Voltou a abrir os telejornais: já não como pivô, mas como tema principal.
Artur Albarran, de 52 anos, é de novo notícia: não pelo falhanço tempestuoso de um casamento, como há dois anos, quando se separou da libanesa Lisa Hardy, mas por estar sob suspeita de crimes fiscais, branqueamento de capitais, burla, abuso de confiança. O enredo que o trouxe de regresso à ribalta mediática não tem o picante de uma novela de amor, traição e ódio – drama que já viveu por oito vezes: vai na nona união, agora com Sandra Nobre, a mulher que há um ano lhe deu o sexto filho. O caso que o persegue envolve dezenas de milhões de euros – e uma empresa, a Euroamer, que fundou em 1997 com dois ‘homens da CIA’, Bill Hasselburger e Frank Carluci.
Teria ido para a Suíça estudar Direito, não fosse uma paixão, aos 18 anos, tê-lo deixado amarrado a Lisboa. Já no início da década de 80, um romance com Maria Elisa, então directora de programas da RTP, aproxima-o do círculo de decisão da televisão pública. Casa-se com a Isabella Jimenez, filha do embaixador da Venezuela – e debuta na alta roda do meio diplomático: Bill Hasselburger, o homem com quem irá fundar a Euroamer, era então primeiro-secretário da embaixada norte-americana e foi o padrinho de casamento.
Nasceu em 1953, na Ilha de Moçambique, costa do Índico. A família era abastada: o pai tinha uma empresa de corte e transformação de madeiras exóticas – e exportava para a Europa. Cresceu acostumado aos largos horizontes africanos. Até que o sossego na colónia se quebrou com as primeiras rajadas da Guerra Colonial: os guerrilheiros da Frelimo entram em Moçambique, vindos da base de Mtwara, na Tanzânia – e, em Setembro de 1964, atacam o posto administrativo do Cobué, no Niassa. Um ano depois, já a guerra ia rija no Norte, Artur Albarran é enviado para a Metrópole: é confiado à rectidão de um tio paterno, coronel do Exército. Artur conhece Lisboa pela primeira vez aos 12 anos. Estuda no Colégio Padre Manuel Bernardes, sob a direcção de jesuítas.
Mas as saudades dos pais e dos quatro irmãos mais velhos róem-lhe a alma. Artur não pertence a Lisboa. Sonha com África – sobretudo com a costa oriental, de praias de areia branca e águas azul celeste. Ao fim de dois anos de pasmaceira na capital do Império, regressa a casa, em Porto Amélia (actual Pemba), no Norte. Reparte os estudos liceais entre Moçambique e a África do Sul. Os pais têm um sonho: vê-lo formado em Direito na melhor escola suíça.
A SEGUNDA VEZ
Em 1971, Artur Albarran aterra pela segunda vez em Lisboa. Está na flor dos 18 anos. Ao contrário dos portugueses da Metrópole, que chegados àquela idade batiam com os costados na guerra, Artur estava isento da obrigação de defender a Pátria. Aos filhos dos colonos nascidos em África não era exigido o sacrifício da vida pelo Império: podiam alistar-se voluntariamente, mas Albarran não estava para aí virado. Preferia batalhar nos estudos. Desejava partir para Genève, onde o esperava o curso de Direito. Mas tomou-se de amores e por cá ficou – para desespero do pai, que ameaçou cortar-lhe a mesada.
Antes que o dinheiro faltasse, tratou de arranjar rendimento certo. Tinha colaborado no Rádio Clube de Moçambique – e, com a ajuda de um amigo da família, Gustavo Fontoura, homem da oposição, foi bater à porta do Rádio Clube Português, então repleto de estrelas em ascenção: Cândido Mota, José Nuno Martins, Rui Paulo da Cruz, João David Nunes, Joaquim Furtado, Jaime Fernandes, Júlio Isidro…
Albarran mergulha na noite de Lisboa. Gustavo Fontoura apresenta-o nos meios da oposição ao regime. Salazar fora operado em Setembro de 1968 a um hematoma cerebral, mas sofreu dias depois um acidente vascular. O estado de saúde do ditador, então com 78 anos, agravou-se irremediavelmente: deixam-no continuar na residência oficial sem saber que já não é presidente do Conselho. É substituído por Marcello Caetano, catedrático da Faculdade de Direito, e o País alegra-se com a esperança de uma ligeira brisa de liberdade – é a ‘Primavera Marcelista’. Salazar morre em 27 de Julho de 1970.
