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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

O que aprendi com a minha mãe

Toni aprendeu que com estudo se vencia. Paula Lobo Antunes, o valor da delicadeza. Pelo Dia da Mãe, os ensinamentos delas-

06 de maio de 2012 às 15:00

"Joãozinho, leva a renda de casa e não a percas', pedia-lhe a mãe todos os meses. E ele, miúdo pequeno em tamanho mas grande em sentido de dever, levava a responsabilidade no bolso apesar da tenra idade. O director do Teatro Nacional Dona Maria II tinha três anos quando aterrou na capital vindo de Tomar, onde ele e a mãe nasceram, sem o pai ao lado.

"Eu tive de ser o homem da casa. Aprendi isso com a minha mãe. Deu-me disciplina interior e um grande sentido de responsabilidade. Mas principalmente ensinou-me o amor, mostrou-me que sem ele é impossível viver, por isso valorizo tanto a educação dos afectos", recorda João Mota sobre a mulher que o deu à luz em 1942.

No Dia da Mãe, que hoje se assinala, desafiámos estas e outras memórias de várias personalidades da vida portuguesa. Perguntámos aos nossos interlocutores qual o ensinamento, aquela grande lição que lhes foi transmitida pela mãe e que não mais esqueceram. Porque é da mãe a primeira memória de infância, é na mãe que tudo começa e é ao colo dela que sempre se regressa, mesmo que ela tenha partido. Enquanto João Mota, de 69 anos, recorda Maria da Conceição, modista de alta-costura, como uma mulher "de grande força e energia", o médico Fernando Póvoas lembra com saudade as iguarias da mãe e ainda sente na boca o sabor dos panados que Elvira, "óptima cozinheira", fazia.

"Foi mãe, professora, educadora. Depois da morte do meu pai, foi gestora do laboratório de medicamentos que tínhamos. Eu tinha a mania de dizer ‘nas contas sou muito honesto' e a minha mãe ensinou-me que isso não era qualidade nenhuma, que ser honesto era uma obrigação de todos, não um traço de personalidade ou feitio."

EDUCAÇÃO E ASSEIO

‘Julinho, nunca te esqueças de lavar as mãos antes das refeições. Se faz favor, obrigado, bom dia, boa tarde, e boa noite são para usar sempre. Só com trabalho é que se vence na vida. Nunca te vendas.' Por isso sou asseado, educado e honesto, diz Júlio Isidro sobre a educação que a mãe, Brígida, nascida a 14 de Julho, dia da Revolução Francesa, lhe deu. A mãe do apresentador de televisão "foi a mais velha voluntária da Cruz Vermelha e morreu sozinha em casa aos 87 anos. De repente, há cinco anos, mas muitos séculos de saudades".

Porque é de saudade que se fala quando uma mãe já não está, Maria Margarida era, nas palavras da filha, Maria Filomena Mónica, "uma mulher muito inteligente, muito bonita, muito religiosa e muito mandona. Exigia muito dela própria e das filhas, principalmente de mim, que era a mais velha". Com ela, aprendeu "várias lições, pela maneira como se comportava, e não pelo seu discurso. Entre elas o sentido de dever, a ideia de que cada um é responsável pela vida que leva, a força perante a adversidade. O seu próprio temperamento autoritário teve, contudo, consequências na minha educação. Ou pelo meu feitio ou pelo exemplo dela, nunca senti qualquer apetência pelo poder, seja ele político ou religioso".

Porque Maria Margarida, mãe de família da classe média-alta, foi alta dirigente da Acção Católica e directora da revista ‘Aleluia', também ligada à Igreja. "Quando o meu pai se arruinou, tinha ela 45 anos e conseguiu começar uma vida profissional de muito sucesso, no ano em que me casei, na Fundação Gulbenkian, onde esteve vinte anos. Tornou-se uma espécie de confidente dos bailarinos, porque ouvia todos os problemas e dilemas deles."

Maria Clara Machado Vaz era nome artístico. A mãe do psiquiatra e sexólogo Júlio Machado Vaz, que na certidão de nascimento respondia por Maria da Conceição, foi uma das primeiras Rainhas da Rádio em Portugal, eleita a representante portuguesa no Festival Internacional da Rádio em 1953. Actuou em inúmeros espectáculos, gravou centenas de canções, foi aclamada pelo público. Dela, o filho guarda fundamentalmente dois ensinamentos que não tem a ilusão de "ter conseguido pôr em prática: por um lado, o espírito de dignidade e força perante as adversidades e, por outro, o conseguir sempre retirar prazer das coisas mais simples da vida. Não são lições fáceis, são as mais difíceis". Maria Clara morreu em 2009.

