Muitas lojas da Guerra Junqueiro fecharam e outras se seguirão. Mas há quem aposte numa avenida que já foi a mais cara de Lisboa.
Quando uma loja de roupa faz a primeira venda às sete da tarde é muito provável que seja a única do dia. Assim aconteceu nesta semana num dos estabelecimentos que resistem à crise na avenida Guerra Junqueiro (à alameda D. Afonso Henriques), que chegou a ser a mais cara de Lisboa e uma das mais caras da Europa na década de 90. Isso foi antes do encerramento das lojas da C&A e da Massimo Dutti, duas das marcas que ainda há pouco tempo carregavam os clientes com sacos de compras.
"Não escrevam mais sobre a Guerra Junqueiro, porque então é que os espanhóis não querem ficar cá", disse à Domingo a dona da loja, que só vendera uma peça na véspera, mesmo assim mais disposta a debater a situação do que a maioria dos comerciantes, quase todos sem vontade de falar, apesar de a chuva e frio dos primeiros dias da primavera trazerem ainda menos clientes do que é habitual. Portugueses ou outros estrangeiros, além dos arrumadores de carros, também eles sem muito para fazer, embora os espanhóis que convém não afugentar não sejam turistas, e sim a Inditex, a Cortefiel e a Mango, detentoras das lojas-âncora que continuam abertas quando cada vez mais montras não apresentam mais nada ao olhar de quem passa do que os letreiros ‘arrenda-se’, que persistem enquanto as estações do ano passam.
O advogado Carlos Moura-Carvalho, de 45 anos, decidiu abrir um negócio numa avenida que conhecia desde criança, pois os avós viviam em frente da pastelaria Mexicana, e percebeu o que leva algumas lojas a ficarem vazias tanto tempo. "Rendas a quatro mil euros por espaços de trinta e tal metros quadrados... Estamos todos doidos?!?", recorda quem, depois de encontrar uma oportunidade "razoável" no lado contrário da Guerra Junqueiro, que lhe custa cerca de mil euros por mês, abriu a Mercearia Criativa, onde vende produtos nacionais.
"Essa é uma das razões pelas quais a avenida está muito decadente. Inflacionou-se muito", afirma o advogado, que se sentiu a "nadar contra a corrente" ao investir 50 mil euros de uma indemnização. Em vez de caviar e champanhe, tem vendido fruta biológica e encontrou fornecedores de pão alentejano feito em forno de lenha, aproveitando para explorar "um nicho de comida com piada". "Ao almoço conseguimos sobreviver e no verão temos pessoas na esplanada a petiscar e a comerem ostras", diz, assumindo um otimismo alicerçado em números: os dois primeiros meses de 2013 tiveram mais faturação do que outubro e novembro de 2012.
COMEÇAR DO ZERO
Para a presidente da União das Associações de Comércio e Serviços (UACS), Carla Salsinha, não restam dúvidas de que o pior ainda não chegou e a Guerra Junqueiro pode ficar mais vazia. "A diferença é que uma multinacional não perde clientes se fechar portas numa determinada avenida, pois a marca já está tão presente junto dos consumidores que irão atrás dela, esteja onde estiver. O comércio tradicional, se não conseguir fazer face à renda que o proprietário pede, fecha mesmo, porque ir para outra zona da cidade é começar do zero", afirma a dirigente, que tem ouvido empresários confrontados com propostas de aumento de renda que triplicam o valor atual.
O aumento de encargos com os espaços acresce aos problemas de um País em que a austeridade é resposta à crise, traduzindo-se na quebra do consumo privado. A presidente da UACS nota que a Guerra Junqueiro está situada numa parte da capital que não tem a almofada de ar que os turistas trazem a outras zonas e que é habitada por "uma classe média que está a perder poder de compra", incluindo muitos funcionários públicos que "sofreram fortes quebras de rendimento nos últimos anos". Apesar de a diminuição de vendas ser transversal, "o vestuário, o calçado, acessórios e perfumarias não são bens de primeira necessidade, pelo que estão a ser muitíssimo afetados". Basta uma caminhada para constatar o quanto isso é verdade.