O 25 de Abril encontra-o aos microfones do Rádio Clube Português. Pende para a extrema-esquerda. Apoia sem hesitar a ocupação da Rádio Renascença. Liga-se de alma e coração ao Partido Revolucionário do Proletariado – Brigadas Revolucionárias (PRP-BR), organização fundada por Carlos Antunes e Isabel do Carmo, em 1973, por dissidência com o PCP. É militante fiel. Frequenta todos os dias a sede do partido, na Rua Castilho, em Lisboa. Trabalha activamente no sector da “Propaganda e Informação”. Albarran, porém, não resiste a alguns ‘desvios burgueses’ que causam profunda irritação aos camaradas de partido mais ortodoxos: conduz carros desportivos, veste fatos de bom corte, vibra nas bancadas do Estádio da Luz com o Benfica. A estas críticas respondia no seu melhor estilo: com uma sonora gargalhada. Artur Albarran atravessa os meses de brasa da revolução sempre ao lado do PRP-BR. Nunca deixou o Rádio Clube Português.
A ARDER
Na tarde de 26 de Setembro de 1975, outro partido revolucionário, a União Democrática Popular (UDP, hoje dissolvida no Bloco de Esquerda), organiza um assalto à Embaixada de Espanha, em Lisboa. O ataque foi justificado como um protesto contra a execução de dois militantes da ETA. Condenados à morte por terrorismo, não se livraram da pena, apesar dos pedidos de clemência enviados de todo o Mundo. Os dois ‘etarras’ morreram presos ao garrote – uma máquina de horrores que aperta o pescoço aos condenados até os olhos lhes saltarem das órbitas. Albarran acompanha o saque à embaixada a par e passo. Os manifestantes forçam a entrada, destroem quadros de El Greco, rasgam os vestidos da embaixatriz e as casacas do embaixador, roubam jóias, lançam fogo ao mobiliário. Grossas colunas de fumo saem pelas janelas. Do outro lado da praça, Albarran, aos microfones do Rádio Clube Português, faz a reportagem: “A embaixada está a arder… E bem!” – diz, no seu inconfundível estilo, frases bem pontuadas e com uma nota de emoção em cada palavra.
O País derrapa perigosamente para a guerra civil. O Partido Socialista e oficiais moderados do Movimento das Forças Armadas (MFA) opõem-se ao PCP e à ala militar comunista. Em 5 de Setembro, uma das mais agitadas assembleias do MFA, na Base Aérea de Tancos, decide substituir o general Vasco Gonçalves na chefia do Governo. A extrema-esquerda responde: surgem os SUV (Soldados Unidos Vencerão), que agitam os quartéis, e o PRP, o partido de Albarran, denuncia a mobilização da direita para um golpe militar e prepara-se para a luta armada. Portugal ferve num braseiro.
O capitão Álvaro Fernandes desvia do depósito de material de guerra, em Beirolas, um lote de mil espingardas G-3: entrega as armas ao PRP e passa à clandestinidade. Otelo Saraiva de Carvalho, o chefe da ala militar revolucionária, aprova a operação: “As armas estão em boas mãos” – diz. As Brigadas Revolucionárias (BR), até aqui publicamente ligadas ao PRP, mergulham na clandestinidade: mantinham intacta a capacidade operacional, que já vinha de 1973, e ao armamento antigo juntaram as G-3 do capitão Fernandes. O plano de Carlos Antunes e de Isabel do Carmo é a manutenção de um exército clandestino pronto a travar a direita.
Os meses que se seguem são dos mais nebulosos da história recente. As BR iniciam uma série de assaltos a bancos. Não reivindicavam os golpes – pormenor que veio a revelar-se precioso: a Polícia Judiciária fica sem saber se os assaltos são da responsabilidade das BR ou dos temerários gangs de delito comum, casos dos bandos de Manuel Alentejano, Tomé Bárbara, João Branco. As dúvidas baralharam os investigadores.
