“Fui abandonado pelo meu país. Tratou-me pior do que a um cão”.
Agostinho Ferreira Alves vivia uma vida tranquila em Viana do Castelo, longe de pensar que, a milhares de distância de casa, tudo aquilo que tinha como certo começava a desmoronar.
Como técnico de electricidade industrial, já tinha viajado por vários países em comissões de trabalho de vários meses. Estivera em Israel, no Zaire, na Tunísia, na Grécia, mas sempre regressara são e salvo. A última viagem, contudo, seria diferente. E muito pior do que alguma vez sonhara ser possível.
Até podia ter suspeitado quando, ao embarcar num avião rumo à Arábia Saudita, dois inspectores do SEF o levaram para um gabinete e lhe perguntaram se tinha cometido ou presenciado algum crime. Jamais, respondeu. Embora, em Oman, um tribunal pensasse precisamente o contrário. E de forma tão convicta que Agostinho foi julgado à revelia e condenado a cinco anos de prisão por envolvimento num esquema de falsificação de dólares.
Foi assim, tão inocente como culpado, que entrou atrasado no avião para a Riad e descolou rumo aos três piores meses da sua vida. Acusado por homens que não conhecia, mas que juravam conhecê-lo, foi detido assim que chegou à Arábia Saudita. A folha do calendário marcava 23 de Março de 2006. O resto da sua vida começou nesse dia.
Passou semanas na cadeia, em celas apinhadas e com muito poucas condições. Isolado do mundo exterior, chegou a pensar que não voltaria a conseguir falar português. Mas agora, sentado numa esplanada rodeada de verde, em Lisboa, parece incapaz de estar calado. As marcas do cativeiro ainda lá estão, suficientemente fortes para fazer tremer a voz e cerrar os olhos. A revolta e desilusão não estão longe e Agostinho solta-as sempre que alude ao apoio que teve de Portugal.
Benedito, o filho mais velho, que passou dias e noites sem dormir à procura de uma solução, encosta-se na cadeira enquanto ouve o pai. Há algumas semanas, tal proximidade entre ambos parecia impossível.
A tal ajuda, Benedito acabou por encontrá-la na pessoa de um advogado, Miguel Reis, que se interessou pelo caso. Ainda assim, na primeira vez que foi a tribunal, em Oman, Agostinho estava acompanhado apenas por uma portuguesa, residente no sultanato, que conseguiu adiar a confirmação da sentença. No dia decisivo, após três meses de cativeiro, bastaram alguns minutos para o juiz o mandar em liberdade. “Eu sempre sou que era inocente”.
- Quanto tempo esteve preso?
- Estive preso 82 dias. Trinta e nove em Riad e o resto em Oman.
- Desses quase três meses, qual foi o dia que lhe custou mais?
- Todos, todos. Principalmente na Arábia Saudita. Aí era mesmo pior do que Guantanmo. O que comíamos vinha numa saquita de plástico, com arroz e frango lá dentro, mandada para o chão. Isto era às duas da tarde e depois à meia-noite ou à uma da manhã. Conforme o carcereiro queria.
- Estava sozinho na cela na Arábia Saudita?
- Durante algum tempo, sim. Mas depois, à medida que chegavam mais presos, eles iam metendo mais pessoas nas celas. Cheguei a estar com oito pessoas. Havia drogados, de tudo um pouco. Sei lá. Nem é bom uma pessoa sequer falar sobre isso.
- O mal em Oman é que havia apenas seis celas no calabouço da polícia. Em cada cela cabiam seis presos, mas uma era apenas para a oração. Ficavam trinta presos nas outras cinco, seis em cada, três de um lado e três do outro. Chegou a ter 72 pessoas. Os corredores eram em cimento e eles punham-nos estendidos por ali fora. Davam um cobertor, negro. Diziam para as pessoas se desenrascarem. Mas como? Havia uns que se sentavam encolhidos.... Foi terrível.
- Como é que comunicava com os guardas?
- Não não tinha com quem falar. Não falo inglês, árabe também não. Uma vez comecei a falar comigo, comecei a cantar, porque pensei que tinha perdido a noção das coisas, senti que tinha passado algo pela minha mente e bloqueei.
