Com modelos mais ou menos renovados, são cada vez mais as escolas que optam pelo uniforme. Os pais agradecem
Em Portugal, quase uma centena de escolas, entre colégios privados e IPSS, adotaram o uniforme escolar e a "tendência é para aumentar", garantem os distribuidores. O uniforme, dizem, aumenta o orgulho de pertencer a uma comunidade escolar e reforça os laços de união e de identidade. Mostra aos alunos que a frequência da escola obedece a normas próprias e exige o cumprimento de obrigações. Além disso, é mais "prático e sai mais barato", garantem os pais que, nestas coisas têm sempre a última palavra a dar.
Isso mesmo sentiu Margarida Garcia dos Santos, presidente da Associação Europeia das Escolas de Educação Diferenciada, mãe de quatro filhos, entre os quais duas adolescentes que frequentam atualmente o colégio Mira Rio, no Restelo, onde o uso de farda é obrigatório. "Ajuda a focar os alunos na aprendizagem e não nas modas, estilos e marcas de vestuário. Escusam de estar a pensar no que é que vão vestir nesse dia. É mais rápido e mais económico. Os uniformes duram e poupa-se em roupa".
A adolescência é, por excelência, a fase mais problemática o que toca às fardas. "Ainda este ano tivemos uma divergência quanto ao comprimento da saia, que elas queriam mais curta do que ditam as normas", ri-se. Mas é também justo dizer que as fardas colhem grande apreço entre os alunos. É assim para Ana Muller, 16 anos, aluna do 11º ano do Colégio Mira Rio. "Gosto muito e dá-me jeito porque me poupa tempo a despachar-me de manhã". Não concorda que o uniforme lhe roube a liberdade de expressão: "essa está sempre lá e até pode manifestar-se no aspeto estético. O cabelo, por exemplo". Ana acha "piada" quando vê a indústria do entretenimento inspirar-se em uniformes para vender produtos para as massas, como é o caso dos filmes da saga ‘Harry Potter’ ou os desenhos animados japoneses. Cláudia Muller, a mãe, também agradece a opção do colégio, até porque tem outros quatro filhos e os uniformes simplificam a questão da roupa. "Todos sabem o que vão vestir no dia seguinte!"
Margarida Morales, mãe de Bruno Morales, acha que os uniformes são mais "seguros", porque anulam "as diferenças, os grupos e as rivalidades que às vezes só trazem confusão para as escolas". Além disso, parecem mais "arrumadinhos e asseados". Bruno, 17 anos, um dos filhos que traja uniforme concorda: "é confortável e não nos distingue em termos sociais, não permite diferenciar o mais rico do mais pobre".
Pelo facto de o uniforme esbater as diferenças económicas, Maria do Carmo Ribeiro, diretora da Casa dos Pastorinhos de Fátima, uma creche e jardim infantil IPSS em Santos-o-Velho, implementou os calções azuis escuros, a t-shirt com o logótipo da instituição e o casaco de fato de treino como norma obrigatória. "Sendo uma IPSS, com crianças de todos os estratos sociais, optamos pelo uniforme, para que as diferenças não entrem na escola. Mas curiosamente é entre os pais mais carenciados que há mais dificuldade em aceitar esta opção", comenta. Francisco, um pequeno do jardim infantil da rua das Janelas Verdes com quatro anos também dá a sua opinião perentória: "Eu gosto. Parece que somos uma equipa de futebol", diz enquanto levanta os braços como se tivesse acabado de marcar um golo.
NORMAS NA ESCOLA PÚBLICA
"Em Portugal, a questão do uniforme em escolas públicas não se coloca, até porque não há tradição", refere Adalmiro Fonseca, presidente da Associação Nacional de Diretores de Agrupamentos de Escolas Públicas. No entanto, há casos como o do Liceu Dona Filipa de Lencastre que sugerem a adoção de uma t-shirt com o nome e símbolo da escola e os calções padronizados para a prática de Educação Física, "até porque isso permite-lhes representar a escola em jogos", segundo fonte da escola de Lisboa.
Adalmiro Fonseca frisa, no entanto, que impor normas no vestuário, como aconteceu recentemente na Escola de Valadares, é algo "que tende a ser cada vez mais adotado pelas escolas". Segundo o regulamento interno da escola de Valadares, "o aluno deve apresentar-se asseado, sem ter à vista roupa interior, decotes excessivos, calças descidas ou saias demasiado curtas". Outras escolas impõem também um código de vestuário, como os agrupamentos S. Vicente/Telheiras (Lisboa) e Corga de Lobão (S. M. Feira) e secundárias Afonso III (Faro) e António Sérgio (Gaia).
