Às instituições e às ruas de Lisboa chegam cada vez mais pessoas qualificadas, a quem o desemprego obriga a viver de apoio alheio
Aguinaldo e João Viana vivem nas ruas de Lisboa, onde encontraram refúgio depois do desemprego lhes ter tocado à porta. O primeiro, 59 anos, ainda se orgulha dos tempos em que era mestre "a manejar o pneumático", mantém conta aberta no banco e recebe o fundo de desemprego, que durará mais uns meses.
Os cerca de 400 euros – "que nunca são os mesmos, de mês a mês cada vez é mais baixo" – e a solidão não chegam para se organizar. Espera dias a fio por um trabalho "nas obras" que tarda em chegar. Enquanto isso, dorme na soleira de um prédio, alimenta-se nas cantinas sociais e obriga-se a apreciar o passeio diário a pé entre Arroios e Alcântara, onde visita diariamente os balneários públicos: "Quando não chove, até gosto, vou andando, devagarinho, pela cidade. Mantenho-me ocupado."
João, 49 anos, já perdeu a vergonha. Pede de mão estendida na rua Augusta e garante que as esmolas somadas aos 158,56 euros de rendimento mínimo ajudam a levantar a cabeça. Diz que já viveu bem, nos tempos em que os salários na indústria hoteleira e na construção civil lhe permitiam arrendar casa. Desses dias ficou-lhe o gosto de sentir que era dono si próprio.
"Vivo aqui, durmo na entrada da sapataria, como e bebo como qualquer pessoa, num café… Não vou aos sítios onde ajudam porque não gosto daquele ambiente. Eu cá me arranjo. Respondo a anúncios, são é cada vez menos", diz de olhos fixos no chão. "Não gosto de pedir, mas o que consigo aqui dá para comer alguma coisa melhor. Compro a minha roupa na feira da Ladra, por 50 cêntimos, um euro, depois uso e deito fora. Às vezes consigo juntar dinheiro. Paguei a viagem de comboio para ir passar o Natal e o Ano Novo com a minha prima, em Espinho. Ela ajuda-me."
João e Aguinaldo são casos extremos. Mas escancarada, visível aos olhos de todos, a nova onda de pobreza que aflige o País não se alastrou mais graças aos apoios de voluntários e instituições de solidariedade. As ajudas são sempre bem-vindas, apesar de não chegarem a todos.
CADA VEZ MAIS NOVOS
"Há mais pessoas a pedirem ajuda e pessoas que não faziam parte desse grupo. Têm emprego, conhecimento técnico, especializado, partilham as redes sociais e as novas tecnologias. Mas perderam o emprego", frisa Carlos Andrade, vice-presidente da União das Misericórdias Portuguesas (UMP).
Também Ana Martins, diretora da Ação Social da AMI (Assistência Médica Internacional), nota que o perfil de quem recorre aos serviços sociais sofreu alterações. "Registou-se uma subida nas crianças e jovens que nos procuram" e essa situação "pode estar relacionada com o empobrecimento das famílias com filhos, que numa fase anterior poderiam ser consideradas ‘classe média’, que viviam de empregos precários, de subsídios de desemprego que entretanto acabaram. Um grande número de pessoas recorre à AMI com situações habitacionais precárias, ordens de despejo, rendas em atraso e cortes de luz, água e gás."
"Hoje, pobreza não quer dizer desconhecimento nem desqualificação", frisa Carlos Andrade. "E há uma única causa verdadeira para esta situação. Começa sempre pela perda de emprego. Os chamados novos pobres só o são porque caíram no desemprego. Não o são por inabilitação ou vontade própria. Não conseguiram foi arranjar uma solução."
BATER NO FUNDO
No Centro Paroquial e Social de Arroios, a chamada de atenção chegou logo em 2008. "Alargámos o apoio que dávamos a idosos a outras camadas da população. Apoiamos através do Banco Alimentar e temos a cantina. É um programa de emergência", diz Ana Filipa Belchior, assistente social, frisando que "o gabinete de apoio ao emprego e as equipas de rua fazem o encaminhamento das pessoas para as tirar dessa situação. A nossa intenção é encaminhar".