- Começou a cantar o quê?
- Cantigas que eu sabia e sempre a pensar comigo próprio que ainda sabia falar português. Era um esforço para a minha ‘psique’ activar. Era terrível, um esforço terrível. Houve alturas em que o cérebro chegou a estourar. Mas comecei a controlar-me e recorri a uma ciência que eu utilizo, que já tinha praticado. Aperfeiçoei essa técnica de distribuição de energia pelo próprio corpo. Quando o coração começava a bater muito depressa eu tentava acalmar-me e distribuir essa energia. E pensava para comigo próprio que tinha a verdade do meu lado e que, mais arde ou mais cedo, tudo se ia resolver. Mas eu não sabia nada.
- Chegou alguma vez a pensar que poderia não ser suficiente. Afinal, há inocentes nas cadeias ...
- Não, isso não. Eu sentia a verdade dentro de mim, como se fosse um fogo enorme. Andei oito mil quilómetros para ir lá levar a verdade. Aqueles homens obrigaram-me a ir lá, tinham-me acusado de coisas que nunca fiz. Mentiram. Era inadmissível. Diziam que eu falava bem inglês, que tinha passado moeda falsa, que era muito amigo deles.
- E nada disso era verdade?
- Nada. Não falo inglês. Andar de táxi, como eles diziam, andei uma vez. Nos cinco meses que estive em Oman ia do hotel para o trabalho e de volta. Tinha tudo no hotel. Piscina, ginásio, dois bares, um árabe e outro europeu. As refeições tomava-as no hotel e não precisava de andar noutra vida por lado nenhum. Carro não tinha, porque havia um autocarro que levava o pessoal do hotel até ao trabalho e de volta. Eu só pensava como é que alguém podia dizer que tinha passado moeda falsa se eu não conhecia ninguém? Essa certeza era que a estava dentro de mim e como levava a verdade as coisas não podiam ser contra mim.
- Mas mais ninguém parecia acreditar em si.
- Eu sei o que passava lá, mas não fazia a menor ideia do que se passava aqui. Vivia completamente isolado do mundo. Tinha apenas a verdade e fé que tudo se ia resolver. Vão levar-me a tribunal, vou ser julgado e a verdade virá ao de cima. Isto apesar de não saber se o meu país tinha ou não arranjado advogado. O meu país só me enganou.
- Quando saí de Riade, o embaixador de Portugal na Arábia Saudita foi ter comigo à cadeia e disse-me tinha uma novidade “um bocado triste”. Disse-me que ia ser extraditado, dentro de hora e meia, para Oman. Mas que tinha contactado um advogado em Oman, que já estava a tratar do processo. No entanto, disse-me para não estar com muitas esperanças e para contar, no mínimo, com um mês e meio na prisão. Mas o advogado deixou-me mais tranquilo.
- Como foi a viagem? Seguiu num voo comercial?
- Sim e fui com a roupa que tinha, acompanhado por dois inspectores da INTERPOL. Também vinham à civil. No avião, eles ficaram um de cada lado e eu no meio. Quando chegou a hospedeira, perguntou-me se que queria carne ou peixe. E eu disse que não,só falava português. O inspector, então, vira-se para ela e diz que eu não falava inglês. A seguir, para mim, faz um gesto de água (com a mão a ondular). E foi peixe que comi.
- À chegada mudou de guardas.
- Quando chegámos a Oman, saímos do avião como qualquer outro passageiro. Havia outros quatro inspectores à minha espera e um vem ao nosso encontro. O da Interpol diz-lhe que eu não falava nada de inglês. Ele sorri, avança para mim e diz “How are you? [Como está ?]” Eu olhei para ele e disse: “Como?”. Ele vira-se para os outros dois e diz que, de facto, eu não falava nada de inglês. Quando chegámos à saída, estava um carro civil. Meti as malas no carro e um diz para o outro. “O tipo traz muita coisa”
- Mas eles falavam em que língua?
- Em Inglês.
- Afinal, o senhor percebe ou não percebe inglês?
