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"O golpe fatal foi uma pancada na nuca"

“Mentira!” – acusa, num livro com 1329 páginas, Frederico Delgado Rosa, neto de Humberto Delgado, refutando a tese de que o general sem medo foi vítima da precipitação de um agente da PIDE. Delgado terá sido espancado até à morte

04 de maio de 2008 às 00:00

Tem formação na área da Antropologia e da Etnologia. Por que é que resolveu escrever uma biografia de Humberto Delgado?

Desde sempre tive grande orgulho e admiração por ele, mas era um assunto que me esmagava um pouco. Por isso mantive-me afastado. Digamos que senti um chamamento qualquer para escrever este livro. Em 2001 tomei essa decisão, pus-me a escrever a vida dele desde o dia em que nasceu até ao dia em que morreu. Foi uma dedicação de alma e coração. De corpo inteiro. Há sete anos que vivo com o meu avô 24 horas por dia.

Em que se baseia para sustentar que Humberto Delgado não foi morto a tiro?

É absolutamente espantoso que estejamos há mais de 25 anos a viver essa mentira em Portugal. Quando se lê o processo judicial português relativo ao homicídio de Humberto Delgado é flagrante a distorção grosseira da verdade material. Essa verdade tinha sido já descoberta pela Justiça de Franco, logo em 1965, quando foram descobertos os cadáveres [de Humberto Delgado e Arajaryr Moreira]. Foi feita autópsia e várias perícias médico-legais deixaram claro que ele morreu devido a sucessivas contusões cranianas. O golpe fatal foi uma pancada na nuca.

Por que é que isso não foi tido em conta no julgamento dos agentes da PIDE?

A Justiça portuguesa refutou todas as perícias espanholas de forma indigna, sem qualquer fundamento científico porque aquela verdade não convinha. O que convinha era aceitar como verdadeiros os depoimentos dos ‘pides’. Houve vários que fugiram e foram julgados à revelia. Outros estiveram no Tribunal e avançaram com a ideia do disparo, que agradou aos juízes.

Por que é que diz que essa tese era conveniente?

Porque a tese do tiro permitiu ilibar toda a gente excepto o autor material do crime, o ‘pide’ Casimiro Monteiro, que foi transformado em bode expiatório. Todos os outros foram ilibados.

O processo decorreu após o 25 de Abril. Como é que se explica essa conveniência de que fala?

O processo foi iniciado em 1974. O acórdão final dos juízes data de 1981. Explica-se pela afinidade política entre os juízes do Tribunal de Santa Clara e o anterior regime. Eles estavam interessados em preservar a figura de Salazar e para isso tinham de preservar o director da PIDE e por aí fora. Quando ilibaram o chefe da brigada, Rosa Casaco, ilibaram toda a hierarquia superior da PIDE e por conseguinte o ministro do Interior até chegar ao próprio Salazar. Foi um processo político flagrante.

Foi dado como provado que a ideia era raptar o general e que só por precipitação foi assassinado. Não foi então assim?

Não, não foi. Essa ideia está relacionada com a ilibação geral a partir da transformação de Casimiro Monteiro em bode expiatório. Em associação está a tese de que a brigada da PIDE foi a Espanha não para assassinar Humberto Delgado mas para raptá-lo e trazê-lo preso para Portugal. Uma coisa está efectivamente relacionada com a outra, na medida em que o assassinato teria sido apenas uma precipitação ou um acesso homicida de Casimiro Monteiro, em desobediência a ordens superiores.

Houve premeditação?

Sim, a Operação Outono foi iniciada em 1962. Levou cerca de dois anos e meio a preparar até alcançar o objectivo e, de facto, abundam as provas de que o objectivo era o assassinato de Humberto Delgado. Houve várias ocasiões em que a PIDE poderia tê-lo prendido, inclusivamente com o auxílio de polícias estrangeiras com as quais estava em íntima relação, e isso não aconteceu.

Salazar autorizou o crime?

Não penso que tenha sido Salazar a iniciar a Operação Outono, mas fez uma coisa absolutamente indigna: soube da operação sensivelmente um mês antes do crime – o director da PIDE testemunhou que o tinha informado – e ele só disse para terem muito cuidado. Em vez de esmiuçar tudo o que se ia passar em Espanha, manteve com Silva Pais um diálogo sibilino em que quase passou um cheque em branco à PIDE.

Pensa que o seu avô tinha consciência de que arriscava a vida quando disse, caso fosse eleito presidente, ‘obviamente, demito-o’ referindo-se a Salazar?

Humberto Delgado sabia, a partir dessa confrontação, que a sua vida seria destruída de uma forma ou de outra. Durante a campanha eleitoral fez várias referências ao facto de encontrar--se em risco de vida e à vontade que a PIDE tinha de eliminá-lo. Não o faziam por receio das consequências a nível internacional.

E contudo Delgado começou por ser um admirador de Salazar...

