mais uns quantos conseguidos à noite, numa padaria.
Era uma vida de trabalho aquela que lhe calhara em sorte na América, o que pouco mudou ao tentar a sorte nos estados do Connecticut e Illinois. Foi em Chicago que enveredou pela construção, a trabalhar para uma empresa que conseguia grandes contratos com a Marinha, Força Aérea e Exército, apesar de (ou graças a) um dos proprietários ser congressista. Assim foi aprendendo, até que o seu outro patrão morreu, de acidente vascular-cerebral, aos 48 anos. Era hora de regressar à Costa Leste e deixar de trabalhar para os outros.
No início, a S&F Concrete só tinha um trabalhador além dos três sócios. "Começámos por fazer uns passeios e umas valetas em cimento", recorda o empresário. Mas a lista de clientes foi ficando mais impressionante, desde a fabricante de microprocessadores Intel à gigante dos cartões de festas Walmart. "Era para ser um trabalho de dois anos, mas esteve um inverno muito bom e fizemos aquilo em seis meses", salienta.
Empregava então dezenas de trabalhadores, ainda longe das largas centenas que se preparam para trocar a Millennium Tower por novos projetos. Mesmo assim, António Frias não esconde o seu orgulho "na maior obra de Boston em cimento armado", do qual enumera qualidades: "Se houver a infelicidade de haver um incêndio, aguenta muito mais, pois as chamas têm de passar pelo cimento para chegarem aos ferros."
FADO E FÉ NO BENFICA
Estando fora de questão fazer negócio no país natal – "é muito difícil investir em Portugal. E vai ser sempre", afirma –, António Frias mantém uma forte ligação à terra por intermédio do Benfica. "Era amigo do Eusébio desde 1966. Estive aí no enterro e voltei de propósito quando mudaram o corpo do Lumiar para o Panteão", diz um apreciador dos programas televisivos portugueses de debate sobre futebol, embora não goste de ver toda a gente a falar ao mesmo tempo. "Quando um burro zurra, os outros baixam as orelhas."
Outras das suas paragens obrigatórias em Lisboa são as casas de fados, em Alfama e no Bairro Alto, bem como a Adega da Ti Matilde, um dos restaurantes favoritos do amigo Eusébio. Mas não esquece a ilha de Santa Maria, onde ainda há semanas passou a primeira quinzena de agosto. E que fascina os seus quatro filhos, nove netos e alguns bisnetos. "Até fico maluco quando no verão todos querem ir para os Açores. Sobretudo os mais novos. Sabe porquê? Têm liberdade. Ficam fora até às quatro da manhã, porque aquilo é um lugar pacato."
Feliz por ter uma neta que aprendeu português e tem a bandeira verde e vermelha no quarto, ou um neto matriculado no Externato Ribadouro, no Porto, só lamenta que alguns descendentes não sigam esse exemplo. "Isso é culpa da minha mulher, que devia falar mais português em casa", acusa, entre risos, deixando a sua homenagem a Maria Manuela, que consigo está casada há 55 anos, e "não se percebe que veio de São Miguel", pois "não tem aquela pronúncia carregada".
A gerir o dia a dia da empresa está o seu filho Rodney, e um dos engenheiros responsáveis pelos trabalhos na Millennium Tower é o neto Anthony Frias III. "Quando for embora, não sei o que irá acontecer, mas penso que está bem encaminhado", diz o septuagenário, que no inverno troca Boston pelo calor da Florida, e tem uma mensagem para Portugal: "Para a frente é que é o caminho. Não vale a pena desanimarmos."
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