- Eu compreendo um bocadinho, muito mais do que aquilo que falo. Mas a maior parte das conversas era por gestos. Entrei e eles algemaram-me. Quando chegámos ao edifício da polícia, apontaram para a mala, como que a querer saber o que lá estava. Mostrei a roupa, o estojo da barba, uns livros que trazia. Ele disse “OK” e pergunta por dinheiro. Apontei para o bolso das calças e tinha lá euros e reais da Arábia Saudita, que a embaixada me tinha dado para o telemóvel.
- Como foi à chegada à prisão?
- Entrei algemado e começámos a descer para um calabouço, comecei a ver tudo cheio de arame farpado e eu já só pensava o pior. Mandaram-me tirar tudo. Fiquei só com a camisola, as calças e as cuecas. Nem lenços de papel podia levar. Preencheram um papel que, soube mais tarde, explicava o motivo da prisão e indicava os meus bens, mas estava tudo em árabe. E queriam que pusesse a impressão digital naquilo. Recusei, porque não sabia o que lá estava escrito, mas outro preso lá me sossegou. Já estava perdido e eles não ficavam mais ricos.
- E o advogado? Quando é que se encontrou com ele?
- Do advogado não soube nada. Nada de nada. Agora sei que, uma semana depois de deixar Riad, a embaixada já não sabia onde eu estava. Fiquei completamente bloqueado. Não sabia nada de nada, já quase não conhecia o português, temia não voltar a falar.
- E começa então a longa espera pelo julgamento.
- Exacto. Assim que entrei, apareceu logo um preso, o tipo que controlava aquilo e pediu-me o tal papel. Juntaram-se todos à volta dele, começaram a falar de dólares e mais dólares e eusó dizia que não, que não. Mas eles insistiam. Até que o tal ‘chefe’ pega num cobertor e atira-o para mim... Os dias passavam e não tinha qualquer visita.
- Mas foi mal tratado?
- Não me bateram, nem me fizeram nada disso. Mas tenho visto imagens de Guantanamo e aquilo é muito parecido. Talvez para pior. Mas lá fui conseguindo controlar-me. Ou já teria feito muitos disparates. O meu país ensinou-me a fazer bombas, a sabotar, a matar. E depois tentou negociar a minha pena. Nem queria saber porque é que tinha sido condenado. Partiram do princípio que era cúmplice e queriam negociar.
- Mas ninguém o contactou?
- Nada. Estava para ali, sem falar com ninguém. Havia um romeno que falava italiano e espanhol. Sempre que precisavam de me dizer alguma coisa, chamavam o romeno. Mas isto durou pouco. Tentei falar com ele só para ouvir que ele não estou interessado em saber do meu problema. “Quero é resolver o meu”, disse-me. Distanciou-se e eu fiquei para li sozinho, a lutar comigo próprio. Passados dez dias, chamaram-me para ir à entrada das celas. Tinha uma visita.
- Era o consul honorário de Portugal, que só fala inglês ou árabe. Vinha com o motorista. Começa a falar, mas eu só dizia que não falava inglês. Ele deu-me um cartão de visita e foi embora. E eu fiquei ali sozinho, mais uma vez, sem saber nada. Passados uns dias, voltei a ser chamado e quando chego à porta está o consul e uma senhora.
- Sim. A Ana Maria. Ela começou a traduzir e nós a falar. Às tantas, ele diz-me que vão tentar resolver o problema e pergunta-me se preciso de alguma coisa. “Não tenho nada, só o que vê”, respondi. Precisava de camisolas, de cuecas, de calções. Mais uma peça de fruta, se fosse possível. À tarde, ela passou por lá e trouxe um saco com o que eu pedira. Mas até ao dia do julgamento eu não soube o nome dela. Nem conseguia dizer se era gorda ou magra, bonita ou feia. Nada.
- E a seguir foi o julgamento.
- Pois. Fui quatro vezes a tribunal, mas não fazia a menor ideia do que se estava a passar. Ia algemado até lá e entrava para uma grade na sala. O juiz virou-se para mim - eram seis ao todo - e pergunta-me o nome, em inglês. Eu compreendi, mas também sabia que me acusavam de falar muito bem inglês. Que não falo. Fiquei com um ar de espanto e ele chamou a tal Ana Maria, que estava autorizada, a partir desse momento, a ser a minha tradutora. A partir daí euu respondia e ela ia traduzindo.
