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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

O SÃO JOÃO ‘RAPIOQUEIRO’

As sanjoaninas têm a sua principal morada na cidade do Porto. Os folguedos são espontâneos, com pancadinhas de alho-porro e gritos de festejo. “Ó patego, olha o balão!”

22 de junho de 2003 às 17:32

A noite mais longa e mais querida dos portuenses, está a chegar. Pairam há dias sobre a cidade e a região, o clima e os sortilégios da noitada de segunda para terça-feira. Os ânimos dispõem-se ao cumprimento de ritos imemoriais do Solstício de Verão, aos quais o calendário cristão sobrepôs a celebração do S. João Baptista. Mas a festa é, desde sempre, no Porto, uma manifestação empolgante de vivência colectiva, e que consiste tão só em sair para a rua ao cair do dia e integrar um mar de gente entusiasmada e feliz, em movimento contínuo pela Baixa e pelos bairros mais populares da cidade, até que um novo dia desponte.

Outrora, o S. João foi mais “rapioqueiro”, como se diz no Porto, o que quer dizer mais licencioso, mais de bailarico, namoro, bebida abundante e galhofa. Consta até que de alguma luxúria. Hoje tem carácter mais cívico e de afirmação do carácter da cidade. Mas pelas ruas estreitas, vielas e pequenos largos de bairro, os costumes ainda fazem a sua lei.

Vencer ritualmente a noite que tem, nesta altura do ano, a duração do dia, estar e encontrar-se com outros na cidade que cada um sente pertencer-lhe por igual, livre dos constrangimentos habituais, saudar todos num clima de euforia em nome do S. João, que aliás era santo austero e místico, afirmar uma identidade, um carácter e divertir-se loucamente, é o objectivo.

São João do Porto é, pois, essa noitada de arromba, em que as gentes tomadas de uma energia estranha saem para rua e descem à Baixa e à Ribeira, numa e noutra margem do rio, enchendo todas as ruas, ruelas e miradouros para ver o fogo que da Ponte D. Luís e da marginal de Gaia rebenta de cor sobre o Douro, ao soar da meia-noite. Mas, desfeita a cachoeira do fogo de artifício e calado o estrondo dos foguetes, que ecoam pelo vale cavado do rio, redobra a energia e empolgam-se os ânimos. Então, a festa alastra como uma mancha ruidosa e frenética desde as Fontainhas e da Ponte Luís I até Miragaia, Massarelos, Foz e Boavista; desde a Ribeira até ao alto da Avenida dos Aliados; da Vitória até Cedofeita e Lapa; da Praça da Batalha ao Bonfim e a Campanhã. A Baixa une-se por cordões humanos a todos os bairros populares que existem no centro histórico e onde a festa há muito começou; da Sé, Miragaia e Arrábida até a Ramalde e Paranhos e por toda a zona oriental, da Areosa ao Freixo. Estes sítios - outrora povoados rurais da periferia que tinham cada um o seu S. João - são hoje tecido pleno da mesma cidade. Sente-se que é uma cidade inteira que, em nome de um santo se festeja a si mesma, como se todos os arraiais dispersos fossem uma só festa. E que festa!

PERSONAGENS DA INVICTA

A vendedora de manjericos

Zélia Soares, moradora em Miragaia, é vendedeira de alhos-porros, manjericos e erva-cidreira, juntamente com sua mãe que monta banca, há quase meio século, na Praça do Marquês. São aliás das primeiras vendedeiras a aparecer na rua, nas vésperas das festas sanjoaninas.