Foi ali que Carlos Gil, 42 anos, solteiro, sem filhos, sem pais, encontrou a âncora. Quando em 2005 perdeu o emprego numa das fábricas da Autoeuropa, deixou de "poder cumprir os pagamentos" e ficou sem a casa que comprara com esforço em Alhos Vedros. Meteu mãos à luta. Foi para Inglaterra, trabalhou dois anos numa empresa de carnes e enchidos, "ganhava mais do que cá", mas "uma situação de lay-off", sem direito a pagamentos, trouxe-o de volta a Portugal. "Estou a receber ajuda da Santa Casa da Misericórdia, que me paga um quarto alugado, e do Banco Alimentar. Também vou à cantina social". Carlos Gil teve problemas de aprendizagem na escola, mas hoje não desiste. Faz cursos de formação, estuda inglês e não pára de enviar currículos. "Vejo na internet mais ofertas para Inglaterra e tento voltar. Aqui está difícil. Agora, nem sequer me chamam para entrevistas."
Luísa M., 58 anos, fluente em inglês, francês e espanhol e frequência de licenciatura em Direito, ainda consegue sorrir ao relatar o dia em que foi pedir ajuda ao Centro Paroquial de Arroios. Admite que perdeu o norte após a morte dos pais. "Estava habituada a fazer o que queria" e contava com eles para os gastos que sobravam ao que o ordenado de contabilista permitia. Num repente, o despedimento sem direito a fundo de desemprego por ter trabalhado anos a fio a recibos verdes foi a linha que desatou a meada.
"Saí de uma vivenda em Alcabideche para um quarto alugado, mas não é por aí. Adapto-me e só sinto falta dos cães", diz. Desde há cinco anos mantém a custo o emprego, num call center. "Ninguém imagina. Quem não vende é mandado embora e somos obrigados a convencer pessoas que por vezes têm menos do que nós", frisa.
Os 800 euros que recebia há quatro anos passaram para metade com o agravar da crise. A baixa psicológica e o atraso nos pagamentos da Segurança Social causaram aflição. Luísa tem a braços 120 euros do pagamento do quarto onde vive, 400 de uma casa que comprou com uma inquilina idosa lá dentro, e mais 200 de uma dívida que acumulou enquanto fiadora. "Tudo somado, não chega. Tenho as contas em atraso e tive de pedir ajuda. Venho à cantina social e, para ser sincera, não me custa, a comida é boa. Aqui somos todos iguais, somos pessoas."
São essas pessoas que se encontram pelas ruas de Lisboa. Nas rondas noturnas pela cidade, os 600 voluntários da Comunidade Vida e Paz acodem a um grupo cada vez mais diferenciado. Na praça de Londres, conhecida pelo bem-estar financeiro de quem a frequentava, a chegada da carrinha é quase um encontro social. Distingue-se um casal de idade, discreto, que pega no saco e vai sem palavras, e um homem novo, bem vestido. Destoam ali.
A custo, João Silva, economista, 41 anos, separado e pai de dois filhos, conta que num mês ficou sem nada. "Tinha uma empresa, fazia auditoria a farmacêuticas, correu mal e o caso está em tribunal. Vivo num quarto alugado, pago pela minha irmã." Diz de si próprio que "nasceu em berço de ouro" e que os "problemas de alcoolismo" o afastam da família. Recorre ao apoio das carrinhas pois o orgulho mantém-no longe das cantinas sociais. Janta uma sandes e um copo de leite, "é melhor do que nada!".
BERTA ESTEVE SEIS MESES COM SALÁRIOS EM ATRASO
A vida de Berta Nogueira, 39 anos, separada e mãe de três filhos, descarrilou por causa de seis meses com salários em atraso. Neste momento, a consultora comercial recebe "460 euros de subsídio de desemprego. Dura mais seis meses, depois não sei".
Foi um e-mail enviado a uma instituição que a levou ao Centro Social e Paroquial de Arroios. "Venho à cantina social e levo comida para casa. Tinha uma vida normal, ganhava 800 euros. Tenho a sorte de ter a casa paga, mas quando estive sem ordenado acumulei dívidas. Os meus pais ajudam-me e agora estou mais estável, mas aqueles seis meses foram muito difíceis. Ainda assim, tenho de reconhecer que só damos valor às situações quando passamos por elas", diz Berta.
NOTAS
AMI
Em 2012, a AMI serviu refeições a 2300 pessoas. O serviço de distribuição alimentar apoiou 10 500.
APOIOS
O Centro Paroquial e Social de Arroios apoia 75 agregados familiares e serve 80 refeições na cantina.
TAXA
Em finais de 2012, a taxa de desemprego em Portugal era de 16,3%, a terceira maior dos países da OCDE.
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