Indemnização a Hulk Hogan num processo judicial financiado por um milionário vingativo acabou com o temido site gawker.
Entre as notícias mais vistas no Gawker está ‘Is This Chelsea Clinton’s Real Father? [É este o verdadeiro pai de Chelsea Clinton?]’, sobre a tese de que o ex-presidente dos EUA Bill Clinton é estéril, e Hillary engravidou do advogado Webb Hubbell. O texto já tem alguns meses, mas voltou a tornar-se popular devido à campanha presidencial dos EUA, que o Gaw-ker já não irá cobrir, pois encerrou na segunda-feira.
Para a morte do site norte– -americano, que desde 2003 seguiu o lema de que ‘os mexericos de hoje são as notícias de amanhã’, em nada contribuiu a compreensível fúria da provável próxima ‘primeira família’ dos EUA, mas sim o sexagenário Terry Gene Bollea, desconhecido quando não se apresenta como Hulk Hogan, ex-estrela dos combates coreografados e televisionados de wrestling.
Bollea ficou 140 milhões de dólares (cerca de 124 milhões de euros) mais rico em março, quando o júri de um tribunal da Florida condenou a Gawker Media, bem como o fundador e presidente Nick Denton, e o jornalista A. J. Daulerio por invasão de privacidade, violação de direitos de personalidade e criação intencional de sofrimento psicológico. Tudo porque o site divulgou um excerto do vídeo em que Hulk Hogan fazia sexo com a mulher de um amigo, que combinou e gravou o encontro.
O inglês Nick Denton, um ex-jornalista do diário económico ‘Finantial Times’, de 50 anos, que transformou um blogue de mexericos sobre as figuras da imprensa nova-iorquina num símbolo do jornalismo nos tempos da Internet, começou por dizer que recorreria da sentença. Mas três meses depois a Gawker Media declarou falência. Sob proteção temporária dos credores, encontrou um comprador na cadeia televisiva de língua espanhola Univision. Mas o site principal, ameaçado por outros processos que podem resultar em indemnizações milionárias, teve sentença de morte do novo proprietário, que pagou 135 milhões de dólares (119,5 milhões de euros) por outros seis sites do grupo, especializados em temas tecnológicos, femininos ou desportivos.
Inimigo milionário
Coube naturalmente a Nick Denton escrever o derradeiro texto do Gawker. Em ‘How Things Work [Como as coisas funcionam]’ não se limitou a fazer o elogio fúnebre do site "que se tornou simplesmente demasiado perigoso" e em que "havia o orgulho de contar histórias que não podiam ser publicadas em nenhum outro lugar". Também apontou o dedo ao homem que considera o responsável pelo seu fim: Peter Thiel, magnata de capital de risco, que em 2007 foi alvo de um artigo que revelou a sua homossexualidade. Disse então que os autores do site "devem ser descritos como terroristas".
"Peter Thiel conseguiu o que poderia ser visto como um ato de vingança mesquinha", escreveu Denton, referindo-se ao facto de o multimilionário ter financiado, entre vários outros, o processo judicial de Hulk Hogan, "dedicando anos a um esquema secreto para punir a empresa-mãe do Gawker e os seus jornalistas".
Mapas para ‘stalkers’
E não faltaram ocasiões em que o site fez à vida privada de políticos, empresários e estrelas aquilo que o TMZ faz a celebridades de Hollywood. Por vezes antecipando-se aos media tradicionais, ao destacar as acusações de violação de Bill Cosby e as complexas relações de Tom Cruise com a Cientologia, mas noutras fazendo justiça ao nome Gawker, que em inglês designa os ‘espreitas’ incapazes de afastar os olhos de um acidente.
Assim sucedeu quando o site lançou uma campanha na Internet para adquirir um vídeo em que o canadiano Rob Ford, presidente da Câmara de Toronto (morto em março, de cancro), fumava crack. Ou quando atualizava todos os dias mapas ‘Gawker Stalker’ com os últimos locais de avistamento de celebridades.
Denton, que chegou a pôr em prática um sistema de pagamento indexado ao número de visualizações dos textos de cada autor, prefere ver o copo meio cheio: "O melhor elogio que alguém podia fazer a quem escrevia no Gawker era a ausência de medo." Assim foi, até ao fim.
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