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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

"O Miguel e o Paulo eram almas gémeas"

Helena Sacadura Cabral tem livro novo e assume-o como uma “peregrinação interior”.

24 de maio de 2015 às 13:30

A autora diz que não pretende dar lições de moral a ninguém mas também não se preocupa que queiram lê-la dessa forma. Consciente da sua popularidade junto de jovens e menos jovens, diz que prefere "ser entendida pelas pessoas que sabem menos do que pelas que sabem mais".

No livro ‘Erros Meus, Má Fortuna, Amor Sempre?’ [Clube do Autor] diz que a sua vida começou aos 50...

Sim. Tornei-me uma mulher livre, física e animicamente, a partir dos 48, 50 anos, quando decidi uma série de coisas. Conversei com os meus filhos e comuniquei-lhes as minhas decisões, para que soubessem com o que teriam de contar no futuro.

Importa-se de especificar?

Primeiro, que estavam criados e que eu não teria mais nada que ver com a vida deles. A não ser em caso de doença, como sobreveio com o Miguel, e que é algo que não se espera. Normal é mãe e pai morrerem primeiro.

Não teria nada a ver com a vida pessoal ou profissional deles?

Com ambas. Estabeleci regras. O Miguel era namoradeiro e eu já não conseguia estar atualizada com os sentimentos dele [risos]. Em termos profissionais, na minha vida eles não entrariam, na deles eu não entraria. E assim é. Não me veem numa tomada de posse. Venha o primeiro jornalista que me tenha podido tirar uma fotografia que não seja num lugar público.

Diz que os seus filhos, Miguel e Paulo Portas, são almas gémeas...

Gostavam das mesmas coisas. Livros, música, cinema... Às vezes por motivos diferentes mas as respetivas opiniões completavam-se, havia um enriquecimento mútuo.

Revela, por exemplo, que o Paulo Portas dividiu o salário do jornal ‘Independente’ com o Miguel, em segredo, para que este fosse fazer uma reportagem a Berlim, aquando da queda do Muro...

Não conheço irmãos que gostassem tanto um do outro. Se houvesse um amorómetro eles teriam rebentado com a escala. Aliás, se me perguntarem se houve alguma coisa que eu fiz bem, e de que me orgulho, é dos meus filhos. Metade trabalho meu, metade genético, claro. O Paulo é muito parecido com o pai [o arquitecto Nuno Portas]. O Miguel saía a mim, sobretudo nos defeitos, confesso.

É verdade que o seu pai não queria que fosse para a Universidade?

Foi pai aos 40 e tal anos. A minha mãe tinha metade da idade dele quando se casaram e era um homem muito conservador. O cabelo curto numa mulher era... um escândalo! A ideia do meu pai era que eu terminasse o liceu e me casasse. Devia ter alguém em mente... E a verdade é que se eu tivesse seguido os planos dele hoje seria uma viúva rica e teria terras acima do Tejo [risos]. Daquelas que não se dividem nem se contestam. Mas ele conhecia-me bem. Quando meto uma coisa na cabeça…

É teimosa?

Só abandono qualquer coisa se tiver a certeza que perco. E até estar convencida que perco, acho sempre que ganho.

Portanto, foi para a faculdade contra a vontade do pai?

O meu pai disse-me: eu alimento-te, eu visto-te, mas os estudos pagas tu. E assim foi. E ainda bem. Aprendi que o trabalho não faz mal a ninguém. Os meus filhos começaram os dois a trabalhar muito cedo, para pagar as suas contas. Os interrails... O Paulo começou a ser jornalista no ‘Tempo’, do Nuno Rocha, quando tinha 15 anos. Ainda não tinha feito os 16. Tem descontos para a Segurança Social desde 1980. O Miguel, em contrapartida, não se preocupava nada com isso, portanto eu tive de criar uma empresa para ele ter um número fiscal.

Muitos leitores ficarão surpreendidos com a sinceridade com que assume um divórcio doloroso.

Agora dá-me bastante vontade de rir. Na altura não percebi uma coisa que devia ter percebido: houve um engano mútuo sobre as pessoas que nós éramos. O Nuno é alguém a quem devo muito e se voltasse atrás voltava a casar com ele. Mas quando descobrimos que não somos a pessoa que o outro pensa, nem o outro é a pessoa que pensamos… Não vale a pena.

Assume também neste livro ter feito psicanálise na sequência do divórcio?

Fiz análise durante cinco anos. Quando comecei tinha uma ideia muito concreta sobre o que queria fazer e que tinha a ver com o meu relacionamento com o meu pai. É a partir daí que percebemos o nosso comportamento face aos homens que vão estar nas nossas vidas.

A que conclusão chegou?

Deixei de dar a importância que dava aos homens. Deixei de querer agradar. Por norma, nas relações amorosas, há um período de encantamento em que as pessoas querem malear-se à vontade do outro. Deixei de o fazer.

A psicanálise é algo que recomenda?

A análise é um processo. Não posso dizer que a análise é boa ou má. Tal como não posso dizer que determinado tipo de sexo é bom ou mau. Os kamasutras existem para quem quiser praticar, eu é que não quero partir a espinha. Para mim, foi uma necessidade. Queria alguém que me ajudasse a perceber o que eu precisava de perceber.

Que outras decisões tomou aos 50 anos?

Decidi que a minha segunda carreira profissional seria escrever. Não deixei de ser economista e gosto muito de o ser. Mas decidi que iria escrever.

