Senhoras e senhores, eis a história do primeiro homem a gravar rock’n’roll em Portugal. Um ‘bon vivant’ de 69 anos que hoje ainda toca... em casa
Em 1959, Portugal alimentava a alma com a fórmula encontrada por Salazar para alienar o povo: Fátima, futebol e fado. No meio de um marasmo sem fim à vista, uma franja mais jovem da sociedade começava a aborrecer-se com tamanha monotonia. Do outro lado do Atlântico sopravam os ventos de mudança, através um som que mexia com a juventude: o rock’n’roll.
Pouco dado a politiquices, sem a mínima vontade de arranjar sarilhos e pernoitar na prisão, Joaquim Rodrigues Costa era então um rapaz entregue à paixão pela bola e consequentes jornadas vitoriosas do seu Benfica. Meia dúzia de anos antes tivera até a agradável experiência de ajudar os juniores do Cascalheira a conquistarem o campeonato da II Divisão. Já aí mostrava dotes para a cantoria: “A malta estava sempre com aquelas discussões de quem tinha jogado pior e melhor, mas quando eu começava a trautear qualquer coisa paravam com aquilo tudo. Ficavam em silêncio e até diziam que eu cantava melhor do que jogava”.
Problemas de saúde afastaram-no dos relvados. Na tentativa de escapar a trabalhos forçados ou extensos compromissos laborais, Joaquim Costa passou a saltitar de emprego em emprego, a matar o tempo com deambulações pela cidade e a viver da boa vontade dos pais.
Aguentava-se com pouco, feliz e descomprometido. “Talvez por influência dos filmes, levei sempre uma vida muito libertina, pouco ligada ao trabalho. Tentei ser futebolista, tentei cantar, ver cinema, arranjar mulher, fazer filhos (tem três raparigas) e aguentar-me livre como um pardal.”
Certa manhã, ao entrar no Parque Mayer, onde parava com regularidade para conversar com indivíduos de expediente duvidoso – ainda hoje desconfia que fossem amigos do alheio – ouviu “uma coisa esquisita”. Era um som diferente, vindo de uma ‘jukebox’ colocada numa casinha que o tempo se encarregou de eliminar: “Dirigi-me ao local e vi dois gajos com uma viola a meterem moedas de dez tostões na máquina. Comecei a ouvir aquilo e fiquei pregado. Foi como uma injecção de adrenalina que me entrou pelo corpo a dentro.”
A ‘overdose’ sonora foi tão forte que Joaquim não resistiu a indagar os rapazes: “Quem é este tipo?”. A resposta demorou dois segundos: “Bill Haley & His Comets”.
Ele, até então pouco ou nada interessado por música, ficou louco com a descoberta. Já só via rock’n’roll à frente. As ‘jukeboxes’ transformaram-se num abrir e fechar de olhos em locais de culto onde se acostava grande parte do tempo: “O Bill Haley mudou a minha vida. Eu até andava a tentar sair daqui, ir para a Legião Estrangeira, fazer coisas doidas, e cheguei a dirigir-me à Embaixada de Espanha para saber o que era necessário, mas o salto seria dado dentro de barris. Aquilo não era para mim”.
UMA ESTRELA NA FEIRA
Sem conhecimentos de inglês, Joaquim Costa decidiu ficar por cá e esforçar-se por levar mais longe a paixão pelo novo estilo musical importado dos Estados Unidos. Qual rebelde sem causa, deixou crescer a popa e as patilhas, e iniciou-se na arte de cantar à sua maneira, numa cacofonia de inglês ainda hoje pouco perceptível.
Apesar da trapalhice, o timbre colocado ajudou-o, enquanto as engenhosas vocalizações davam para desenrascar e fazer boa figura. “Como estudei só até à quarta classe não sabia inglês, cantava de ouvido, imitava o que os outros diziam e ficava parecido. Até soava afinadinho.”
As primeiras demonstrações públicas do talento escondido não tardaram a aparecer. Um conhecido que tocava em conjuntos de baile acedeu a alinhar numas sessões de improviso no Jardim da Estrela. Juntavam-se ao pé de uma máquina de discos e passavam o tempo a bebericar uns cafés, entremeados por batuques nas mesas e uns temas dos ‘States’.