GRANDES ENCERRAMENTOS
Até há meio ano um dos principais chamarizes de clientes para a avenida, a enorme loja de dois pisos que em tempos foi o Cinema Star, e mais tarde acolheu a roupa britânica da Marks & Spencer, deixou de ser ocupada pela C&A. "Após várias tentativas de reformulação comercial, e de tentarmos responder positivamente com o nosso produto e serviços, a realidade é que não conseguimos que os resultados cumprissem os parâmetros que consideramos positivos. Nesse sentido, tomámos a decisão de não renovar o contrato de arrendamento", esclarece Domingos Esteves, porta-voz da cadeia de vestuário criada por dois irmãos holandeses no século XIX e que mantém 38 lojas em Portugal, quase todas em centros comerciais.
Face à incapacidade de "acertar com o perfil de clientes da zona geográfica", ficou um vazio que, apesar da convicção generalizada do comércio local, não será ocupado pela H&M. Deixada tal garantia por Inês Fontoura, responsável pela comunicação da cadeia sueca de vestuário, o cenário tornar-se-ia ainda mais sombrio se no prédio ao lado encerrasse a Zara. A principal loja da Inditex na avenida – a Massimo Dutti encerrou (quem pretenda ocupar o espaço tem à espera uma renda de 9500 euros), mas a Pull & Bear continua aberta – deixou de vender roupa masculina e fechou o piso de baixo, o que levanta interrogações que foram colocadas pela Domingo aos representantes do grupo galego, sem que fosse obtida qualquer resposta.
LOJAS HISTÓRICAS
É com saudade que Fernando Cruz, da cafetaria Astro, recorda tempos em que "a Zara fazia saldos e a fila chegava aqui à porta". Aos 51 anos – 3o dos quais atrás do balcão onde vende os mais variados doces regionais, além dos cafés e almoços para os trabalhadores de escritórios que sustentam a restauração da avenida –, regista um terço do movimento de há três anos e acusa a EMEL de piorar tudo com a passagem a zona vermelha. "Mesmo que seja para ver uma loja, é um euro por meia hora de estacionamento", refere, sentindo falta de algo que "traga cá muita gente".
Entre os estabelecimentos mais tradicionais da avenida continuam a pastelaria Mexicana, que sobreviveu à tentativa de se transformar em agência bancária, a Hisa Modas – temporariamente encerrada e que, segundo o sócio-gerente José Quadros, deve deixar de vender tecidos – e a Foto A. Santos, testemunha da evolução da fotografia ao longo do século XX e do início do século XXI.
Em quatro décadas na loja de que hoje é gerente, Rosete Martins viu a cor impor-se ao preto e branco e a máquina para cartões de câmaras digitais tornar dispensável o laboratório que chegou a produzir os químicos para a revelação manual. Rodeada de retratos emoldurados de gente sorridente, reconhece que o negócio está a decair. "Talvez tenhamos um quarto dos clientes de 2005. São os mais antigos", explica quem ainda se lembra de uma Guerra Junqueiro muito diferente, antes da abertura dos armazéns de vestuário, que tinha desde talho até mercearias, papelarias ou uma loja de ferragens.
"Não havia uma única loja fechada e quando as pessoas precisavam de alguma coisa, diziam: ‘Vamos à Guerra Junqueiro, que na Guerra Junqueiro há de tudo.’ E havia", garante, depois de atender um cliente. Perante recordações tão nítidas, o presente (e o futuro) da avenida só pode parecer desfocado.
"O SENHORIO PODE PEDIR A RENDA QUE QUISER"
Esperançada nas iniciativas da Oposição para suspender a Lei das Rendas, a presidente da União das Associações de Comércio e Serviços (UACS), Carla Salsinha, salienta que o maior problema nem se põe nos contratos antigos, que têm um período de salvaguarda. São as lojas mais recentes, nas quais "o senhorio pode pedir a renda que quiser" quando chega ao fim o período de cinco ou dez anos de arrendamento, que correm maior risco: "Somos uma das capitais da Europa mais caras nos espaços comerciais. Praticam-se valores que tornarão insustentável a existência de comércio de proximidade."
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