Não esqueço a morte daquele rapaz. Antes de partir para o mato disse-me que já tinha bilhetes para ver o Benfica, no regresso a Portugal
O início da minha vida militar foi muito agitado. Fiz a recruta no CIC, do Porto, em 1964, e em pouco mais de um ano passei pelos quartéis de Sacavém, Évora e nos Rangers de Lamego. Completei a especialidade de mecânica e foi com o posto de soldado que parti para Angola, no navio Vera Cruz, em Setembro de 1965, com a Companhia de Infantaria 1425, conhecida como ‘Alentejana’ por ter muito pessoal do Sul.
Chegados a Luanda, fomos encaminhados para o enclave de Cabinda, a norte de Angola, dois dias depois. Era um território pequeno, mas aqui se travavam os combates mais duros da guerra. A primeira impressão que tive até foi bastante agradável. Ficámos instalados no quartel de Molembo e tínhamos uma excelente praia, logo à saída do portão. Mas depressa percebemos que a vida não ia ser nada fácil. Como responsável pela manutenção, estava sempre a ser chamado a diferentes locais. As picadas davam cabo do material e um mecânico tinha sempre serviço a fazer.
Apesar de tudo, tivemos muita sorte. A nossa companhia nunca esteve debaixo de fogo do inimigo. Vivíamos no medo permanente de sofrer uma emboscada a cada curva, mas escapámos ilesos. O único ferido grave que tivemos aconteceu na cidade de Cabinda, em resultado da queda de um soldado que vinha pendurado no Unimog.
Julgo que uma das explicações para não sofrermos ataques teve que ver com a atitude do capitão da nossa companhia. Tratava bem as populações locais, dava-lhes comida e falava com os líderes tradicionais. Lembro-me de ele dizer aos sobas de Caio Guembo que estávamos ali obrigados e sem intenção de matar ninguém. Mas também lhes garantiu que, se os portugueses sofressem um ataque, a aldeia seria bombardeada. Nunca tivemos problemas com eles.
MEMÓRIAS DIFÍCEIS
Apesar de nunca ter estado em combate, muitas vezes fui chamado para retirar feridos e mortos de zonas de combate. Vi a destruição e o sofrimento que as forças do MPLA e da UPA – que mais tarde se renderia às nossas tropas – infligiam às nossas tropas. Um dos episódios que mais me marcou envolveu um rapaz que conheci em Malembo.
Ele já tinha a data de regresso a Portugal marcada quando foi chamado para uma missão, na zona de Caio Guendo. Na véspera, falou comigo todo contente, o pai tinha-lhe comprado bilhete para um jogo do Benfica. No dia seguinte, soube que tinha havido um ataque. E o rapaz estava entre os mortos, vítima de um estilhaço que acertou em cheio no coração. Fiquei muito chocado com aquela morte.
Pouco depois, também no ano de 1966, houve outro dia penoso. De manhã, um camião que levava as nossas tropas foi emboscado pelo inimigo. Morreram 13 militares. Nesse mesmo dia, outra viatura chamada para dar apoio aos emboscados foi atacada quase no mesmo sítio. E assim tombaram outros 14 soldados. Foram 27 mortes no mesmo dia, coisa que nos deitou muito abaixo.
Apesar dos horrores da guerra, nem tudo foi mau nesta minha passagem por Cabinda, onde era conhecido pela alcunha de ‘Espinho’, numa referência à minha terra natal. Fazíamos torneios de futebol e eu jogava como defesa central na equipa da Companhia. O primeiro classificado ganhava o direito de ir jogar a Luanda – e como tal podia escapar à guerra por umas semanas – pelo que o campeonato era renhido. Ficámos em segundo lugar.
Voltei a Portugal em Setembro de 1967. São e salvo, mas com memórias que nunca mais me vão deixar.
PERFIL
Nome: António Rolo
Comissão: Angola (1965-1967)
Força: Companhia de Infantaria 1425
Actualidade: Aos 68, é viúvo e vive em Espinho. Reformado como mecânico, tem uma filha e três netos
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