Em 1980, um tremor de terra arrasou a Ilha Terceira. Morreram 71 pessoas.
O primeiro dia de 1980 trouxe o sol que convidava ao passeio. Na sede dos bombeiros de Angra do Heroísmo, os bombeiros conviviam tranquilamente, após o almoço. Pelas 15h42, o chão da ilha Terceira começou a tremer. "As paredes abanavam, parecia que o quartel vinha todo abaixo a qualquer momento", lembra Humberto Silva, de 74 anos, que era à época bombeiro de primeira categoria. O sismo não terá chegado a durar um minuto, uma eternidade para quem o sentiu.
"O quartel dos bombeiros resistiu, mas quando chegámos à rua percebemos que estava tudo destruído. A nossa prioridade foi saber o que se passava com as nossas famílias", conta Humberto. Estavam todos a salvo e os bombeiros regressaram ao quartel. Nos 21 dias seguintes não conheceram outra cama ou outra cozinha. "Mal tínhamos tempo para dormir ou para comer, andávamos sempre em operações de salvamento ou a remover escombros. E depois o quartel também foi ocupado por muitas famílias desalojadas, foram dias muito difíceis", lembra o bombeiro.
No hospital de Angra, o cenário também não era famoso. "Chegavam feridos a toda a hora e era difícil fazer a triagem. E depois houve um surto de sarampo entre as crianças, tivemos de as isolar numa parte do edifício do liceu, no qual muitas famílias também estavam alojadas." O relato é de Luiz Picanço, que em janeiro de 1980 estava a concluir o estágio de Enfermagem nas Urgências do hospital de Angra. "Estava alojado em casa de um tio quando se deu o sismo. A casa veio abaixo, os meus três primos eram crianças e ficaram presos no quarto, mas ninguém ficou ferido." Quando chegou à rua, os vizinhos gritavam: "Uma mulher tinha ficado soterrada na sua própria casa e tudo tentámos para a retirar dos escombros. Fizemos o que podíamos para a salvar, mas demos com ela já cadáver." Seria o primeiro dos muitos episódios dramáticos a que assistiu.
"Fui a correr para o hospital, sabia que lá fazia falta." Nos dias seguintes, Luiz Picanço teve poucos momentos de descanso. E roía-o a falta de notícias que tinha dos seus pais e irmãos, que deixara na sua ilha, a Graciosa. "Só ao fim de três dias é que consegui falar com eles e saber que estava tudo bem. Era impossível conseguir uma ligação telefónica", conta. A tragédia que matou 51 pessoas na ilha Terceira e deixou em ruínas mais de 60% das habitações da cidade de Angra do Heroísmo deixou marcas profundas em todos os que a viveram.
Para Luiz Picanço, foi também a confirmação de uma vocação que há muito perseguia. "Percebi que era aquilo que queria fazer e tornei-me especialista em situações de emergência." Hoje, aos 56 anos, Luiz Picanço é o comandante dos Bombeiros Voluntários de Angra do Heroísmo.
Victor-Hugo Forjaz sentiu a terra abanar na ilha de São Miguel, 170 quilómetros a oeste do epicentro do sismo, que viria a ser identificado a 35 quilómetros a sudoeste da Terceira. O vulcanólogo coordenava o projeto geotérmico do Governo Regional e era uma das pessoas mais qualificadas para compreender o que se tinha passado. Mas também ele foi surpreendido pela dimensão de um sismo que atingiu a magnitude de 7,2 na escala de Richter (cujo máximo é 10).
"Percebi que tinha havido um abalo para os lados da Terceira, mas só quando, duas horas depois, me ligou um amigo da ilha é que soube da dimensão do sismo", lembra à ‘Domingo’. Aterrou na Terceira nesse mesmo dia e desde logo começou a fazer medições, com os sismógrafos que levou de São Miguel. "Na altura só havia um sismógrafo em São Miguel, dois na Horta e um na Terceira, que ficou inutilizado pelo sismo. Era material obsoleto, mas, com a ajuda das máquinas dos americanos nas Lajes, foi possível começar a ter resultados e a fazer as previsões possíveis." O facto de o tremor de terra ter ocorrido a meio de uma tarde de sol foi para Victor-Hugo Forjaz a maior das sortes.