“Toda a família ajuda a minha mãe que há 40 anos vende manjericos e alhos-porros. Este ano espera-se que o negócio seja bom, e que o tempo ajude. O S. João no Porto é uma festa popular, com grande tradição, que passa de pais para filhos, e que há-de perdurar sempre. É a festa do povo e ninguém ousa modificá-la.”, adverte Zélia que salienta o carácter ‘democrático’ da festa: “Todas as idades, ricos e pobres, vêm para a rua divertir-se.” Este ano, o folião terá que desembolsar entre três e dez euros euros – consoante o tamanho - por um vaso de manjerico. Pelos alhos-porros basta uma moeda de dois ou uma nota de cinco euros, ao passo que o popular ramo de cidreira se compra com um euro. E a expectativa do negócio não colide com outros anseios mais prosaicos. Zélia Soares e a mãe anseiam também pela noitada sanjoanina.

O fazedor de cascatas

Fernando Quintela tem 65 anos, é reformado e há 48 anos que faz a sua cascata. Ou seja, uma espécie de trono ao santo, decorado com figuras que a imaginação do autor mandar. Em anos passados, a cascata de Quintela podia ver-se na sua própria casa. Este ano está montada no horto Bela Foz.

“Comecei com meia dúzia de bonecos e, ano após ano, fui comprando mais. Actualmente, a cascata tem 800 bonecos. As casas que a enfeitam foram todas construídas por mim e muitas delas são réplicas de monumentos da freguesia e da cidade.” Fernando Quintela leva um mês a prepará-la se trabalhar dez horas por dia, sem parar ao fim-de-semana. “Já me ofereceram cinco mil contos pela cascata e não vendi. O valor afectivo não tem preço. Só os candeeiros custaram entre 25 e 75 euros.” O artista só lamenta que este ano o habitual apoio da Junta de Freguesia da Foz não se tenha concretizado. “Mas, graças a Deus, a cascata está aí para ser vista e admirada por todos.” E até há horário para as visitas: as escolas, entre as 9 e as 12h30, os restantes curiosos entre as 15h30 e as 20 horas. Durante a quadra, entre as 21 e 24 horas.

Alho-porro, ervas e martelinhos

O alho-porro é o ícone dos festejos do S. João no Porto. O homem ou a mulher de alho-porro na mão são a figura mais castiça da festa, mas hoje em dia são minoritários. Tradicionalmente os “sanjoaneiros” do Porto levavam também para a noitada a erva-cidreira, manjerico e alecrim. O alho-porro para dar pancadinhas nas cabeças e os molhos de ervas aromáticas para pôr diante do nariz e cheirar. A cidade enchia-se de odores das ervas campestres que com o andar da noite murchavam, tornando a atmosfera esquisita. Só praticamente há meio século é que a indústria do plástico inventou os martelinhos que ao bater na cabeça fazem um trilo característico e que enxameiam a cidade de um ruído contínuo e peculiar. Uns dias antes da noitada, por todas as praças da Baixa vendem-se alhos-porros, manjerico e os martelinhos de plástico. Ninguém vai para o S. João de mãos a abanar. Vai-se para participar ou fica-se em casa.

Memórias de um polícia

Artur Marcelino foi durante muitos anos polícia no Porto e lembra-se das pessoas que lhe tiravam”o boné para dar a martelada na cabeça com o alho porro” ou que lhe davam a cheirar o manjerico. A autoridade nunca levou a mal já que a tradição assim o permitia. Até porque, arrumada a farda, Marcelino era um simples portuense. “Recordo que assim que saía de serviço tirava a farda e ia para a noitada até às tantas, porque só uma vez por ano é que se pode andar a pé e à-vontade pelas ruas do Porto.” Mas mesmo animado com o São João, Marcelino não esquece o dever da ordem. “Na noitada, quem sofre mais é o automobilista, que não tem por onde circular ou arrumar a sua viatura. Mas, nesta noite, as pessoas têm de se convencer que é para andar a pé e conviver com outras pessoas e não passear de carro”.

BRAGA E AS SANJOANINAS

As festas sanjoaninas enchem a cidade de Braga de tradições e manifestações populares muito próprias da realidade cultural do Minho. São sete dias de intensa animação. Os gigantones e cabeçudos, os romeiros, as tocatas, rusgas, ranchos folclóricos e grupos de bombos e Zés Pereiras percorrem as ruas entre as multidões, provocando um ambiente generalizado de festa.

