António Manuel Ribeiro viu a sua vida virada do avesso quando Cristina, uma desconhecida, passou a segui-lo por todo o lado. O caso de ‘stalking’ durou décadas e foi o primeiro a ser julgado e condenado em Portugal. O cantor conta-o agora em livro.
Em 2003, uma mulher foi ter com António Manuel Ribeiro, no final do lançamento de um dos seus livros de poesia, e apresentou-se como sua fã. Só então, o músico percebeu que algumas das "enigmáticas mensagens" que recebia se deviam a essa mulher. Depois, ela começou a persegui-lo por todo o lado, a ameaçar os que lhe eram próximos, a causar-lhe distúrbios à porta de casa. A perseguição durou mais de dez anos e acabou nos tribunais. A vida do músico não voltou a ser o que era.
Porquê escrever um livro? Não era mais fácil esquecer?
Para mim, é o fim de um processo. Um testemunho que devia a mim próprio, até porque há muita coisa que está presente neste livro e que não foi julgada em tribunal. Pormenores muito inquietantes, aliás. Por outro lado, é um livro que me andavam a pedir desde que participo em conferências e seminários sobre violência doméstica onde há painéis sobre ‘stalking’. Para quem trabalha na área, é importante ter um caso concreto, para poder mostrar tudo aquilo que é o enredo psicológico em torno do ‘stalking’. E sendo o primeiro caso julgado é normal que as pessoas precisem de entender o próprio processo judicial. Na altura, não havia lei autónoma, os juízes tinham uma complexidade muito grande de situações para analisar. Não havendo uma lei autónoma para o ‘stalking’ em Portugal, foi-se à procura de outras prevaricações: difamação, devassa da vida privada, perseguição, etc. Nos EUA, o ‘stalking’, que deriva de uma perturbação psiquiátrica conhecida por erotomania, foi criminalizado em 1990.
Foi certamente doloroso rever todos estes episódios.
Eu basicamente escrevi dois livros. O primeiro foi feito durante o processo, até porque enviava relatórios semanais, e às vezes até diários, para o Ministério Público por indicação do próprio. Mas até era uma espécie de conforto perceber o enredo, perceber que havia ali um padrão de comportamento. Pensei até em publicar mesmo antes de o caso chegar a tribunal, mas felizmente a minha advogada demoveu-me. Quando o julgamento chegou ao fim, afastei-
-me completamente. Queria era começar a viver a minha vida de uma nova forma. Mas depois começaram as tais conferências, seminários e o tal desafio para fazer este livro. Aí já estava suficientemente distanciado do caso, no sentido de já não haver sofrimento e até conseguir criar muito mais facilmente as ligações. É um trabalho que tem de ser feito.
Falar do tema, ajudar outros, é uma missão?
Às vezes, sinto que sim. Até porque hoje em dia temos as redes sociais e a possibilidade de as pessoas falarem umas com as outras sem darem a cara. Há muita gente que me pede ajuda e conselhos sobre como proceder. Faço-o com todo o gosto, sobretudo dizendo às pessoas que têm direitos e que esses direitos têm de ser defendidos num estado democrático. As leis existem para ser cumpridas e os cidadãos têm essa regalia que é a liberdade, o respeito e a decência na própria vida.
Qual o conselho que dá mais frequentemente?
Que vão à polícia. O primeiro passo é relatar a situação, porque logo aí há direitos que devem ser assistidos.
Tornou-se um homem diferente?
Sim. Eu tento hoje desmontar isso e acho que vou lá chegar. Resguardei--me bastante. Deixei praticamente de sair à noite, por exemplo. Porque era de noite que era perseguido e, portanto, a noite deixou de ter qualquer interesse para mim. Não é agradável estar num restaurante, num pub ou num cinema e termos alguém à porta que nos segue na ida e na volta. E fiz um erro, grande, que foi isolar-me.
Isolou-se somente da vida pública ou também da família e amigos?
Da família e dos amigos não, mas confesso que escondi bastante da minha família. Da minha mãe, sobretudo, pois tinha uma saúde débil. Ela faleceu recentemente – em setembro passado - e nunca soube em concreto da maioria das coisas. Tentei proteger as pessoas à minha volta.
O que espera deste depoimento ?
A Justiça determinou uma sentença que não está cumprida. A indemnização pecuniária, por exemplo, não foi paga. E, por outro lado, há uma coisa importante que ainda falta: um caso de ‘stalking’ deve ser avaliado por uma equipa forense, do Estado, não por privados que depois vão um contra a opinião do outro. Alguma coisa aconteceu à saúde mental daquela pessoa que me perseguiu e foi algo de muito grave. Esse lado não foi acautelado, até para defender a própria. Até porque eu não duvido que, em muitos momentos, ela própria tenha sofrido bastante.
Quanto é que ela deve ?
Diretamente a mim são 39 mil euros e à minha testemunha principal do primeiro julgamento, que era a minha companheira da altura e que sempre que estava comigo era perseguida também, são 7500 euros. Mas a pessoa que foi condenada está numa situação de indigência, isto apesar de ter trocado três vezes de carro, de ter tirado um curso de Direito… mesmo não trabalhando, tinha sempre meios para me perseguir.
Então, essa pessoa que estava consigo foi duramente afetada.
Muito mesmo. Na sua vida privada, familiar – era uma mãe de três filhos – e tudo isso foi trazido para o processo.
