São loiras, mas não são burras. Intrometeram-se num mundo de homens e estão para ficar. As cavaleiras portuguesas dão espectáculo nas praças de toiros de todo o País. E não deixam o lado feminino por causa disso.
Todos os dias, faça chuva ou sol, Sónia Matias entrega-se à rotina de treinar os cavalos para as corridas de toiros. Mal o dia começa a raiar, pega no carro, atravessa o trânsito infernal de uma Lisboa em hora de ponta e ruma à pacatez de Samora Correia, onde há muitos anos o pai, Possidónio, adquiriu um terreno para o efeito.
Nascida e criada na capital, Sónia é um exemplo de que nem todos os intervenientes nesse espectáculo tão português nasceram no campo. Em criança vivia o frenesim citadino, tinha aulas de ‘ballet’ e toda a gente mais facilmente a imaginava a rodopiar pelos palcos ao som de ‘O Lago dos Cisnes’ do que a espetar farpas num touro.
O ambiente rural e tranquilo da lezíria ribatejana parecia a última paragem onde alguma vez aterraria. Mas havia algo inexplicável na festa brava que mexia com ela. Desenraizada da tauromaquia, Sónia tomou-lhe o gosto apenas por acompanhar os pais ao Campo Pequeno, onde todas as quintas-feiras marcavam presença nas bancadas. Quando os toureiros começavam a lide, a menina loirinha, pequena e magra desligava-se deste mundo, deixando de prestar atenção a tudo o que a rodeava.
Teimosa e de ideias fixas, aos 12 anos decidiu aprender a cavalgar puros sangues lusitanos. Os pais entraram em choque. “Diziam que eu não estava bem da cabeça, que era algo passageiro, uma coisa que esqueceria com a idade.” A moda não passou, e com o desenrolar dos acontecimentos as pessoas mais próximas chegaram a torcer o nariz. A princípio por se tratar de uma mulher, depois por estar fora daquele meio tão fechado, sem contactos ou experiência que pudessem ajudá-la nas praças.
O contratempo foi ultrapassado com o dinheiro de Possidónio, dono de uma empresa de camionagem, que se tornou no apoderado da filha – o equivalente ao ‘manager’ no futebol – e investiu parte das poupanças amealhadas ao longo dos anos naquela mania da pequena. Perseverante, Sónia Matias treinou vezes sem conta, apurou a técnica e em 1997 tirou a prova de praticante – um exame no qual o cavaleiro atinge o grau antes do profissionalismo, dando acesso a corridas de primeiro plano. “Tenho tido muita sorte. Nesse ano, toda a minha família percebeu que eu ia para frente com o toureio, e pôs mãos à obra para me ajudar. O meu pai foi fundamental, assim como o meu tio.”
O percurso rumo à alternativa mostrou-se irreversível. Sónia viu-se transformada numa cavaleira a cem por cento, um destino alimentado pelos muitos convites para entrar nas praças lado a lado com grande nomes da tauromaquia. Há quatro anos, atingiu a tão almejada alternativa na Corrida da Rádio Renascença, em plena Feira de Santarém, onde teve como padrinho João Moura. Faltou apenas a cereja no topo do bolo: ter acontecido no Campo Pequeno.
ESCOLA DA TRADIÇÃO
Sónia Matias nunca entrou pela porta grande da mítica praça lisboeta, um marco de que Ana Batista se pode orgulhar. Natural de Salvaterra, começou a montar aos oito anos, e quando aos dez fez a primeira corrida, nem conseguia subir sozinha para o cavalo. “Agora olho para trás e acho que era muito miúda e inconsciente, sem saber bem como funcionava este mundo. O meu pai sempre me avisou de que seria uma vida muito difícil. Eu comprovei-o ao ver muitos jovens valores ficarem pelo caminho, porque não tiveram oportunidades ou porque os pais não aguentaram o facto desta actividade ser dispendiosa. Sempre ouvi dizer que isto era um mundo dos ricos, e em parte é verdade.”
Apesar dos avisos do patriarca, dono de uma coudelaria – profissão que encurtas os custos dos treinos dos cavalos, que podem ali ser ‘desbastados’ desde tenra idade –, Ana decidiu continuar. Na Herdade da Torrinha, propriedade dos irmãos Telles, teve importantes lições de toureio.