O repertório de música e cor é muito variado, atingindo o ponto alto na noite de amanhã. Arcos de romaria do Minho, expressando o S. João de Braga, do Minho e de Portugal, encabeçam as romarias de multidões de pessoas que se misturam com as centenas de agrupamentos populares e que deixam ‘à pinha’ as avenidas Central e da Liberdade.

“É a única manifestação genuinamente popular, de cor e alegria exuberante, que se realiza em Portugal”, asseguram os organizadores das festividades, realçando o cenário do Parque de S. João da Ponte, “artisticamente decorado e iluminado com milhares de lâmpadas multicolores, bem à moda do Minho”, onde “todos os forasteiros se misturam, para cantar e dançar à boa moda minhota, durante a noite”.

Numa noite, que encerra com um espectáculo de fogo-de-artifício lançado do alto do Monte Picoto sobre o Terreiro de S. João, enquanto vários grupos marcam a animação popular por toda a cidade, apresentam-se no rio Este os tradicionais quadros bíblicos, envolvidos por “centenas de lumes vivos”. Numa das margens surge a representação do Baptismo a Cristo e do outro lado apresenta-se uma gigantesca imagem de S. Cristóvão com o Menino ao ombro, simbolizando a travessia do rio Jordão.

As tradições sanjoaninas em Braga abrem ainda o dia de S. João – na terça-feira –, com o cortejo dos carros das Ervas, do Rei David e dos Pastores. Milhares de pessoas juntam-se ao longo das ruas da cidade para apreciar este cortejo de representações medievais e exibições da Dança Palaciana e do Auto Sacramental de S. João.

A concluir os sete dias de intensa animação, a jornada desenrola-se com alguma acalmia, ao ritmo das cerimónias religiosas do dia e das actuações de bandas musicais e filarmónicas em diferentes pontos da cidade. O Estádio 1.º de Maio é o palco para o último espectáculo de pirotécnico que assinala o encerramento das festas.

AS ORIGENS

Os festejos de S. João, enquanto festa solsticial, ocorrem em Portugal e em toda a Europa. No Porto assumiu carácter particular, nem se sabe bem porquê. À tradição imemorial e quase planetária dos festejos solsticiais, associaram-se por razões do calendário cristã, a figura de S. João Baptista. O cronista Fernão Lopes fez o primeiro registo escrito das festas do Porto e escreve que o povo celebrou “no meio de grande animação e entusiasmo desabrido(…) no dia em que os moradores daquela cidade costumam fazer gran festança”. Sabe-se que desde a Idade Média e até muito depois, os habitantes saíam das muralhas e vinham para as hortas fazer arraiais e folguedos. Nos campos e pinhais, as raparigas rolavam na erva humedecida pelo orvalho num ritual propiciador da fecundidade.

ALMADA EM FESTA

Em Junho, Almada sai à rua para festejar o São João. O tiro de partida foi dado no dia 12, com as festas populares de Cacilhas mas o momento mais esperado são as Marchas Populares, já amanhã. Os foliões vestem-se a rigor para participar nos desfiles coloridos que se iniciam às 22h00, na Av. D. Nuno Álvares Pereira, seguindo pela Av. D. Afonso Henriques e terminando na Praça Gil Vicente. As cerca de dez colectividades irão pôr à prova a sua imaginação numa parada a fazer lembrar outros carnavais. O Arraial de São João prolonga-se pela madrugada com “música, animação e petiscos”, uma trilogia que todos os anos anima os almadenses e termina invariavelmente em fogo-de-artifício. Na segunda e terça-feira, a Junta de Freguesia de Almada e o ‘Incrível Almadense’ organizam a procissão de São João Baptista. O “povo leva o santo para a Igreja do Ramalho”, explica o Presidente da ‘Incrível Almadense’, José Luís Tavares.

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