'O Homem Duplicado' é a última adaptação de uma obra do Nobel da Literatura, mas não a única.
José Saramago não tinha dúvidas: o cinema é o cinema e um romance é um romance. O Nobel da Literatura português resistiu sempre que pôde a ver os seus livros adaptados ao grande ecrã. Mas toda a regra tem exceção e a mais recente já chegou às salas nacionais, quatro anos depois da sua morte. ‘O Homem Duplicado', do realizador canadiano Denis Villeneuve, que segue as premissas do romance homónimo de 2002, tem Jake Gyllenhaal como protagonista. Mesmo que agora, em vez de se chamar Tertuliano Máximo Afonso como no livro, seja Adam o homem que vai questionar a identidade. Já o duplo passa a ser Anthony em vez de Daniel Santa-Clara. A longa-metragem está construída como um thriller intimista sobre a mesma obsessão de um homem, professor universitário preso à rotina, em encontrar o seu sósia, revelado durante um filme recomendado por um colega de Matemática.
A viúva do escritor, Pilar del Río, já viu esta produção e, à ‘Domingo', revelou ter ficado agradada: "Gostei. É de frisar que não é uma adaptação, é um filme feito a partir do romance. Até porque o realizador teve total liberdade criativa." Enquanto espectadora, para lá de profunda conhecedora do romance, a presidente da Fundação José Saramago realça que ‘O Homem Duplicado' em filme "coloca questões aos espectadores, não faz concessões à facilidade". Pilar de Río chega mesmo a recomendá-lo: "É para pessoas cultas, interessadas em cinema."
Apesar da resistência que o acompanhou ao longo da vida de ver os seus livros tornarem--se filmes, José Saramago cedeu algumas vezes. Não só porque ele próprio era um amante de cinema, mas porque tinha consciência de que as suas obras tinham um enorme potencial cinematográfico. Para Pilar del Río, o maior medo do escritor era que as adaptações se tornassem "uma representação mecânica" de cada um dos seus livros.
LÁGRIMAS E SUSPIROS
Antes de ‘O Homem Duplicado', em 2008, o realizador brasileiro Fernando Meirelles (‘Cidade de Deus') levou ao grande ecrã um dos romances mais famosos de Saramago. ‘Ensaio Sobre a Cegueira' conseguiu um orçamento de mais de 15 milhões de euros, um elenco de nomes sonantes de Hollywood - Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover ou Gael García Bernal - e meios de produção de primeira linha. O resultado final dividiu a crítica, foi pouco expressivo nas bilheteiras globais, mas agradou a Saramago, na altura já com a saúde muito debilitada.
Pilar del Río recorda o carinho com que Meirelles e a restante equipa trataram o escritor. O momento em que o Nobel da Literatura viu ‘Ensaio Sobre a Cegueira' no cinema pela primeira vez ficou marcado numa filmagem que já tem mais de 230 mil visualizações no YouTube. No vídeo, de menos de um minuto e meio de duração, assim que a obra termina, as luzes acendem-se e Saramago está na plateia de uma sala, entre Pilar e o próprio realizador. Emocionado, de lágrimas nos olhos, fica por instantes em silêncio. Depois, dirige-se com a voz embargada ao cineasta brasileiro: "Fernando, estou tão feliz por ter visto este filme... como estava quando acabei o livro." Meireles agradece o elogio com um beijo na testa do romancista: "O senhor não sabe como isso me deixa feliz", responde-lhe. O filme, que chegou a ser nomeado para a Palma de Ouro no Festival de Cannes, gerou também uma amizade.
Antes, há já 14 anos, o realizador George Sluizer lançou-se numa coprodução entre Portugal, Espanha e Holanda e adaptou ‘A Jangada de Pedra', um dos títulos mais célebres da carreira literária de Saramago, editado em 1986. A estreia da obra foi discreta, teve poucos espectadores nas salas e a crítica condenou o resultado final. A parábola de uma Península Ibérica que se desprende da restante Europa e segue à deriva no Atlântico tornou-se num desconfortável passo em falso no currículo do realizador de ‘Mortinho por Chegar a Casa' (1996).
Em ‘A Jangada de Pedra', o elenco combinava atores portugueses, como Diogo Infante ou Ana Padrão, com o argentino Federico Luppi ou a espanhola Icíar Bollaín. Nenhum deles deixou saudades pelos seus desempenhos nesta adaptação.
QUEM CONTA UM CONTO
Mas nem só de romances se faz a aproximação da obra de Saramago ao cinema. Em 2010, o português António Ferreira levou a cabo um projeto mais modesto, ‘Embargo', que deu nas vistas em festivais de cinema independente. Este filme de 80 minutos surgiu a partir de um conto que Saramago criou para o livro ‘Objeto Quase' (1978), sobre uma crise petrolífera.
Nuno (Filipe Costa) é um homem que enfrenta muitos problemas, incluindo a falta de combustível, ao mesmo tempo que sonha em implementar uma máquina futurista - espécie de digitalizador de pés - que promete causar uma revolução na indústria do calçado. Estilizada e levemente cómica, esta produção partilhada entre Portugal, Espanha e Brasil chegou aos cinemas nacionais três meses depois da morte de Saramago, aos 87 anos.
Por fim, um outro conto do escritor esteve na base da curta de animação ‘A Maior Flor do Mundo' (2006), de Juan Pablo Etcheberry. Durante apenas dez minutos, o próprio Saramago narra em castelhano a história infantil de um menino que faz nascer uma flor gigante, ilustrada por figuras de plasticina.
E como era Saramago enquanto espectador de cinema? "Um grande aficionado. Durante anos chegou a ver um filme todos os dias. Gostava muito de cinema europeu, em particular do cinema francês", revela Pilar del Río, que aparece sempre ao seu lado também no ecrã, no documentário ‘José e Pilar' (2010), de Miguel Gonçalves Mendes, que o Nobel definiu como um "elogio de amor" à mulher. Neste filme, visto por quase 28 mil pessoas nas salas nacionais, o próprio escritor é seguido de perto por uma câmara, numa altura em que a doença já era uma ameaça séria, havia a vontade em concluir ‘A Viagem do Elefante' e o refúgio chamava-se Lanzarote. "Para Saramago podia haver uma câmara perto ou não. Era-lhe completamente indiferente. Podia estar a ser filmado desde que isso não alterasse a sua vida", recorda Pilar. Quando, mais tarde, viu o documentário, Saramago admitiu ter tido dúvidas sobre o interesse de quatro anos de filmagens. Miguel Gonçalves Mendes percebeu, no entanto, que o escritor, que também criou quatro peças de teatro, gostou do que viu quando este lhe disse que ‘José e Pilar' era um "filme sobre a vida".
Miguel Gonçalves Mendes tem em mãos, desde 2011, um projeto de argumento e o sonho de levar ao cinema ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo'. Já Pilar del Río diz ter um desejo, que era partilhado com o marido: "Gostava de ver adaptado ‘As Intermitências da Morte'. É tão real, tão mágico. Até porque os livros dele são muito cinematográficos. Sempre há uma forma de ver." Resta saber quando.
CAIXA: DOIS GRANDES LIVROS PARA DOIS FILMES
‘Ensaio sobre a Cegueira' e ‘A Jangada de Pedra', livros de 1995 e 1986, foram adaptados ao cinema. Fernando Meirelles fez do primeiro romance uma grande produção com um orçamento à Hollywood e estrelas como Julianne Moore e Mark Rufallo (à esq.). ‘A Jangada de Pedra' (dir.) foi uma coprodução entre Portugal, Espanha e Holanda, com uma carreira discreta nos cinemas.
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