Saiu o messianicamente aguardado ‘The Man, the Music, The Legend’, colectânea de ensaios de sumidades internacionais que canoniza Sinatra como o maior rouxinol humano de sempre. Destaco um aspecto: a sua volta por cima. Em 1953, o titã comia o pão que o Diabo amassou. A Columbia demitira-o (depois de o obrigar a cantar até com um cão).
Programas de rádio e TV? Cancelados. Nas casas nocturnas, cantava para mesas vazias. A MGM rasgara-lhe o contrato como actor. A ‘Variety’ publicou um anúncio do seu agente a mandá-lo pastar. A relação com Ava Gardner esfarelava-se: sem que ele soubesse, ela seguia rumo a Londres, para abortar um filho dele.
Porque Sinatra não se matou, como qualquer pessoa sensata? Porque já não se faziam comprimidos como antigamente. Tudo o que conseguiu foi uma azia e mais um escândalo. Jurou que para a próxima serraria os pulsos. Ava está para os fãs de Sinatra como Yoko para os de Lennon (fisicamente, claro, as duas eram respectivamente como a Bela e o Monstro).
Jean Cocteau descreveu Ava como “o mais belo animal do Mundo” – e se Cocteau, que não era consumidor do produto, achava isso, calculem Sinatra, que não podia ver rabo de saia. Nancy, então esposa do cantor e mãe dos seus dois filhos, encolheu os ombros: a sirigaita não tinha dotes de dona de casa e jamais arrumaria as meias de Sinatra como ele gostava! Mas impedir aquele era como arrolhar um vulcão. Não durou muito mas foi um sol da meia-noite.
Como disse Ava: “Éramos o máximo na cama mas as brigas começavam a caminho do bidé.” Ela odiava os amigos de Frank, que se deitavam de sapatos na cama do casal, depenavam o frigorífico, falavam de boca cheia e apalpavam os tomates com as duas mãos. Mas pelava-se por toureiros, como Dominguin – quando a diva pousava em Madrid, os touros acordavam banhados em suor, cientes de que perderiam as orelhas, o orgulho e a vida.
Bogart ralhou com Ava: “Metade das mulheres da Terra quer coisar com Sinatra. E preferes esses tipos em collants e sapatilhas de bailarina!” Resultado: Frank cumpriu a promessa, esgrimindo umas gillettes com poucas barbas no currículo. Mas um amigo ligou para o 112 e safou-o. OK: Sinatra parou de comer. Num ano a pão e água, chegou aos 49 quilos. Aí, preferiu viver.
Embolsou o Óscar de melhor actor e gravou a celestial série de discos da Capitol – uma Suma Frankológica, com excruciantes ‘torch songs’ (canções de fossa), de uma vulnerabilidade viril. Um minuto de silêncio, s.f.f. Foi a última vez na História que os gostos da elite e das massas coincidiram.
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