Mas diz que não se considera escritora?

Não me considero escritora, mas uma razoável cronista. Tenho um olhar sobre a sociedade que me rodeia. E embora tenha tido uma educação conservadora, não o sou, porque me rebelei contra tudo o que considerava um espartilho.

E aos 80 anos, não acha que é altura de parar e descansar?

Mas porque é que eu trabalho? Trabalho porque quero manter o meu nível de vida. A minha reforma do Banco de Portugal não me permite mantê-lo. Não tenho grandes luxos, mas vivo numa casa própria, que tem de ser mantida. E há uma coisa que decidi: é que nunca dependeria financeiramente de alguém que não fosse de mim própria. Aliás, retive isto dos meus pais. A minha mãe disse-me: Nunca dependas de um homem! E o meu pai disse-me: Nunca te envergonhes de nada do que faças! Não te importes com o que os outros pensam. Se tu não te envergonhares do que fizeste, podes dormir tranquila. Estas duas linhas de orientação têm norteado a minha vida.

Nesta sua última obra descreve a política como o karma da sua vida.

É uma área que me é completamente adversa e com a qual tenho tido de conviver nos últimos 50 anos. Por exemplo, o Miguel fazia anos no dia 1 de maio e eu não consegui evitar que passasse os aniversários em manifestações. Como não tenho vocação para o martírio, deixei de me preocupar com isso...

Nunca passou um aniversário com o Miguel?

Nunca, a partir dos 12 anos dele. O primeiro ano que celebrei o aniversário do meu filho Miguel foi quando ele decidiu, aos 50 anos, fazer uma festa num restaurante e juntar toda a gente que tinha sido importante para ele. Família, amigos… Estavam lá os revolucionários todos e para ser sincera achei uma certa graça àquilo.

Foi a esquerda que a aliciou a ir para a política. Nunca a direita?

É verdade. Já quando estava na faculdade, foi o MUD (Movimento de Unidade Democrática) que me tentou aliciar. Mas escolhi a Juventude Católica. Não sei. Acho que a esquerda deve achar que eu não me calo. Estou mesmo convencida – e agora com muita falta de vergonha – de que se fosse política fazia muito melhor figura do que muitos que lá estão. Não tenho o exclusivo da verdade, mas gosto de dialogar. O Miguel chegou a dizer que eu era a mulher de direita mais de esquerda que ele conhecia. Contesto que seja de direita. Mas ele, quando o confrontei, disse: "O que é que queria que eu dissesse? Que era uma mulher de esquerda mais de esquerda que eu conheço? Não fazia sentido!"

Não votou neste governo?

Não votei.

Que apreciação faz da atuação deste Governo?

Há coisas que sei que dificilmente poderiam ter sido feitas de outra forma. Sou economista, portanto posso avaliar. Mas não aprecio alguns dos caminhos escolhidos. Acho que havia caminhos alternativos que prejudicariam menos aqueles que menos têm.

Quer especificar?

Estamos à beira de eleições. O que quer que eu diga pode ser entendido como eleitoralista. Escrevi contra o novo imposto que o António Costa criou na Câmara e disseram logo que eu estava em campanha. Ora eu só faço campanhas contra a injustiça.

Telefona ao filho Paulo Portas a reclamar das medidas?

Era o que faltava. Mas se estamos a conversar, mãe e filho, tenho uma forma indireta de lhe dizer coisas. Do género: Olha, o apartamento que um dia será teu, tem nova taxa! Ponho a pedra a rolar...

Ficámos a saber que recebe propostas digitais de amor…

De homens e de mulheres. Só me faltava esta. Já mudei de foto, para que vejam bem a minha idade. Não faço segredo sobre isso, não faço plásticas! Também não são propostas escabrosas… Mandam florinhas, músicas… Já fiz um post a dizer que não tenho idade para estas coisas. Estou noutra. Tenho umas amigas que continuam a achar que vão encontrar o amor verdadeiro. Ora se não o encontraram até aos 70 anos… Acho que é um caminho arriscado. É uma pena, não ter noção do ridículo. Usar cabelo comprido e saias curtas a mostrar os joelhos. Pelas almas do Purgatório! O que uma mulher de 70 anos tem de melhor não é ser coquete…

O que é que uma mulher de 70 anos tem de melhor?

Aos 70 anos, uma mulher deve desenvolver mais o que está dentro do que o que está fora. Pensar bem nos anos que lhe faltam viver e concentrar-se nisso. O que me ocupa a mim é procurar ser melhor hoje do que fui ontem, e procurar ser melhor amanhã do que sou hoje.

A quem destina este livro? Conhece o perfil dos seus leitores?

Tenho jovens dos 18 anos até velhinhas como eu. Nunca percebi isso e acho até bastante estranho. Talvez 60 por cento do meu público seja jovem e 40 por cento se situe entre os 50 e os 70 anos. Acho que sou boa comunicadora. Escrevo como falo. Posso ser lida por todas as classes: pelo João Duque e pela minha empregada doméstica. E, talvez por isso mesmo, o meu público seja transversal do ponto de vista social e intelectual. Tenho aliás grande indiferença sobre a intelectualidade portuguesa: não quero saber o que pensam sobre aquilo que escrevo. É-me indiferente.

Admite que gostaria de representar? Teatro ou cinema?

Adorava fazer cinema. Desde pequenina que tenho propensão para a representação. Entrava em tudo o que era espetáculo, embora não cantasse porque desafinava.

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