Ana Rita, Pedro Rodrigues e António Ferreira são as últimas vítimas de uma guerra sem quartel.
Ana Rita Pereira, bombeira, 24 anos. Filha de um bombeiro, mãe de uma menina. Era, quinta-feira, a última vítima mortal dos incêndios que nestas semanas têm devastado Portugal. Ironia do destino: as últimas mensagens que colocou na sua página do Facebook, antes de ir combater o incêndio na serra do Caramulo, foram homenagens aos outros dois bombeiros portugueses falecidos este mês – Pedro Miguel Rodrigues e António Ferreira.
Pedro Rodrigues tinha uma deficiência num olho mas, mesmo assim, quis ser bombeiro. Há 13 anos almejou o sonho e estava prestes a conquistar um ainda maior: ingressar no curso de socorrismo, para o qual estava convocado, atingindo assim outro patamar na missão que abraçou como profissional. Não chegará lá, porque o fogo levou-o quando tentava salvar as habitações que as labaredas ameaçavam na freguesia de Coutada, concelho da Covilhã.
Os colegas não se espantam com a sua coragem. "Ele era mesmo assim. A sua vida centrava-se em ajudar os outros. Era um homem-coragem, cheio de força de vontade e de espírito, tanto que superou a sua deficiência para ser bombeiro. Era maqueiro e andava no INEM. Salvou muitas, muitas outras vidas", recorda o comandante Fernando Lucas, quem ainda nem sequer se acostumou à ideia de ter perdido um homem.
O mais novo de três irmãos, o filho solteiro que vivia com os pais na Covilhã, foi a enterrar no passado sábado. "Dizemos uns para os outros calma, calma... mas agora é que se começa a sentir verdadeiramente a sua falta aqui no quartel. É injusto, mas é a vida. E esta foi a vida que nós escolhemos", confessa o comandante.
Não foi a primeira vez que o fogo levou a melhor e subtraiu homens à corporação. A 2 de agosto de 1996, o próprio comandante, Fernando Lucas, escapou por um triz de um acidente que levou mais três dos seus homens. Vinham do combate a outro grande incêndio no Sabugueiro, num helicóptero, quando este sofreu uma avaria. Caíram desamparados do céu. Fernando não se lembra de quase nada desse dia. Apenas que nunca mais viu três dos cinco companheiros que com ele seguiam. "Quando se cai de uma altura daquelas perde-se a noção das coisas", conta. Mas nenhum desarma. "As tragédias, sobretudo quando perdemos um dos nossos, só nos dão ainda mais força para continuar. Logo depois de saberem que Pedro tinha morrido, os outros homens só queriam voltar para o terreno para apagar, de uma vez por todas, aquele fogo. Era para o homenagear", desabafa o comandante.
VIVIA PARA AJUDAR
Pedro foi o segundo bombeiro a perder a vida este ano no combate aos incêndios florestais que estão a assolar o País e que já dizimaram floresta, destruíram casas e barracões agrícolas e colocaram várias povoações em risco. Desde o início do ano até 15 de agosto, arderam em Portugal continental 31 mil hectares, uma área bastante inferior à média registada nos últimos dez anos em igual período. Todavia, este número não inclui os fogos da última semana, em que só em Góis terão ardido mil hectares.
Segundo o relatório mais recente do Instituto de Conservação da Natureza e Florestas (ICNF), até 15 de agosto registaram-se 9529 fogos, dos quais 1430 foram incêndios florestais e 8099 foram fogachos. Em termos percentuais, isto traduz-se em menos 33% de ocorrências relativamente à média verificada na última década e menos 69% do que o valor médio de área ardida em período homólogo.
A primeira baixa de 2013 entre os soldados da paz foi António Nuno Ferreira. Tinha 45 anos e foi atraiçoado pela imprevisibilidade das chamas em Miranda do Douro. Ficou com 90 por cento do corpo queimado e ainda lutou pela vida durante três dias no Hospital da Prelada, no Porto, para onde foram igualmente transportados outros dois homens da mesma companhia. Era casado, trabalhava como operador de uma central telefónica, e deixou uma filha de 16 anos.
O PIOR DIA
A triste realidade repete-se todos os anos, alguns com contornos de verdadeira tragédia nacional. O incêndio com maior número de vítimas nas últimas três décadas ocorreu em 1985, quando 14 bombeiros da Corporação de Armamar ficaram encurralados pelas chamas na serra do Lardário. O mais novo tinha 17 anos e o mais velho 39. Vários tinham laços de parentesco (como os três irmãos Carvalheira), quase todos deixaram mulheres jovens com filhos seus nos braços. Em Armamar, ainda há famílias que choram quando se ouve o som de uma sirene.