Mesmo tendo começado muito nova, Ana seguiu um longo caminho até ao profissionalismo, colocou sempre os pés assentes no chão e “sem sonhar muito alto, para a queda não ser grande”. Dos verdes anos, recorda com emoção a passagem pela escola de Brito Pais, onde era a mais pequenina entre os aprendizes.
De manhã ia às aulas e depois seguia para os treinos, deixando as brincadeiras de criança para trás, mesmo quando já tinha combinado alguma actividade com as colegas da turma. “Acho que valeu a pena o esforço e na tauromaquia sempre sofri mais por ser jovem do que por ser mulher.”
A profissão tem o seu lado ingrato e quando acabaram as vacadas Ana Batista pensou desistir, tal o número reduzido de corridas em que participava. O destino pregou-lhe uma partida ao aparecer a grande oportunidade da sua vida: integrar o Quarteto das Amazonas del Arte, em parceria com duas francesas e uma espanhola.
Adolescente, saiu então do país e passou a actuar em Espanha e França. No início foi difícil adaptar-se, porque lhe tinham dito que iria participar em 15 corridas e acabou por fazer 50. No meio de todo o rebuliço, os estudos acabaram por ser sacrificados, pois Ana tinha de fazer longas viagens e chegava mesmo a dormir no carro com as companheiras de arena. Tinha 18 anos e chegou a pensar tratar-se de algo demasiado duro. Emendava os cavalos na praça, sem tempo para os treinar, mas no final de toda aquela aventura pensou: “É isto que eu quero. Já não consigo viver sem o toureio.”
No regresso a Portugal após o sucesso internacional, Ana conseguiu por fim um lugar entre os principais nomes do toureio, não sem antes realizar a obrigatória alternativa. Joaquim Bastinhas foi o padrinho – Conchita Cintrón, considerada a rainha do toureio, foi a madrinha –, um facto curioso tendo em conta as diferenças entre os dois cavaleiros: Ana pertence à escola da tradição, é reservada e pouco esfusiante; Joaquim é um homem do espectáculo, do toureio adornado com passes arriscados e pouco usuais, mais perto do que faz Sónia Matias.
A determinada altura, as diferenças entre as duas ‘amazonas’ portuguesas levaram mesmo ao aparecimento de uma polémica sobre qual seria a melhor. Ana acha graça a esse facto, e desdramatiza: “Neste momento as pessoas já sabem quais as diferenças entre nós e o verdadeiro aficionado gosta dos dois estilos que são muito diferentes. Ainda há pouco tempo toureámos a duo e as pessoas adoraram. Foi um sucesso.”
Se na arena Sónia e Ana tem grandes diferenças de estilo, na vida existem vários pontos de contacto entre ambas. Saem de casa de manhã para começar a treinar e só chegam de madrugada, não conseguem ir à praia no Verão por causa do elevado número de corridas e vivem com pessoas ligadas à festa brava.
Sónia Matias, por exemplo, namora com o também cavaleiro Rui Alexandre, e não se imagina ao lado de um homem que não sinta a mesma paixão pela arte que decidiu abraçar. “Acaba por ser impossível viver com uma pessoa que não entenda esta profissão. O nosso caso é engraçado, em especial quando toureamos juntos, já que passamos o tempo todo a picarmo-nos, a dizermos que um vai levar baile do outro”, revela com aquele sorriso, que é sua imagem de marca, estampado no rosto.
Se nos amores a conversa até acaba por ser consensual, na questão da morte dos touros as opiniões dividem-se. Sónia, que é a favor, lembra-se de ter participado num programa televisivo “em que quase acabou tudo à pêra”. Não obriga a que mudem de opinião, apenas que a respeitem, porque ela faz o mesmo em relação a quem defende o contrário.
“Cheguei a pensar que estava feita ao bife por ter entrado num curso ligado à natureza – Gestão do Ambiente – e poder haver radicais anti-touradas na turma. Acabei por notar mais isso nos professores, enquanto do ponto de vista dos alunos consegui fazer alguns aficionados. A um nível geral aceitaram-me bem e tenho colegas que são meus fãs.”