Nasce um novo departamento da Polícia Judiciária, a Direcção Contra a Violência Concertada – uma unidade de elite, que mais tarde dá origem à Direcção Central de Combate ao Banditismo. Em meados de 1978, ao fim de três anos de investigações, a PJ atingiu o coração das BR. A ofensiva policial, na madrugada de 20 de Junho de 1978, atinge, além de uma parte dos operacionais, Carlos Antunes e Isabel do Carmo. Os dois dirigentes do PRP são acusados de autoria moral dos assaltos e condenados a pesada pena de prisão. Arrostaram ainda com uma suspeita: o jornal diário ‘Página Um’, que fundaram em Maio de 1976, terá sido financiado com dinheiro dos assaltos.
O nome de Artur Albarran estava na lista da PJ. Ele teria sido preso naquela madrugada de Fevereiro de 1978 – mas, avisado por advogado amigo, conseguiu fugir a tempo. Era suspeito de ter participado no assalto a uma agência bancária de Soure. Sabe-se, hoje, quem o denunciou, a ele e aos outros. Foram dois ‘arrependidos’ do PRP que aceitaram colaborar com as autoridades: Dinis Lucas e José Plácido. O primeiro refugiou-se no Brasil. Plácido, antigo tesoureiro do partido, não teve a mesma sorte: foi abatido a tiro na Marinha Grande, em 18 de Novembro de 79, por dois brigadistas que não lhe perdoaram a traição. O ‘comando’ que o executou era constituído por Virgolino Cantanhede e Honório Alcalde Marques – que, a partir de 1980, fazem parte das Forças Populares 25 de Abril, o grupo terrorista liderado por Otelo Saraiva de Carvalho.
Albarran foge apressadamente de Portugal. Vai, primeiro, para a Argélia – depois, viaja para Paris, onde trabalha num canal público de rádio. Salta para Inglaterra e consegue um lugar na BBC. Parte à aventura para os Estados Unidos – e volta a arranjar emprego na equipa de ‘investigadores’ ao serviço de um jornalista da cadeia de televisão ‘ABC News’. Insatisfeito, instala-se no Brasil. Recebe, um dia, um telefonema surpreendente: Rui Paulo da Cruz, que ele conheceu no Rádio Clube, convida-o para correspondente da Rádio Comercial. Albarran aceita. Ainda era procurado pela Justiça, a rádio pública passava regularmente as suas peças – e pagava-lhe.
O exílio só terminou em 1982, quatro anos depois de ter fugido. Foi julgado à revelia e absolvido de todas as acusações. Quando regressou, fez uma visita a Isabel do Carmo, a cumprir pena na cadeia de Custóias, arredores do Porto.
Em Lisboa, abrem-se-lhe de par em par as portas da televisão, a convite de José Manuel Barata Feyo, um dos directores de informação do canal público de TV. Mas os dois amigos acabam por se separar, pouco tempo depois, irremediavelmente. Trabalharam durante dois anos numa reportagem sobre o desastre de Camarate, que vitimou o primeiro-ministro, Sá Carneiro, o ministro da Defesa, Adelino Amaro da Costa, e acompanhantes. Barata Feyo não encontrava o mais pequeno indício de sabotagem do avião, mas Albarran, empolgado, encontra nos destroços a mãozinha de conspiradores.
Maria Elisa e Albarran tomam-se de amores: o romance dura dois anos e meio. Ela era a directora de programas da RTP. O presidente do conselho de administração, Proença de Carvalho, fez então uma aposta arriscada: alargar às manhãs o período de emissão. O novo programa tem até um título sugestivo: ‘Bom Dia Portugal’ – e o apresentador é Artur Albarran. Os portugueses tiveram então a oportunidade de lhe fixar a boca rasgada e a gargalhada fácil – o mesmo sorriso que lhe valeu, em 1986, ser contratado para um anúncio da Pepsodent. A imprensa da época calculou o ‘cachet’ em cerca de 20 mil contos. Neste mesmo ano, o antigo revolucinário apoia e participa entusiasticamente na campanha de Freitas do Amaral à Presidência da República. O professor, porém, perde a corrida para Mário Soares.