Os toscos ensaios ao ar livre deram frutos. A banda, composta por seis elementos, soube da realização naquele local de uma feira cultural e dirigiu-se aos escritórios de Leitão de Barros, programador do espaço, para saber se podia participar. Como Joaquim cantava de ouvido, pediu a Sérgio e a Arménio, dois dos companheiros mais instruídos, que soltassem a voz. Nada feito, fugiram com o rabo à seringa e ele pressentiu que iam ficar mal vistos. Sem hesitar, arriscou a sorte e vai disto que amanhã não há: ‘Tutti Frutti’ cheio de garra e improviso.
O grupo acabou por ser contratado. Ganhava 50 escudos por noite, uma fortuna para a altura, embora o acidental herói do rock se tenha aborrecido depressa. “A princípio foi muito bonito, mas sou muito rebelde, não gosto das coisas durante muito tempo, e nós tínhamos de estar ali todas as noites durante três horas, em cinco palcos. Às vezes, quando me sentia com energia, era fantástico, outras cansativo e maçador.”
Ainda assim, Joaquim arranjou popularidade. Uma noite, recebeu mesmo um convite para rumar aos Estados Unidos, feito por um homem vestido de branco, tipo Al Capone, que o chamou depois de mais uma actuação na Feira da Estrela: “Queres vir para a América?”, perguntou em surdina, como medo de ser ouvido por elementos da PIDE.
Joaquim não gostava de experiências radicais, agradeceu e rejeitou a proposta. Em Portugal vivia com aflições económicas mas estava seguro, era idolatrado, na rua os transeuntes chamavam-lhe ‘O Elvis de Campolide’, apontavam-lhe o dedo e exclamavam baixinho: “Olha, aquele é o tipo que anda a cantar na Feira da Estrela”. Os marinheiros americanos riam-se, maravilhados com as engenhocas vocais. “Eu era um super naquele tempo”, sublinha vaidoso antes de completar, estilo lenda da guitarra, que “até recebia cartas de fãs”.
Quando o pai morreu, Joaquim Costa fez um interregno de três dias nas actuações. Encontrara o motivo ideal para deixar o local; a aventura chegava ao fim pouco depois, embora ele jamais tenha esquecido aqueles três meses. Os outros elementos criaram uma banda, mas Joaquim já não alinhou, preferindo continuar sozinho a carreira.
Ainda em 1959 cantou na Mitra, incluído no lote de artistas convocados para o Natal dos Hospitais, e não fecharia um dos anos de ouro da sua vida sem gravar um disco de 78 rotações no antigo Rádio Graça, objecto de culto eternizado por apenas 200 escudos.
O DISCO QUE VALE OURO
À excepção de dois ou três recortes da extinta revista ‘Plateia’ – entre os quais uma página inteira sobre o concurso ‘Do Céu Caiu Uma Estrela’, do qual, para não variar, também desistiu – e de uns quantos folhetos religiosamente guardados, o álbum gravado há 45 anos, com edição limitadíssima de dois exemplares, é a única prova em como Joaquim Costa tem direito a figurar na galeria dos primeiros ‘rockers’ portugueses. Descuidado, sempre de cabeça no ar, chegou a perder um dos registos não sabe bem onde – crê que tenha sido levado pelas chamas que consumiram os estúdios da Valentim de Carvalho, local visitado quando lhe deu para tentar lançar um álbum comercial.
“Fui à Valentim, mostrei o disco e disseram-me para deixá-lo ali e fazer uma versão em português de um tema famoso. Um amigo ajudou-me a traduzir a letra, mas detestei aquilo. Sou um tipo desconfiado, tenho sempre um pé atrás, e achei que por intermédio da canção estavam a despachar-me, a dizer aquilo que não tiveram coragem de afirmar na cara.”
O outro exemplar da gravação ficara perdido no arquivo do Rádio Graça, que acabaria por fechar as portas. De um momento para o outro, Joaquim Costa via escaparem-se por entre os dedos os dois discos.
Qual Indiana Jones à procura da arca perdida, deu início a uma busca desenfreada, mas sem sucesso. Perseverante, veio a encontrar um deles trinta anos após a gravação, na Feira da Ladra, local onde até há pouco tempo marcava o ponto todas as terças-feiras e sábados, para vasculhar preciosidades do rock’n’roll. “Ainda me lembro desse dia de 1989. Foi o mais feliz da minha vida, acho que já tinha perdido as esperanças de encontrar o disco. Nunca mais o larguei.”