Também Maria da Conceição se chamava a mãe de Toni, antigo treinador do Benfica, e também ela já cá não está. Oliveira era o último nome de uma mulher "como tantas que este país teve. Uma Catarina Eufémia [ceifeira alentejana cuja vida teria sido anónima, tal como a do Portugal rural, se não tivesse sido assassinada] que sempre trabalhou e nunca voltou a cara a nada, muito menos às dificuldades. Uma mulher que vivia para os filhos e para o marido", de volta da lida da casa e da rega dos campos.

"Mesmo sendo filha de pais agricultores, e apesar do pouco tempo que tinha, arranjava sempre um bocadinho para se sentar ao meu lado, andava eu na primária, para me ensinar, para me ajudar com a escola. A minha mãe, uma mulher muito bonita, ensinou-me sobretudo que a educação era uma arma e uma ferramenta para a vida", lembra Toni sobre a mãe e a sua infância numa aldeia - Mogofores, em Anadia - na década de quarenta.

"Também me ensinou outra coisa que está relacionada com a primeira: a não desistir, a enfrentar tudo o que viesse. Esse sinal fundamental de que com trabalho, muito trabalho e esforço, tudo conseguimos vencer na vida." Da mãe também guarda o "espírito de solidariedade, o facto de estar sempre disponível para ajudar as outras senhoras da aldeia em acções de solidariedade".

Às irmãs Dália e Núria Madruga, a mãe, Leopoldina, uma funcionária pública de 54 anos, sempre ensinou a serem "independentes e a não contarem com ninguém. Aprendemos a depender de nós e é isso que eu tento transmitir ao meu filho, embora ele ainda seja pequeno. Acho que educamos os filhos para o Mundo, eles não são nossos, e temos de ter consciência disso. Aprendi essa consciência com a minha mãe", conta a irmã mais velha, Dália.

Já a mãe de Bárbara Guimarães, Isabel, uma professora primária de 61 anos, disse sempre à filha, apresentadora de televisão e agora jurada do programa ‘Ídolos', "que só iria saber o que era ser mãe e dar o devido valor no dia" em que ela própria o fosse. E já é.

O economista João Duque escolhe outra lição de todas as que aprendeu com a mãe, Palmira, de 79 anos. "A de que dar é melhor do que receber. Dela sempre obtive o ensinamento para a disponibilidade perante terceiros, mesmo até aos que não nos retribuem de igual modo."

TOLERÂNCIA, SEMPRE

Carminho, um dos nomes grandes do fado da nova geração, conta que "foram muitos os ensinamentos" que recebeu da mãe. "Alguns ela nem sonha que mos transmitiu. Com ela aprendi a perseverança mas também a tolerância e a complacência de nunca reagir intempestivamente mesmo face à agressão. Ensinou-me a generosidade, a fechar o ciclo da agressividade, a responder com paz. Como no ditado budista que diz ‘sê como o sândalo que perfuma o machado que o corta'", conta sobre a mãe, Teresa Siqueira, de 56 anos, também ela fadista, além de empresária no ramo do fado.

Paula Lobo Antunes, ao contrário de Carminho, não seguiu as pisadas da mãe, Ana Maria, médica, de 67 anos. Escolheu a via da representação. "É a minha fã número um. Quando comecei a fazer castings, em Londres, ela ia sempre para me apoiar, nem que fosse só um dia. E mais tarde, nos espectáculos, também não faltou a nenhum. Recebo dela um apoio incondicional. Por outro lado, quando ia com ela ao hospital onde trabalhava e via a forma como as pessoas a tratavam, sempre soube que um dia ia querer que as pessoas respeitassem o meu trabalho como respeitavam o dela", lembra a actriz.

Com a mãe, aprendeu sobretudo "a educação, a delicadeza, com toda a gente de igual modo. Lembro-me de que era miúda e ligava para casa das minhas amigas e dizia: ‘Quero falar com a Mariana!', e ela dizia-me ‘Não é assim que se deve fazer. Tens de perguntar se é da casa da Mariana, se está tudo bem e finalmente se podes falar com ela.' Mostrou-me que o trato com os outros tem de ser sempre correcto e delicado", recorda Paula Lobo Antunes.

Ana Maria transmitiu também à filha a importância da honestidade, "fosse ainda na escola ou no trabalho. A minha mãe sempre incentivou o meu esforço e foi rígida no sentido de me ajudar, mas sinto que isso foi uma mais-valia para mim, porque a educação começa em casa. Sinto que dei o retorno daquilo que ela me deu e daquilo que investiu em mim", remata.

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