Sim, nos anos 30. Nessa altura Salazar era visto quase por toda a gente como um salvador da Pátria na medida em que o País tinha estado em perigo de bancarrota e numa situação económica e financeira gravíssima. Salazar restabeleceu a ordem nas contas públicas e recuperou para Portugal um certo prestígio internacional. Humberto Delgado, que era uma pessoa extremamente patriota e preocupada com a imagem do País, aderiu a esse novo impulso que representou o início do Estado Novo. Mas essa admiração por Salazar e pelo regime entrou em processo de ruptura logo no final dos anos 30.

Como é que Delgado foi recebido na Argélia, nomeadamente pelos que lá estavam exilados?

O presidente Ben Bella deu-lhe condições para ele se instalar na Argélia e ele que, no Brasil, estava em condições muito difíceis, aceitou. Foi para a Argélia em 1964. Encontrou entre os oposicionistas uma resistência muito forte à ideia de preparar uma revolta armada em Portugal. Ele era praticamente o único líder da Oposição francamente empenhado numa revolta armada. Nesse aspecto foi um visionário e um percursor do 25 de Abril.

Mas não era a visão dos marxistas, que defendiam o levantamento das massas...

Sim, estavam interessados numa revolução mais a longo prazo e viam com maus olhos uma revolta militar. Mas a queda do regime acabou por ser feita pelos militares e então todos os que se tinham oposto foram a reboque dos capitães de Abril.

Acredita que o seu livro pode gerar alguma mudança?

Será muito difícil reabrir o processo. Foi recentemente encerrado pela Justiça. Passou para a esfera da Cultura. Penso, contudo, que se as pessoas se mentalizarem de que o processo foi uma mentira, a verdade pode ser reposta – num plano histórico e não, infelizmente, judicial.

Há pelo menos uma pessoa condenada que não cumpriu pena...

Até há pouco tempo a Justiça dizia não saber se Casimiro Monteiro está vivo ou morto, mas, ainda assim, o processo transitou da Justiça para a Cultura. Terá de ser perguntado ao juiz de direito da 2.ª vara criminal o que lhe permitiu encerrar o processo. Descobriram que Casimiro Monteiro está morto? O que aconteceu realmente para tomarem esta decisão? É uma questão misteriosa que deve ser esclarecida. O povo português tem direito a saber o que aconteceu exactamente.

Pessoalmente, a biografia permitiu-lhe reencontrar o seu avô?

Não diria reencontrar porque nasci quatro anos após o seu assassinato mas é quase como se o tivesse conhecido porque cresci a ouvir falar dele. Com esta investigação passei a conhecê-lo de uma forma directa. É uma relação directa entre mim e ele. Humberto Delgado tornou-se mais meu avô do que já era. Excerto da obra ‘Humberto Delgado. Biografia do General Sem Medo’, edição Esfera dos Livros, correspondente à conferência de Imprensa de apresentação daquela candidatura à Presidência da República, faz no próximo sábado 50 anos

'- Dez horas são dez horas!

Cultor da pontualidade, Humberto Delgado tomou o seu lugar na mesa de honra. Faltavam apenas dois minutos, mas ainda estava muita gente a causar burburinho, no afã de encontrar lugar sentado onde já só havia lugares de pé. Nessa manhã de 10 de Maio de 1958, o antigo café Chave de Ouro, no número 38 do Rossio, em Lisboa, estava apinhado, numa agitação nervosa de cadeiras e ombros a roçarem uns nos outros, de apertos de mão efusivos, ramos de flores e nomes gritados através do vasto salão de chá. (...)

[Humberto Delgado] Deu a sua direita a Francisco Vieira de Almeida, que presidia a Comissão Nacional de Candidatura, e a sua esquerda a António Sérgio. Defronte, em mesas dispostas sob comprido para o efeito, estavam sentados os jornalistas, dezenas de representantes da imprensa portuguesa e estrangeira e correspondentes das agências noticiosas, muitos dos quais tiveram de ficar de pé. A RTP tinha sido convidada a comparecer, mas não se dignou fazê-lo, bem como a Emissora Nacional.

Após uma «curta mas vibrante» intervenção de Vieira de Almeida, Humberto Delgado ajustou o microfone para fazer a sua primeira declaração. (...)

Uma vez enumeradas, as arbitrariedades do regime apontavam para uma só conclusão, que veio a ser censurada nas provas de jornal, mas foi alvo de ruidosas manifestações no café Chave de Ouro, quando Humberto Delgado a lançou em tom enérgico:

- O Governo Português falta à verdade cada vez que diz, no estrangeiro, que há eleições livres em Portugal!

(...) Não foi preciso esperar muito tempo para saber o que tinha Humberto Delgado a dizer quanto às suas intenções a respeito de Oliveira Salazar. Com efeito, essa pergunta delicada, perigosa e mais ansiada que todas, foi logo a primeira a ser colocada, pela boca do correspondente em Lisboa da agência France-Press desde 1948, o jornalista Lindorfe Pinto Basto. Vi que os meus colegas estavam todos 'nas encolhas', recordaria. 'Fiz a pergunta. Tinha de a fazer.'

- Sr. General, se for eleito Presidente da República, que fará do Sr. Presidente do Conselho?

Cortando cerce o silêncio de sepulcro que se instalou no vasto salão de chá, Humberto Delgado proferiu firme e secamente estas palavras (...)

- Obviamente demito-o!'

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