Habituada a viver de forma intensa a tauromaquia quase desde o berço, Ana mostra-se menos condescendente na questão dos touros de morte. Em Espanha, teve dificuldades em matar o animal, não por medo mas pela falta de experiência. “Concordo com os toiros de morte e considero que a lei devia ser mais liberal nesse aspecto.
As câmaras municipais deveriam ter liberdade para decidirem se os toiros seriam, de vez em quando, mortos nas arenas – em França existem os dois tipos de corrida. Só assim seriam satisfeitos todos os aficionados, em especial os que cada vez mais vão a Espanha para ver tal espectáculo. Até porque em minha opinião o toiro deve morrer a seguir a uma lide, seja na praça ou nos curros, para que não sofra tanto.”
Ana Batista completa o raciocínio ao afirmar existir muita falta de informação relativa ao tema, sobre o qual muitos críticos nem sempre estão dentro do assunto. “Dizem que não gostamos dos animais, mas a verdade é que somos os primeiros a defendê-los. Se não houvesse corridas não tinha lógica existir toiros bravos, até porque não seriam os anti-touradas a criá-los no quintalinho deles.”
Ana Batista tinha 16 anos quando entrou no Campo Pequeno para tourear junto de cavaleiros praticantes, era ainda amadora. Como não havia nenhuma miúda a desafiar a tradição, houve um homem que soltou da bancada: “As mulheres são para estar em casa a lavar a loiça.” Ela achou estranho até perceber que estava apenas a meter-se, sem maldade, e respondeu com um sorriso: “Então vamos ver.”
A cavaleira Sónia Matias também já ouviu alguns impropérios, em especial da gente do Norte, mais afoita no que toca a soltar uma boca malandra nos momentos complicados. Enquanto está à espera do toiro, Sónia tenta controlar a ansiedade e de vez em quando lá ouve alguém de voz grossa dizer: “O cavalo é bonito, mas a cavaleira é melhor.”
E também há quem abuse com comentários mais ‘puxados’. “Não vou dizer o que me dizem, mas chego a estar em cima do cavalo e pensar: ‘não acredito que acabei de ouvir isto, seu ordinário’”, confessa entre risos, antes de confidenciar que algumas das mensagens até são bem engraçadas.
UM MUNDO DE HOMENS?
A ‘loirinha furação’, como muitos chamam a Sónia Matias, ficou sentida com o machismo latente no meio tauromáquico, embora hoje defenda não existir qualquer guerra de sexos. No início, porém, não era assim. O facto de ser mulher chegou a ser um entrave, “porque muitos não queriam entrar na praça ao lado de uma menina”.
Se os colegas estavam de pé atrás, os aficionados rejubilavam com a ideia de ver uma mulher lidar um toiro. “Ao nível do público é positivo e ajuda, porque só existem duas mulheres com alternativa em Portugal. Se conseguirmos tourear bem temos vantagem.”
Ana Batista nunca passou por isso, confessa-se triste por jamais ter visto uma cavaleira tourear quando era jovem e revela que a pressão apareceu mais devido à idade. “Como comecei cedo, os maiores entraves sempre apareceram por causa disso, em especial vindos do meu pai, que tinha receio de que me acontecesse alguma coisa. E também das pessoas ligadas à tauromaquia, cheias de medo que tivesse algum percalço, como uma colhida mais dura.”
De resto, nunca abdicaram da forma de ser por causa de abraçarem o toureio. E neste ponto o aspecto físico chega a enganar. Sónia, por exemplo, é muito feminina, baixinha e magra, ninguém imagina vê-la em cima de um cavalo, a dominar um animal perigoso, de meia tonelada ou mais. “A ideia de uma mulher máscula não corresponde à realidade. Aliás, gosto imenso de tudo o que é dedicado à mulher: os brincos, as pulseiras e todas aquelas coisas mesquinhas que adoramos. Até é giro porque quando vou a praças, onde não me conhecem, toda a gente está à espera de ver uma pessoa muito mais maçuda.” Da bancada, surgem comentários curiosos a esse respeito: “Mas ela é uma menina e o touro é tão grande.”
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