- Estavam só os dois? O senhor e a tradutora?
- Sim, eu e ela. E ela estava a tentar que o julgamento fosse adiado, para que fosse possível arranjar um advogado. Caso contrário, eles ia confirmar a condenação.
- Sim, o juiz aceitou e ela deu um salto de contente. Quando eu ia embora, ela veio à janelinha e disse-me que tínhamos conseguido. Mas disse também que fazia falta um advogado. “É só mais uma semana, aguente-se”. Eu perguntei-lhe pelo advogado da embaixada. E ella disse-me que esse assunto era para ser discutido mais tarde. Que estava a tratar de tudo, sim, mas com o meu filho e que esta semana de adiamento era muito bom.
- Voltou ao tribunal uma semana depois.
- Sim. Ia a tribunal na terça-feira e o meu filho tinha arranjado o advogado no domingo. Mas eu não sabia. Estava como o tigre na jaula. É muito forte na selva, mas na jaula não tem força nenhuma. Não podia fazer nada e tinha de esperar que os outros actuassem por mim. Quando entro no tribunal vejo a Ana Maria e um homem de batina. Era o advogado. O juiz volta a perguntar-me o nome e eu respondo da mesma forma. Então pergunta-me se eu aceitava aquele homem como advogado. “Aceito sim senhor.” Mas nem sabia quem era. O advogado pede-lhe mais uma semana para estudar o processo. Quando saí, a Ana Maria vem outra vez à janelinha. “Senhor Agostinho, aguente mais oito dias. Agora já tem advogado.”
- Mais oito dias e regressa ao tribunal, sem sequer ter falado com o seu advogado?
- Sim. Eu via os outros a serem visitados pelos advogados e eu nada. E isso só me preocupava mais. Ainda assim, ia com fé de que tudo se iria resolver. Quando entro na sala, lá estava a Ana Maria e o advogado. O juiz pergunta-me o nome e a seguir se sabia que estava condenado a uma pena de dois anos e meio e porque crime. Eu respondi que sim, que sabia, mas que era tudo mentira. Entretanto, o advogado começa a falar. Manda ali dois berros, mais uma série de coisas em árabe.
- Como é que viveu esses momentos da audiência?
- Estava ali estático. O juiz olhava para mim, de cima a baixo e eu ficava ali, direitinho, confiante na verdade. Aquilo era fácil de resolver, tantas eram as mentiras. O advogado, quando viu o processo, nem sequer veio ter comigo. Foi menos de uma hora. O advogado entrega duas pastas ao juiz e houve silêncio na sala. De repente, ele diz: “Está inocente”. Eu não compreendi, mas a Ana Maria meteu um braço pela grade, agarrou-me e disse “Agostinho, você está inocente, está tudo resolvido”. Finalmente, eu estava livre. Sabia que tinha a verdade. Fui abandonado pelo meu país. Tratou-me pior do que a um cão.
- Sente que foi abandonado?
- Claro. Eles tinham metido o pé na argola e se eu fosse condenado, nem que fosse a um dia, era sinal que eu era culpado. Estavam a negociar, a nível político a minha pena.
- Como é que sabe isso?
- Sei porque o próprio ministro [dos Negócios Estrangeiros] Freitas do Amaral se encontrou comigo e disse que já tinha falado com o homólogo saudita e que, pela forma como ele o escutou, o problema seria resolvido rapidamente. O que estavam a resolver é a redução da minha pena. Se fosse para me libertarem tinham colocado um advogado. Estou triste e revoltado.
- Admite processar o Estado?
- Sim. Isso depende do meu advogado, mas o meu país tem de ser responsável pelo que não fez. Estou muito sentido. Atiraram-me à lama, sem nada a que me agarrar.
QUESTIONÁRIO DOMINGO
Um País... Portugal
Uma pessoa... Agostinho da Silva
Um livro... Linda Goodman, “Signos Estelares”
Uma música... New Age
Um lema... Confiança em mim próprio
Um clube... Não sou clubista, sou desportista
Um prato... Minhota
Um filme... Guerra das Estrelas
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