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Iva Delgado lança livro de memórias em que recorda episódios da intimidade do 'General sem medo'.
Na Quinta da Cela Velha, propriedade da família perto de São Martinho do
Porto, Alexandre Delgado, neto de Humberto Delgado, descobriu "dossiês e dossiês" de escritos dispersos. Textos cheios de recordações que a filha do ‘General Sem Medo’, Iva, foi registando aqui e ali sem objetivo claro mas com a vontade de que as memórias não se perdessem. Foi o filho quem lhe disse: "Mãe, isto tem de ser publicado!"
"Eram coisas que pensei deixar aos meus filhos. Coisas pessoais que gostava que soubessem sobre o avô", conta Iva, agora que o livro acaba de sair, numa edição da Caminho (Leya). Mesmo a tempo de assinalar os 50 anos da morte de Delgado, a 13 de fevereiro de 1965, numa emboscada em Los Almenes, perto de Olivença, Espanha.
"Estive muito tempo sem reler aqueles textos, mas quando o fiz, gostei do que li", admite a autora, na casa onde vive em Lisboa, na avenida Luís Bívar. Um apartamento grande com cheiro a passado e que pertenceu aos sogros ("Toda a minha vida tenho vivido em casas montadas. Nunca montei casa, nunca desfiz casa", diz, sorrindo).
De uma infância resguardada e confortável – sempre acompanhada por avó, pais, irmãos e criadas –, o livro recorda uma estadia encantada no Canadá e a passagem à adolescência nos Estados Unidos da América, onde Delgado foi adido militar.
Nos EUA, surpreenderam-na as jovens aos gritos, histéricas com Elvis Presley, numa altura em que ela própria só queria estudar. "Nunca fui teenager no sentido de fazer disparates." E um dos episódios mais marcantes de um volume com 200 páginas e muitas fotografias é aquele em que explica como percebeu em que País vivia. "Uma colega, muito boa aluna, teve uma negativa a uma disciplina. Não porque não soubesse a matéria, mas apenas porque se tinha recusado a frequentar as aulas de Moral", recorda.
"Fiquei estarrecida com a injustiça, mas ela já o esperava. Tinha a experiência do que é viver numa casa onde se é oposição. Disse-me para não me preocupar, que as coisas eram mesmo assim. Foi quando percebi que alguma coisa estava errada."
HOMEM DO REGIME
Protagonista do golpe militar de 28 de maio de 1926 – que derrubou a República Parlamentar e implantou a Ditadura Militar que viria a dar lugar, em 1933, ao Estado Novo liderado por Salazar – Humberto Delgado foi um homem do regime. Até deixar de o ser. A filha Iva diz que não houve um momento que tenha assinalado a rutura, mas que a separação "foi acontecendo".
"Eu ouvia as conversas que o meu pai tinha lá em casa com a minha mãe. Ele achava que o Salazar era um bota de elástico, que não percebia que o Mundo estava a mudar. Na verdade, eram pessoas muito diferentes: Salazar era um homem de gabinete, um homem de estudo; o meu pai era um homem da tecnologia, prático e viajado. Era o mundo velho contra o mundo novo", explica.
Ainda assim, quando Humberto Delgado foi anunciado como candidato da oposição democrática às eleições presidenciais de 1958 – em despique com o candidato da União Nacional, Américo Tomás – Iva apanhou um susto. Ela, que tinha 17 anos quando o pai disse que "obviamente" demitiria Salazar caso fosse eleito, ficou boquiaberta.
"Como era possível? Passar de oficial a candidato a Presidente da República? Inicialmente pareceu-me um divertimento. E achei que ele ia ganhar. Havia uma dinâmica de vitória. O meu pai atraía multidões e todos percebemos que o povo queria uma mudança. O Salazar também percebeu. E comecei logo a ser perseguida pela PIDE. Deu-se uma grande reviravolta na minha vida."
"LIVRO TERNURENTO"
‘Meu Pai, o General sem Medo’ foi considerado por Marcelo Rebelo de Sousa como "um livro ternurento", adjetivo que muito agradou à autora, que neste trabalho não se assume como historiadora para se concentrar no lado íntimo de um homem em quem nos habituámos a ver um dos grandes adversários de Salazar. Um homem que conduzia a vida doméstica com o mesmo rigor que punha na vida pública.
"Ele empenhava-se profundamente na organização da casa e gostava muito da ordem e da higiene. Um dia achou que estávamos gordos demais e impôs-nos uma dieta de leite e banana. Quando virou costas, fomos lambuzarmo-nos com doce de morango mas fomos apanhados. Riu-se imenso e acabou por comer connosco", recorda Iva, que, com o exílio do pai retomou a "vida normal", casou e teve quatro filhos. "Voltei para a minha capelinha. Percebi – percebemos todos – que o Salazar era um homem a ter em conta. E que para sair do poder tinha de ser tirado à força."
Iva Delgado não se considera uma mulher de ação política. Licenciada em Filosofia, depois da morte do pai dedicou-se à conservação do espólio do pai e à preservação da sua memória. Recusa ser "mera espectadora da História". Daí continuar a escrever e a intervir. "O Mundo está a mexer e nós temos de avançar com ele. Quem não percebe isso enterra-se e mais tarde ou mais cedo sai de cena."
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