CANDIDATOS AO TRONO
A dedicação e carinho com que trata aquele registo tem a sua explicação: só ele poderá comprovar que Joaquim é um dos ‘rockers’ mais velhos do nosso país.
O assunto dá pano para mangas, com várias pessoas a reivindicar o título. É que na segunda metade dos anos 50 apareceram muitos grupos a apostar no ‘rock’n’roll’, como os Babies, de Coimbra, onde alinhava uma figura mais tarde bem conhecida do panorama musical lusitano: José Cid.
Joaquim discorda da tese, sacando de um álbum de fotos para comprovar ter sido ele um dos pioneiros: “O José Cid está aqui ao piano, diz que foi o primeiro cantor de rock’n’roll de Portugal, mas eu nunca o conheci”, solta entre risos, para logo em seguida disparar: “Conheci o (Daniel) Bacelar, os Conchas, o Zeca do Rock, mas sinceramente nunca vi o José Cid como ‘rocker’ dessa altura. Onde é que ele tocou?”, pergunta em jeito de provocação.
ÁGUAS DE BACALHAU
O ‘fabuloso Costa’, outro dos epítetos inventados para o descrever, passou parte das décadas de 60 e 70 a meio gás, com concertos nas mais variadas colectividades, casas de recreio ou de amigos. Esteve nos Jotas do Rock, duo com o qual ainda gravou à experiência na Rádio Renascença, embora o tema tenha acabado por passar lá pela uma da manhã e “só os taxistas é que ouviram”. Teimoso, voltou à Valentim de Carvalho para mais uma gravação nuns estúdios situados na Costa do Castelo. Gostou do resultado final, mas o certo é que acabou tudo em águas de bacalhau.
ENTRE OS GRANDES
Em 1964 dá-se um dos episódios mais curiosos da passagem de Joaquim Costa pelo ‘showbiz’ português: vai tocar ao Cinema Monumental, ganhar 100 escudos à pala do ‘Festival de Ritmos Modernos’.
Estavam lá os maiores da década, era preciso ser profissional, pelo que ainda guarda a carteira dessa altura, na qual é incluído na categoria dos cançonetistas – orgulhosamente, como se tivesse realizado um feito louvável, afiança nunca ter pago as quotas.
Henrique Mendes apresentava a gala, na qual Joaquim teve uma entrada no mínimo aparatosa. Alinhou suportado pelo Conjunto Capri, e, ao preparar-se para romper triunfal pelo palco deu um pontapé no baixo, que se desligou, provocando um barulho ensurdecedor.
“A malta até se passou. Já estava tudo ali a olhar para o conjunto, há muito tempo à espera, a gritar ‘velhada, velhada’, e pior ficou com essa cena.” O ‘rocker’ não se foi abaixo, avançou de alma e coração e no fim passou com distinção aquele Cabo das Tormentas.
Vasco Morgado até lhe disse que podia lá ficar, bastava para isso arranjar um grupo de malta mais nova para o acompanhar. Parecia a realização de um sonho, mas o bom do Costa desligou-se da ideia. “Eu era assim, tão depressa queria como não queria. Faço sempre aquilo que quero e que me apetece, e se vejo que a coisa incomoda muito acabo logo com ela.”
Nesse 7 de Março de boa memória, Vítor Gomes, vocalistas dos Gatos Negros, foi ter com ele depois da actuação: “Ah, é você que vem para aqui cantar mais do que eu?”. Joaquim pegou na modéstia para responder: “Eu não quero chatear ninguém, venho para aqui procurar a minha vida”. A intempestiva estrela dos palcos ouviu mas não se ficou pelas palavrinhas mansas: “Então fique sabendo de uma coisa: se você se atirar contra uma parede eu atiro-me contra um comboio”.
Hoje, Vítor recorda-se vagamente do episódio: “Esses eram os bons velhos tempos. Eu dizia muito essas coisas, tinha aquela rebeldia da juventude, do rock’n’roll. Mas não era nada contra os outros cantores”.
Joaquim não arranjou parceiros para dar seguimento à aventura pelo mundo da música e a partir de então, os concertos tornaram-se mais esporádicos do que nunca.
Em 1978 tocou no Bar Zodíaco, na Rua de Santana à Lapa, e apanhou uma constipação que lhe estragou a garganta. Nunca mais recuperou, e garante ter perdido as cordas vocais de outros tempos.
