Viu-se pela primeira vez debaixo de fogo a sério na manhã de 14 de Outubro de 1963, uma segunda-feira, escassos dias depois de ter desembarcado na Guiné: meia dúzia de balas passaram-lhe a assobiar a um palmo da cabeça – e sentiu um desconfortável arrepio de frio na espinha. Teve medo. Todos têm medo. A diferença é que uns ficam paralizados e outros reagem.
Alpoim Calvão é porventura o oficial português com mais combates na folha de serviço – sempre na Guiné. Aqui, onde a Guerra Colonial era mais dura, fez duas comissões. Da primeira vez, entre Outubro de 63 e Outubro de 65, comandou o Destacamento de Fuzileiros Especiais N.º 8 em 92 operações que fizeram 146 mortos entre os guerrilheiros do PAIGC. Alpoim perdeu quatro homens. Na segunda comissão, já sob o pingalim de Spínola como comandante--chefe, foi o operacional das missões especiais – um ‘Rambo’ de carne e osso.
Não deu descanso às lanchas rápidas e às barcaças de carga do PAIGC que se aventuravam nos rios do Sul da Guiné para abastecimentos das colunas de guerrilheiros. Alpoim Calvão especializou-se em dar-lhes caça. Passava duas ou três semanas de cada vez, ele e mais quinze, entregues a si próprios, divididos por quatro botes pneumáticos a motor – os zebros. Actuavam como felinos emboscados à espera da presa. Permaneciam escondidos nos tarrafos das margens, dentro dos botes, e atacavam: lançavam-se em velocidade atrás dos barcos inimigos, atiravam fateixas de abordagem, saltavam para bordo – e terminavam a missão em combates corpo a corpo.
Numa dessas vezes, um guerrilheiro disparou cinco tiros de pistola contra Alpoim: nenhum acertou o alvo. Numa ocasião, foi atingido – numa perna. Noutra, balas de metralhadora passaram-lhe ao lado da cabeça. E, numa terceira, escapou a uma rajada que lhe teria desfeito a barriga durante o desembarque em campo aberto para tomar de assalto uma posição inimiga. Correu do bote aos ziguezagues, tronco curvado para a frente. O pormenor de trazer a arma perpendicular ao corpo, à frente da barriga, salvou-lhe a vida: o aço da sua G-3 rechaçou as balas que o teriam matado.
Alpoim Calvão planeou e comandou a mais ousada acção militar da Guerra Colonial – a ‘Operação Mar Verde’, desencadeada em 20 de Novembro de 1970, contra um país estrangeiro, a Guiné-Conacri, o santuário onde o PAIGC tinhas as bases e lhe permitia alimentar a guerrilha e pôr a província a ferro e fogo. Missão: matar Amílcar Cabral; assassinar o presidente Sekou Touré e substituir o governo por um outro amigo de Portugal; aniquilar a Guarda Republicana de Conacri; e libertar 22 militares portugueses da cadeia de La Montaigne.
A força atacante deixou Conacri numa enorme bola de fogo – mas não cumpriu todos os objectivos. Alpoim Calvão actuou com informações erradas fornecidas pela PIDE, a polícia política. Trouxe os portugueses reclusos que, provavelmente, nunca seriam libertados. Não encontrou Amílcar Cabral nem Sekou Touré. Portugal negou que alguma vez tivesse atacado Conacri. Os portugueses libertados foram apresentados como heróis que organizaram com êxito a fuga da cadeia e conseguiram chegar a pé à fronteira da Guiné portuguesa.
‘DRAGÃO MARINHO’, ESPIÃO EM ÁFICA
Em Dezembro de 1970, após a Operação Mar Verde, Alpoim Calvão termina a comissão na Guiné – e regressa à Metrópole. É colocado no Comando Naval do Continente e, mais tarde, à frente da Polícia Marítima de Lisboa. Desespera com falta de acção. Congemina montar uma rede de informações nos países africanos que apoiavam os movimentos de guerrilha na Guiné, em Angola e em Moçambique. Fica com o nome de código de ‘Dragão Marinho’. Viaja por esses países com passaportes falsos. Até que Costa Gomes, nomeado chefe do Estado-Maior General das Forças Armadas, em 1971, acabou com a rede: “Os resultados, embora interessantes, não são úteis para a defesa nacional.”
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