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MICRONOVELA

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‘O Leão da Estrela’ na terceira divisão

Nova versão do clássico da comédia troca o sporting pelos leões de Alcochete. Mas mantém a louca viagem por causa de um jogo.

20 de novembro de 2015 às 14:39

António Silva deu um pontapé na mesa de jantar ao imaginar o golo de Peyroteo no Campo da Constituição, após a bola passar por Jesus Correia, Vasques, Albano e Travassos, os outros quatro ‘violinos’ do Sporting. Assim foi no primeiro ‘O Leão da Estrela’, que estreou em 1947, mas Miguel Guilherme só conta com Divanei na nova versão, que chega a 65 salas de cinema na quinta-feira.

"Só tenho mal a dizer do Divanei. Não consegue marcar", admite o ator de 57 anos à ‘Domingo’, encarnando por momentos o fanático adepto Anastácio, nova ‘herança’ de António Silva, após o Evaristo da nova versão de ‘O Pátio das Cantigas’ – o filme nacional mais visto desde que há estatísticas oficiais, ultrapassando os 600 mil espectadores – e antes do Caetano de ‘A Canção de Lisboa’, prestes a iniciar a rodagem, e que chega no verão de 2016.

A dependência em relação a Divanei, avançado brasileiro (interpretado pelo guineense Welket Bungué) que recupera da pubalgia enquanto trabalha como operador de caixa num minimercado, tem explicação: Leonel Vieira, produtor e realizador do novo ‘O Leão da Estrela’, substituiu a visita do Sporting ao FC Porto por uma deslocação dos Leões de Alcochete ao estádio do Barrancos do Inferno, no Alentejo profundo. Estes clubes fictícios são rivais numa competição nunca nomeada, mas que só poderá ser o Campeonato Nacional de Seniores, terceiro escalão do futebol português.

"Quis que o filme deixasse de ser uma guerra Norte-Sul, entre FC Porto e Sporting. Sou do Norte, vivo em Lisboa, e não é uma dicotomia que, para mim, faça sentido. Não gosto dessas guerras no futebol e não vou trazê-las para o cinema. A primeira decisão ao adaptar o filme foi transformá-los em clubes da Liga dos Últimos", explica Leonel Vieira, de 46 anos, que na semana passada apontou o objetivo mínimo de atrair acima de 200 mil espectadores às salas de cinema, embora espere ir muito mais além com um filme que acredita ter ficado "um grau acima de ‘O Pátio das Cantigas’".

Responsável pela adaptação do clássico da comédia portuguesa, o argumentista Tiago R. Santos, de 39 anos, diz que pretendeu "recuperar o espírito de 1947, quando o futebol era mais bairrista e pessoal". Excluídos foram o FC Porto, Sporting e Benfica, ainda que a academia do clube de Alvalade seja em Alcochete e o Estádio da Luz tenha a alcunha de Inferno, e o protagonista do filme admita, entre risos, que "toda a gente conhece os Leões de Alcochete e o Barrancos do Inferno". Que, por acaso, equipam de verde e de encarnado.

Comédia de enganos

Apesar das diferenças quanto aos clubes, este ‘O Leão da Estrela’ coincide num ponto fulcral com o filme de 1947. Também aqui a viagem de uma família, arrastada pelo fanatismo do pai, é o tiro de partida para uma comédia de enganos. "O mais importante nesta história é como eles mentem. Instalam-se na casa de umas pessoas e fazem-se passar por ricos", diz Leonel Vieira.

Com o automóvel condenado a longa estadia na garagem devido à junção de um volante e de um smartphone nas mãos da sua filha Joana (Sara Matos), Anastácio vai para o Alentejo num táxi conduzido pelo mecânico Miguel (Aldo Lima), apaixonado por Rosa (Dânia Neto), uma sobrinha da família alcochetense que terá de fingir ser a criada. E ainda Clara (Manuela Couto) e Branca (Ana Varela), mulher e filha do protagonista, que alinham no plano de se fazerem convidados no monte alentejano do casal Barata (José Raposo e Alexandra Lencastre), pais de Eduardo (André Nunes), por sua vez amigo no Facebook de Joana, mais conhecida por Jujú.

Entre a loucura que marca o filme, nenhuma vai tão longe quanto a da Rosa de Dânia Neto, transformada em ‘criada cantora’ apesar de ter mais talento a esvaziar garrafas de gin do que a limpar ou cozinhar. "Esta personagem não tem limites em nada do que diz ou do que faz. Não tem filtro", diz a atriz de 32 anos, cuja segunda Rosa – a primeira, em ‘O Pátio das Cantigas’ era de poucas palavras – submete o Miguel de Aldo Lima a uma relação poliamorosa sem que ele saiba o que isso é.

Novidades na família

Com um elenco mais reduzido, ‘O Leão da Estrela’ trouxe vantagens para quem o produziu. "Foi muito mais tranquilo fazer este filme. O outro era como estar no circo, com animais e tudo, no bom sentido", garante Leonel Vieira, que acolheu novos atores no seio da ‘família’ que criara. "Eles já vinham com uma grande alavancagem, o que só foi produtivo para mim", diz Ana Varela, que foi o "contraponto de toda a loucura", enquanto o também estreante André Nunes ainda visitou a rodagem de ‘O Pátio das Cantigas’, deixando-se conquistar pelo guião de ‘O Leão da Estrela’: "Li o texto inteiro com vontade. Cheguei ao fim e fiquei mesmo contente."

"A comédia é sempre bem- -vinda. É como um copo de água quando se tem sede", afirma Aldo Lima, enquanto José Raposo desabafa que "isto de os cómicos e de a comédia serem algo menor nunca fez sentido para mim". Depois de a primeira adaptação ter resultado nas bilheteiras, nas quais ‘O Pátio das Cantigas’ amealhou mais do que o milhão de euros de orçamento, ‘O Leão da Estrela’ está a quatro dias do supremo teste, aguardado com expectativa pelos seus criadores. "Quando vais ver um filme que escreveste, e a sala está cheia, num drama não há reação física, mas numa comédia, se ninguém ri, sabes que fizeste porcaria", reconhece Tiago R. Santos.

Com o arranque de ‘A Canção de Lisboa’ dependente do casting de atores brasileiros, Miguel Guilherme já só pensa na nova versão da "obra-prima da comédia", que encerra a trilogia de que é o principal rosto. "Hoje tenho a certeza de que valeu a pena", diz.

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