Os corpos, espalhados pela encosta onde ainda hoje as pedras têm a inscrição dos seus nomes, foram encontrados pelo único sobrevivente, José Manuel Fulgêncio, que ali perdeu para sempre o filho e um irmão. Dias depois, voltou a combater as chamas e ainda hoje é bombeiro. Escusa-se no entanto a falar do "pior dia" da sua vida.
As palavras também ficam embargadas no peito de Jaime Marta Soares, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, quando se recorda do fatídico dia de 28 de fevereiro de 2005. Logo pela manhã, deflagrara um incêndio em Santa Cristina (Mortágua), que a meio da tarde estava debelado. Eram 13h30 quando outro incêndio em Vale de Paredes foi detetado. Foram acionados todos os meios dos distritos de Viseu e Coimbra e mais de uma centena de bombeiros, auxiliados por mais de 26 viaturas, de 16 corporações, puseram-se a caminho. As chamas iam consumindo eucaliptos, sem darem tréguas, alimentadas pelas fortes rajadas de vento.
O ‘efeito chaminé’ – quando o incêndio consome invisivelmente o subsolo de uma encosta até chegar à superfície e se transforma numa gigantesca e intransponível labareda – foi fatal para Adelino Oliveira, 42 anos; José Lapa, 43 anos; Acácio Silva, 29 anos; e Luís Teixeira, de 24 anos. Três morreram abraçados dentro do autotanque, outro quando tentava entrar na viatura. "Conhecia bem todos estes homens. O que mais me impressionou foi ouvir o relato do colega que viu tudo, impotente, para os salvar", recorda.
O dia 14 de junho de 1986 é outra data negra. Arrastadas por fortíssimas rajadas de vento, as labaredas atingiram, em pouco mais de uma hora, cerca de 50 localidades. Sem mãos a medir, a população juntou-se aos bombeiros para defender as suas casas. Quinze pessoas ficaram encurraladas, 12 das quais eram bombeiros. Três viaturas – dos bombeiros da Anadia, Águeda e o carro de um civil – ficaram derretidos pela onda de calor.
O fogo não matou somente portugueses e fez mossa noutras forças, levou homens e mulheres. Cristiana Josefa Santos, 21 anos, foi a única dos seis bombeiros de Lourosa que não conseguiu passar a linha das chamas. Os companheiros, feridos e impotentes, ainda ouviram os seus gritos, mas nada puderam fazer para evitar a sua morte, em 2010.
A 9 de julho de 2006, cinco bombeiros chilenos, especialistas da Brigada Aero transportadora da AFOCELCA que trabalhavam para a Portucel na defesa das florestas, e um português, elemento do corpo de Bombeiros Voluntários de Gonçalo, perderam a vida na Guarda.
Ainda hoje, no Alto do Monge, em Sintra uma cruz de ferro destaca-se na paisagem da serra. Assinala o local onde 25 militares do Regimento de Artilharia Antiaérea Nº 1 de Queluz pereceram, corria o ano de 1966. Defendiam a vila do maior incêndio de que há memória na região que é Património Mundial. "Por maior que seja a experiência e a vontade dos homens, às vezes nada chega para enfrentar a natureza em fúria" confessa Jaime Marta Soares.
A CRONOLOGIA DOS QUE MORRERAM NA GUERRA DOS INCÊNDIOS
Em Portugal, desde 1980, morreram 209 bombeiros em serviço. 106 perderam a vida em incêndios florestais. A maioria dos restantes pereceram em acidentes de viação.
1980 - cinco
1981 - cinco
1982 - quatro
1983 - um
1984 - três
1985 - dezoito
1986 - dezasseis
1987 - um
1988 - três
1989 - dez
1990 - sete
1991 - seis
1992 - cinco
1993 - um
1994 - sete
1995 - nove
1996 - doze
1997 - sete
1998 - oito
1999 - sete
2000 - sete
2001 - um
2002 - dois
2003 - quatro
2004 - dois
2005 - dezasseis
2006 - sete
2007 - oito
2008 - três
2009 - quatro
2010 - sete
2011 - seis
2012 - quatro
2013 - três
(até 22/08/2013)
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