O guerrilheiro tinha fugido, ferido, de uma cabana. Fomos à procura dele. Estava já sem uma perna e foi abatido a tiro
T irei a especialidade de radiotelegrafista e cheguei à Guiné a bordo do ‘Ana Mafalda’. Foi preciso chegar à Guiné para ver miséria maior do que a minha. Lembro-me das crianças no exterior das nossas instalações implorarem por comida e depois revolverem o nosso lixo à procura de restos. Aquilo impressionava-me muito.
Uma noite foi ordenado ao 2º Pelotão da Companhia 557 para se apetrechar dos requisitos mínimos para combater. Só sabíamos que íamos no ‘Nuno Tristão’. Desembarcámos de uma lancha LDP da Marinha para uma praia na ilha de Caiar. Tinha começado a ‘Operação Tridente’ e tínhamos de estabelecer a base logística, de onde partiam as ações de limpeza na ilha de Como.
Quanto mais o sol subia, mais apertava o calor. Já tínhamos esgotado a água dos cantis e todos sofríamos com a sede. Estávamos desmoralizados e desidratados e foi então que um alferes-comando, que já tinha combatido em Angola, chamou um radiotelegrafista. Apresentei-me. Escolheu mais alguns homens e entrámos na mata à procura de água.
Andámos centenas de metros e o alferes viu uma cabana de folhas encostada a uma árvore. Mandou-nos formar em posição de ataque à volta da choça e disse que ele e o homem do rádio (eu) íamos avançar e que daria ordem de fogo se fosse o caso. Quando nos aproximámos, saiu a fugir um guerrilheiro. O alferes disparou e todos os outros abriram fogo também. Não houve feridos por milagre.
A PIOR RECORDAÇÃO
Voltámos para trás sem água. Afortunadamente, um dos nossos, depois de cavado novo buraco, tinha encontrado água doce em abundância. Ficámos um mês na ilha, enquanto durou a ‘Operação Tridente’. Como base de logística era daqui que partiam os bombardeiros e que chegavam os helicópteros com a rendição dos soldados, os feridos e os mortos.
Ao largo, o ‘Nuno Tristão’ dava-nos apoio. Quando a ilha de Como foi dada como limpa, fomos para lá 11 meses. Construímos um fortim com troncos de palmeira e dos bidões abertos fizemos a cobertura das instalações. Já com o forte construído, começámos a sofrer ataques durante a noite, cada vez mais violentos. Respondíamos a tiros de morteiro 81. Na manhã seguinte percorríamos a mata e encontrávamos mortos, armas, munições e granadas, na sua maioria checoslovacas.
O isolamento era muito pesado. Os mantimentos eram lançados de avião. Na zona não havia água potável e ia à vez uma secção, numa lancha, buscar água a Catió, pelo rio. No início ainda tínhamos uma LDP, mas depois passámos a ter uma lancha mais pequena e mal armada.
Uma vez, a lancha foi buscar mantimentos e, apesar de ter a bandeira portuguesa, um piloto, equivocado, abriu fogo. Do aquartelamento agitámos a bandeira portuguesa e o avião afastou-se. No porto, nada da lancha e só depois de muitas horas recebemos uma mensagem de Catió, a dizer que a lancha tinha ali chegado. Foi um alívio.
Naqueles meses, o comandante da Companhia, capitão Ares, bem como o médico Leitão e o alferes Leal, mais do que oficiais, foram amigos. O capitão, então, era um padre: aconselhava-nos, acudia-nos. Hoje, é presença assídua nos almoços anuais da Companhia.
Nome Francisco Santos
Comissão Guiné (1963-1965)
Força Companhia de Caçadores 557
+Info Este depoimento foi originalmente publicado na edição de 15 de junho de 2008
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