"Era feriado e as pessoas saíram de casa para passear. Só assim se explica que tenham morrido 71 pessoas. Porque se o sismo tivesse acontecido de noite, quando as pessoas dormiam em casa, teriam morrido quatro mil pessoas. Foi a estimativa que se fez pela análise da quantidade de casas que ruíram", explica o professor catedrático de 74 anos, fundador do Observatório Vulcanológico e Sismológico dos Açores.
"Enterrar os mortos, tratar dos vivos", o velho lema pombalino que norteou a reação ao sismo que arrasou Lisboa em 1755 voltou a ser tomado à letra nos Açores. Poucos dias depois da tragédia, Angra do Heroísmo estava transformada num gigantesco estaleiro. Francisco Maduro-Dias fez parte da equipa do Gabinete de Apoio à Reconstrução Local, organismo criado para apoiar os proprietários no esforço de reconstrução. "Foi um momento único, em que a burocracia foi deixada em segundo plano para dar prioridade à ação. Mas isto não quer dizer que se construía sem regras, dava-se material de construção, mas as obras eram verificadas e os erros corrigidos na hora", conta o historiador, de 56 anos. A casa de Francisco foi uma das que não resistiram.
"Tinha acabado de a restaurar, no dia do sismo estava no Porto, onde ia casar-me. Voltei aos Açores cinco dias depois, já casado, com botas de cavador e 35 kg de comida, porque sabia que ia acampar." Os terceirenses viveram meses entre as casas de familiares, tendas de lona cedidas pelo Exército ou nas partes das casas que resistiram. "Foi feito um grande esforço de preservação. Fazia-se uma inspeção e se houvesse algo a corrigir juntavam-se o arquiteto e o empreiteiro no próprio dia. Tantos esquissos se desenharam em sacos de cimento..." O reconhecimento internacional chegaria três anos depois – em 1983, a Unesco deu a Angra do Heroísmo o estatuto de Património da Humanidade.
Os dados oficiais falam de 20 mortos na ilha de São Jorge e de muitas casas arruinadas na Graciosa. Ferrer Peneque, que presidia à Junta de Freguesia do Topo, a vila mais oriental de São Jorge, lembra de cabeça os sete mortos da sua terra. Ele próprio temeu pela vida das filhas. "Estava no quintal e as minhas filhas, de 5 e 7 anos, brincavam no largo. Quando se deu o sismo elas correram para casa, mas eu consegui agarrá-las. Foi o que as salvou, porque o portão por onde iam entrar ficou soterrado debaixo de uma empena." Menos sorte teve uma vizinha:
"Fugia com a filha quando o arco da porta ruiu. Pusemos as duas numa camioneta de caixa aberta para as levar ao hospital, mas a mãe chegou já cadáver." Ferrer Peneque diz que o sismo não trouxe só coisas más. "As casas foram reconstruídas e ficaram muito melhores. Levaram cimento e ferro, ficaram mais resistentes. Quase ninguém tinha quarto de banho e muitas famílias passaram a ter."
Os meses seguintes obrigaram dezenas de famílias da vila do Topo a viver em condições difíceis. "Havia uma grande casa de uma família emigrada na América que resistiu ao sismo. Deram-nos a chave e ali se alojaram várias famílias. A Cruz Vermelha montou uma cantina. Também eu lá estive cerca de dois meses com a minha mulher e as minhas filhas", lembra à ‘Domingo’ o autarca de 79 anos, talvez o único que ainda não concluiu a reconstrução da casa. "Vi uma fotografia numa revista francesa e decidi que era mesmo aquilo que eu queria. É uma casa grande, de três pisos, ainda só acabei as obras no terceiro andar, onde vivo."
O sismo de 1980 mudou a sociedade terceirense. A tragédia levou à criação de um serviço de Proteção Civil, levou à instalação de uma moderna rede de sismógrafos e promoveu até a mudança social. "Em Angra, quase toda a gente mudou de casa: os do campo vieram para a cidade, os da cidade construíram casas no campo", conta Francisco Maduro-Dias, museólogo do museu local. As memórias perduram, e sismos como o que aconteceu no Nepal fazem os açorianos reviver aqueles dias trágicos.
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