Espaços mais populares da internet sofrem acusações, ofensas, perseguições e ameaças anónimas
'Crónicas das horas perdidas’ nasceu em 2005 na blogosfera e servia essencialmente para Ana Luísa Silva, ou Luna – como assina no blogue –, "passar o tempo, numa altura em que estava desempregada".
Aquilo que era para ser um escape tornou-se pouco depois num suplício para o qual não estava preparada. "Criei o blogue numa altura em que a minha mãe estava em fase terminal, tendo morrido meses depois. Os comentários que mais me chocaram gozavam com a morte da minha mãe. Foi aí que percebi que as pessoas são capazes de dizer as maiores barbaridades ao abrigo do anonimato", comenta a estudante de doutoramento, de 32 anos.
Ana, ou Luna, não é caso único, nem únicas foram as ‘investidas’ anónimas que sofreu. "Já perdi a conta aos ‘hate blogs’ (blogues de ódio) onde fui atacada. Chegaram a fazer afirmações difamatórias, inclusive acusação de crimes públicos, relativamente aos meus pais, com o objectivo (cruel e concreto) de me magoar".
O fenómeno da blogosfera (espaços na internet onde todos e cada um podem escrever livremente) foi lançado em Portugal em 2003, através de servidores nacionais, seis anos depois da invenção do conceito. Em 2005, fenómeno na internet lusa estava no auge – quase 100 blogues eram criados todos os dias por internautas portugueses. Tornaram-se um hábito de leitura diária para muitos e – o reverso da medalha – catalizadores de ataques pessoais aos seus autores.
"A partir do momento em que um blogue passa a ter maior visibilidade, torna-se automaticamente alvo preferencial dos ‘hate blogs’, o que revela oportunismo de quem os alimenta. No fundo, é conseguir protagonismo à custa de falar mal dos outros", comenta o autor que assina o ‘Macho Sensível’ na blogosfera. "Já me aconteceu receber comentários de pessoas que diziam conhecer-me e com base nisso inventaram mentiras sobre mim, coisas que não correspondem minimamente à verdade."
Um dos casos "sucedeu com uma pessoa que conheci através da blogosfera e que, por vingança, resolveu revelar pormenores da minha vida privada que lhe tinha confiado mas de forma enviesada e fazendo crer que eu era o mau da fita. Estou em crer" – continua – "que um dos motivos de ser um dos visados nos ‘hate blogs’ poderá estar relacionado com o género de temas que abordo, concretamente o amor e as relações, dos quais muitas pessoas guardam mágoas. Eu, apesar de ter passado por uma desilusão amorosa, continuo a afirmar no blogue que não deixei de acreditar no amor. Parecendo que não, isso incomoda muita gente...", diz o autor, profissional na área da economia e na casa dos 30 anos.
JULGAMENTOS DE VALOR
O fenómeno não é um exclusivo nacional. Cá dentro e lá fora, uma mesma característica: os blogues de ódio aparecem e desaparecem à velocidade da luz, poucos resistem mais do que meses. Uma blogger americana compara mesmo os ‘hate blogs’ ao bullying. ‘Acusaram-me de ter cometido crimes federais, de ter abusado de menores, de ser até uma raptora’, comenta Cassandra C. no seu espaço na internet.
À portuguesa Raquel M., autora do ‘Perturbações de Amor’, o que mais a marcou foram "os julgamentos ferozes acerca da minha vida amorosa e financeira. Acusaram-me de estar com uma pessoa por interesse. Houve uma altura em que todos os dias acordava e pensava: ‘O que irão inventar hoje?’". Mas o blogue foi criado para ser um espaço de partilha – sobre moda, viagens, animais, vida amorosa e profissional –, e é isso que a faz continuar a mantê-lo on-line.
DESEJAR A MORTE
‘Me’, autora do blogue ‘Eu, tu e os meus sapatos’, gestora de profissão na vida real, tem sido outro dos grandes alvos dos comentários ofensivos e difamatórios. "Criei o blogue em 2009 e, apesar de muitas vezes tratar de temas mais fúteis, o espaço nasceu com o objectivo de desabafar sobre a situação da minha irmã, que estava doente. Nunca foi ameaçada a minha integridade física, mas magoou-me muito utilizarem a morte da minha irmã para me atingirem. Compararem a morte dela à morte de Saddam Hussein e Hitler foi das coisas mais terríveis que li." ‘Me’ ponderou várias vezes fechar o blogue, mas as amizades que lhe trouxe e a partilha inerente fizeram-na recuar no propósito.
Quando o blogue ‘As minhas pequenas coisas’ atingiu as 3000 visitas por dia, em 2011, "começou o achincalhamento público. Na altura, fiquei afectada, mas depois percebi que não tinha feito nada de errado, que aquilo é coisa de pessoas que estão doentes da cabeça", conta a autora, ‘S’. "Quem me perseguia não implicava só com a blogger. Passou a implicar comigo enquanto pessoa real, a cuscar toda a minha vida, a procurar encontrar aquilo que julgava serem segredos meus. Chocou-me quando divulgaram o meu nome real e o meu local de trabalho. Orgulho-me do que escrevo, mas parece-me lógico que os leitores não misturem o Eu na blogosfera com o Eu real. Não admito servir de saco de pancada para ninguém", partilha a autora, de 24 anos, ligada à área da comunicação.
"Também publicaram fotografias minhas (coisa que nunca publiquei no blogue), informações sobre o meu namorado, metendo até ao barulho a minha família. Sinto pena por saber que há gente tão frustrada com a sua vida ao ponto de tentar viver a minha. Tanto quanto sei, já houve quatro ‘hate blogs’ a escreverem sobre mim. Já me disseram que queriam que eu fosse despedida, mas o mais macabro foi escreverem que desejavam que eu morresse."
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