A sua última aparição em público foi já na década de 80, no ‘Passeio dos Alegres’, mítico programa de Júlio Isidro onde se tentava descobrir o Elvis Presley português. Participou em jeito de homenagem ao ‘Rei’, mas ficou mal nas perguntas e acabou por não cantar na final – acha que foi traído por uma questão mal formulada.
Depois deixou-se de ideias tresloucadas, pôs a viola no saco e só mostra o talento em casa, onde passa quase todo o tempo: “Faço colecção de fotografias de rock, construo os álbuns e tudo. Sou um maluquinho de rock’n’roll e posso afirmar que fui o primeiro cantor deste género a gravar um disco em Portugal. Só quem apresentar um mais velho do que este pode contrariar-me”, afirma de peito cheio enquanto mostra o vinil.
VIDA MADRASTA
Apesar da energia revelada quando fala sobre a tenra idade, Joaquim Costa tem atravessado um calvário nos últimos anos. A reforma por invalidez atesta os problemas de saúde que lhe proibem uma vida mais activa – até já desmaiou na rua.
Para trás ficou em definitivo a actividade laboral errante, que como era costume começou bem cedo. Depois de sete longos anos para completar a quarta classe, o pai pôs-lhe à escolha: continuar a estudar – tinha talento para desenho – ou dar no duro.
Joaquim disse que estava farto dos cadernos e queria ganhar uns tostões. Iniciou-se na oficina de serralharia da família, passou para outra de automóveis, trabalhou na construção de elevadores, foi canalizador e, por último, esteve num alfarrabista.
Agora diz-se cansado. Aos 69 anos não espera viver muito mais, em parte devido a um problema de sopro cardíaco e à válvula aorta danificada. Hipocondríaco, cada vez que lhe aparece um sinal de doença começa logo a pensar no pior. Mas ser operado está fora de questão: “Ninguém me corta. E se me sinto mal? E se morro na operação? Eu sou medricas, pá. Assim vou vivendo, sofro mas já gozei”.
Sem ter tido aulas de guitarra, arranha bem o instrumento, passa horas em casa a dedilhá-lo – tem apenas cinco cordas, uma delas partida, concedendo um som original. “A música tem de soar bem, ou não vou lá. Mas toco coisas incríveis, e imito vozes de gajos idosos, daquela forma sincopada. Faço cenas do arco da velha e fico encantado. Sou fã de mim próprio.”
QUEM FOI O PRIMEIRO?
Joaquim Costa considera que o pai do rock’n’roll em Portugal foi José Manuel Silva (1939/94), também conhecido como ‘Elvis Silva’ e ‘Baby Rock’. Não deixou qualquer gravação, numa altura em que por imposição dos contratos era obrigatório fazê-lo, pelo menos parcialmente, na língua de Camões. “Havia tipos que cantavam em português, como o (Daniel) Bacelar, os Conchas e o Zeca do Rock, a que eu até achava piada, embora aquilo não fosse ‘rockabilly’. Para mim tem de ser na língua original, mesmo que um gajo não saiba nada de inglês.”
Em 1984, António Duarte editou ‘A Arte Eléctrica de Ser Português – 25 anos de Rock’n Portugal’. O livro, sobre a história do rock em terras lusas, irritou Joaquim por omitir vários nomes dos primórdios, entre os quais o dele. “Não está lá o José Manuel, por exemplo, ou o Vítor Gomes, que para mim foi o melhor ‘rocker’ do País.”
JOSÉ CID CONTRA-ATACA
Em 1956, José Cid estava nos Babies, o primeiro grupo de rock’n’roll existente em Portugal. A aventura durou três anos e ficou marcada por concertos em Coimbra, daí que Joaquim Costa jamais tivesse ouvido falar deles. “Nunca gravámos nada, éramos uma banda de versões, de Chuck Berry a Fats Domino”, recorda José Cid.
O autor do histórico ‘Dez Mil Anos Depois Entre Vénus e Marte’ adianta jamais ter tido conhecimento das cantilenas de Costa. E contra-ataca dizendo que os indivíduos dessa onda “faziam um ‘rockabilly’ de terceira classe. Punham umas popas a imitar o Elvis, umas botas de ‘cowboy’, mas não tinham nada a ver com o rock verdadeiro. Eram uns ‘rockerzinhos’ de bairro a imitar os americanos para engatar as miúdas lá no bar”.
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