Já não está com essa pessoa?
Não. Num dado momento, eu próprio quis afastar-me porque era muito difícil protegê-la. Qualquer mulher que estivesse comigo era um alvo a abater.
Quais foram as situações mais complicadas que viveram?
As perseguições na estrada. Os momentos em que ultrapassava a alta velocidade para logo a seguir travar a fundo à frente do carro, tentando provocar o acidente. Ou quando fazia as rotundas em sentido inverso. Alterei completamente a minha vida. Fazia uma vida de agente secreto.
Mas reencontrou o amor…
Sim, tenho uma relação muito séria, calma, sólida e apaixonada com a senhora Maria das Dores Meira, presidente da Câmara Municipal de Setúbal, como, aliás, o Correio da Manhã documentou em primeira mão. Estou feliz.
"Erotomania: convicção delirante de uma pessoa que acredita que outra pessoa, geralmente de uma classe social diferente ou famosa, está secretamente apaixonada por ela." Há também homens, vítimas de ‘stalking’, a pedir-lhe ajuda?
Sim. São muito menos, uns quatro, mas dois deles são também figuras conhecidas. Apresentadores de televisão, dos quais não vou obviamente dizer o nome. Sem dúvida, o ‘stalking’ está frequentemente associado ao crescendo de exposição mediática dos dias de hoje, onde já quase não há segredos. Mas em Inglaterra, por exemplo, 40 por cento das vítimas são homens. Em Portugal, cultivamos uma certa distância e continuamos a acreditar que há brandos costumes, mas atualmente já não há.
Haverá muitos homens com pudor em queixar-se?
Nós, portugueses, temos uma cultura marialva. Eu próprio pensei comigo mesmo: "Então eu vou ali à polícia queixar-me de uma mulher? Eles vão pensar que sou maluquinho!"
Deram-lhe logo ouvidos?
Inicialmente, acho que a Justiça pode ter pensado que eu tinha tido um caso com a rapariga e depois queria livrar-me dela e não conseguia, por isso fiz queixa. Mas, rapidamente, isso foi desfeito, sobretudo a partir do momento em que fui ouvido durante longas horas no Tribunal de Almada e que o Ministério Público me pediu para ir registando tudo o que acontecia. Perceberam que não era normal nem ligeiro. Só que, depois, a fase de inquérito foi longuíssima. A vítima fica abandonada. E não podemos agir nem dar uma resposta agressiva, senão passamos a agressores.
Prejudicou a sua carreira?
Isso não. Mas tive momentos de desatenção nos espetáculos em que ela estava. Perdia-me nas canções, por momentos. Tanto que a minha equipa deixou de me dizer que ela estava lá. Era uma sombra, uma agressão psicológica constante.
O que anda a fazer agora?
Os UHF fazem este ano 40 anos de carreira, e há uma série de coisas bonitas que gostávamos de fazer este ano. Entre elas, gravar um novo disco de originais. Já tenho 39 originais escritos. Obviamente que não vão entrar todos, mas haverá um disco novo. Tenho projetos também para escrever. Uma antologia poética adiada e escrever um livro novo.
Alguma vez pensou ver os UHF chegarem aos 40 anos?
Impensável. Até mesmo há alguns anos atrás.
Qual o segredo?
Sem público não há artista que resulte, a não ser que seja subsidiado ou pago pela família. Um artista que depende do público tem de ter canções que se tornaram importantes e um público que gosta delas. Fala-se da ‘nação UHF’ e é mesmo assim, somos uma grande família. Nós não somos a moda, mas temos um estilo, uma forma de ser musical que é autêntica e que se reflete nas pessoas e passou de geração em geração Temos famílias que vão ao nosso espetáculo.
Qual é o estado da nação rock, ainda por cima depois de um ano de grandes perdas no meio?
Sempre achei que o rock era uma espécie de serpente que todos os anos muda de pele, mas mantém sempre a sua identidade. Apesar de hoje em dia termos uma divulgação musical mais fragmentada e concentrada no imediato, há boas bandas para continuar o rock. O rock é a inquietação humana e uma forma de dizer as coisas: às vezes com uma certa agressividade e outras vezes com uma grande calma, como nas baladas. Há agora muitas pessoas a fazer música com computadores, mas pouco ou nada percebem de música. Mais facilmente, isso acaba amanhã, porque a moda passa.
Que idade tem?
63 anos.
Como lida um rocker com a passagem do tempo?
Nem penso nisso. Às vezes, penso é nos disparates que fiz, no fulgor da entrega, foram coisas que se calhar atrasaram a minha vida mas deram--me a perspetiva que hoje tenho. Estou em paz comigo. Não tenho uma guerra civil cá dentro. A nível profissional, não me quero arrastar no palco nem iludir-me. Um disco que vende pouco hoje em dia não quer dizer que seja um mau disco. Tenho discos que venderam 2500 exemplares, mas no Spotify têm mais de 500 mil escutas. Quero fazer do amanhã mais um dia e chegar ao fim realizado e pacificado porque o que fiz, fiz bem.
E no campo pessoal?
Sair da cidade. Preciso de me reencontrar com a agricultura e com os animais. Adoro ver uma árvore crescer. A minha mulher ofereceu--me o ano passado três sobreiros que estão a crescer. No ano anterior tinha-me oferecido um medronheiro, que está fantástico. Sinto essa necessidade.
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