Mas o ano de 1986 não trouxe apenas derrotas a Albarran. Casa-se com Isabella Jimenez, filha do embaixador da Venezuela. Artur já tinha filho de uma ligação anterior com uma funcionária da TAP – André, hoje com 21 anos. A boda foi um acontecimento social. Entre os convidados, o primeiro-secretário da embaixada dos EUA, Bill Hasselburger, o homem que iria tornar-se seu sócio na Euroamer e lhe abriu caminho a Frank Carluci, antigo director da CIA e ex-embaixador norte-americano em Lisboa, líder do poderoso grupo Carlyle. O casal separou-se, mas reatou o casamento dois anos depois. Têm uma filha – Carolina, hoje com 17 anos.
Albarran interrompe a carreira na televisão para uma desgastante aventura nos jornais. O matutino ‘O Século’, um dos mais prestigiados títulos da imprensa portuguesa, fora relançado após ter sido encerrado na voragem do 25 de Abril. Mas estava moribundo: não vendia mais do que 1500 exemplares diários. Um grupo de empresários liderado por Ricardo Espírito Santo, decide investir ainda mais dinheiro. A aposta é arrojada: cor na primeira página e dois suplememtos semanais, a ‘Vida Mundial’ e ‘O Século Ilustrado’. Albarran encabeça a direcção e atira-se ao trabalho de alma e coração. Mas pedala em seco. O jornal não descola. Decide distribui-lo gratuitamente, na esperança de multiplicar as receitas publicitárias. Nem assim. O velho título volta a morrer – de vez. Albarran regressa derrotado a uma ‘prateleira’ da RTP.
Mas daí a pouco surge, vitorioso, na televisão. A primeira guerra do Golfo, em 1991, atira-o outra vez para a fama. José Eduardo Moniz, todo-poderoso ‘patrão’ do canal público, fê-lo enviado especial para a Arábia Saudita. O repórter brilhou. Os portugueses lembram-se como ele, de camuflado, terminava as reportagens: “Artur Albarran, algures no deserto da Arábia Saudita.”
A popularidade fez com que a TVI o contratasse com estatuto de estrela. Fez o que dele se esperava: revolucionou a informação cinzenta do canal – e transformou-a num espectáculo. Relaciona-se com uma jornalista da RTP, que lhe dá o terceiro filho – a segunda menina, Francisca, hoje com 11 anos. Bárbara Guimarães e Sofia Carvalho apresentavam com ele o noticiário. Albarran tinha ainda um programa semanal de informação e debate com o seu nome: ‘Artur Albarran’. Numa das emissões, sente fortes dores no peito, mas aguenta até ao fim. É internado no Hospital de Santa Cruz, em Carnaxide. Os médicos diagnosticaram-lhe o princípio de uma angina de peito.
Desencanta-se com o jornalismo. Desafia o amigo José Nuno Martins para o negócio de criação e produção de programas televisivos. Os dois vendem à SIC a ‘Cadeira do Poder’ – um concurso em que dois candidatos à chefia do Governo disputavam a simpatia dos telespectadores. Santana Lopes e Torres Couto foram concorrentes. O programa acabou em 1997 soterrado em polémica.
Troca o negócio da televisão pelo imobiliário, a distribuição, a informática. Funda a Euroamer – e, em pouco tempo, anuncia interesses nas sete partidas do Mundo: Portugal, Moçambique, Angola, Roménia, Espanha, Índia, Estados Unidos. Ainda regressou à SIC, para apresentar ‘Acorrentados’, o concurso com que Emído Rangel tentou contrariar as audiências do ‘Big Brother’. Vivia então feliz com a libanesa Lisa Hardy – que lhe deu mais duas filhas: Linny, hoje com seis anos; e Linda, com quatro. Mal sabia ele que o casamento iria terminar como um ‘reality show’ – e nem imaginou sentir-se ‘acorrentado’ à Justiça pelo estrondoso colapso financeiro da Euroamer.
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