O velho Doutor Homem, meu pai, achava que os portugueses, como os gorazes, morriam pela boca; em dias de verve, embalado e como se folheasse todos os cépticos da nação, citava as crónicas e atribuía--lhes culpas no cartório do patriotismo.
E, se Damião de Góis era uma excepção (foi o primeiro cronista verdadeiramente culto da nossa historiografia), havia material suficiente em Fernão Lopes, Zurara ou Pina para alimentar a vaidade dos bairristas: não havia rei que não figurasse nos pedestais da glória nem discurso das cortes que não tivesse o transporte de um grande tribuno.
Mas, mais do que isso, envergonhavam-no os excessos de eloquência e de má criação. Disraeli era loquaz e inesperado; os portugueses limitavam-se a ser ameaçadores: quando dispostos à guerrilha tratavam os seus semelhantes por vagabundos, ladrões, assassinos e mentirosos. Se um estrangeiro lesse com atenção os parágrafos imortais dos nossos parlamentares, pensaria que cada um deles estaria ou à beira da apoplexia ou prestes a armar-se de escopeta e espadachim para varar inimigos da mesma língua ou presuntivos invasores das nossas fronteiras.
Isabelle, a "pequena holandesa" (é assim que Dona Elaine, a governanta de Moledo, trata a namorada do meu sobrinho Pedro), admira-se desse heroísmo de tribunos cheios de adjectivos e advérbios, capazes de invadir a Prússia e estilhaçar as Espanhas. Advirto-a, à cautela, de que é um heroísmo de cordas vocais servido por um dicionário de rimas. Ela fica espantada com o que vê na televisão: hordas de portugueses brandindo o seu patriotismo diante das câmaras de televisão, ameaçando os governantes com uma guilhotina móvel que se desloca de norte a sul, perseguindo-os como o látego da moral e a carabina da revolta.
"É só conversa", murmura Dona Elaine, que recorda as rixas da sua aldeia de Cerveira. Para emprestar à cena um certo suplemento de seriedade, esclareço a jovem holandesa, vinda da gelada Frísia onde o mar do Norte tempera os espíritos, acrescentando que a indignação é o mais famoso dos desportos nacionais - as televisões procuram indignados com o afã dos exploradores dos sertões africanos, para lhes amplificar o vozeirão e mostrar como os portugueses aprenderam a repetir-
-se uns aos outros. Isabelle sorri à imagem; ela vai conhecendo os nossos hábitos e a vida portuguesa parece-lhe, em se falando de política, com a romaria da Senhora da Agonia antes de o andor sair ao adro, numa disputa entre os mordomos e as autoridades municipais. Ai de nós.
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