Na sua atividade de docente, Adalmiro Fonseca já se sentiu "à vontade para chamar a atenção de aluno ou aluna sobre a maneira como se apresentaram na escola", mas frisa que os excessos se devem mais "à permissividade dos pais do que dos próprios jovens". Em sua opinião, o uniforme escolar não evita que se notem as diferenças sociais. "Mesmo com farda, os jovens distinguem-se pelas marcas das sapatilhas ou dos relógios". E lembra a sua experiência enquanto docente no colégio dos Carvalhos, Porto, onde ainda lecionou a alunos com farda nos anos quentes do pós-revolução de 1974. "Usavam uma bata cinzenta, com gola branca, e naquela altura toda a gente começou a ter dinheiro, mas mesmo com a farda distinguiam-se os que tinham mais cultura".
Ana Carvalho é uma das três sócias da D’Util Child e acredita que o negócio dos uniformes escolares "ainda vai crescer em Portugal". A marca existe desde 2003 e fornece vários estabelecimentos de ensino em Cascais, Lisboa e Setúbal, como o St. Julian’s, as Salesianas, a Creche Internacional de Cascais, o externato Mãe de Deus, o infantário da Junta de Freguesia dos Anjos ou a Academia de Música Luísa Tody. "O que se nota", explica, "é que as escolas estão a tentar adaptar-se, a reduzir peças do uniforme, nomeadamente a deixar a parte de baixo em escolha livre".
Os famosos blazers, peças tradicionais dos uniformes britânicos, quase foram abolidos das fardas portuguesas "pois os pais não querem pagar uma peça que só usam uma ou duas vezes por ano". Um uniforme completo pode custar cerca de 150 euros por conjunto, o que pode ascender aos 400 quando se compra mais do que uma peça de cada. Para responder aos pedidos das famílias, a D’Util Child aposta nos packs, nomeadamente nos polos, que têm vindo a substituir as camisas .
Onde Ana Carvalho nota alguma resistência é nas Associações de Pais, mais do que da parte dos próprios estudantes. "Normalmente", adianta, "é mais fácil implementar o uniforme nas escolas em crianças mais pequenas, até ao 4º ano do Ensino Básico". É o caso dos Salesianos do Estoril e do Externato Maristas, em Lisboa.
Ainda assim, os uniformes escolares mantêm alguma tradição. A gravata ainda é obrigatória em determinadas escolas. As cores mais procuradas são as de sempre: "azul, escuro, verde e bordeaux para as peças superiores, azul e cinza nas saias e calças".
O Corte Inglés, em Lisboa, trabalha com mais de 70 instituições de ensino. Ali há batas que não ultrapassam os 25 euros, mas o mais complexo de todos, do Instituto de Odivelas, composto por blazer, saia/calção, casaco, camisa, chapéu, casaco de malha, cinto, meias e collants, sapatos e equipamento de desporto, ultrapassa os 500 euros. Também por ali se sente a simplificação: "tanto no número de peças que compõem os uniformes como na sua complexidade. Por exemplo, passando a não diferenciar ciclos ou géneros ou uniformes de verão e de inverno", afirma um porta-voz da superfície. Ainda assim, a procura aumenta e a razão tem a ver com velhos constrangimentos que agora estão de regresso: "o uniforme ajuda a construir uma cultura própria da escola e suprime as diferenciações criadas com base nas marcas".
ESTILO MANGA INSPIRA UNIFORMES DOS JOVENS JAPONESES
Presentes há mais de cem anos no Japão, os uniformes escolares tornaram-se ícones de moda e revelam uma geração inspirada na ‘manga’, a famosa animação japonesa. Adaptadas pelos jovens das zonas exclusivas de Tóquio e Osaka, as fardas revelam o poder dos mais jovens, que às camisas de tradição marinheira e blazers de corte escocês, acrescentam toques originais, seja nas cores do cabelo ou no comprimento das saias. A Conomi.jp é apenas uma das marcas locais que vende online para todo o Mundo peças inspiradas nos uniformes escolares e na ‘manga’. Para os rapazes, o estilo preferido é o da série ‘Tenjho Tenge’, para as meninas o de ‘Sailor Moon’.
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