Um treinador de futebol dizia ser psicólogo, mas abusava de menores com outros elementos da seita 'Verdade Celestial'
As sequelas nos corpos e nas mentes de nove menores ainda estarão longe de sarar, mas a 25 de junho de 2015 terminaram os abusos de que eram alvos recorrentes, pois nessa data a Polícia Judiciária de Setúbal deteve um grupo de pedófilos que, a coberto daquilo que diziam ser ‘rituais de purificação’ da falsa seita Verdade Celestial, violavam crianças e adolescentes, chegando a fazê-lo aos próprios filhos.
À frente do grupo de cinco homens e três mulheres que cometeram os abusos numa quinta em Palmela estava R., um homem de 35 anos que foi treinador de futebol em escalões de formação, o que facilitava o contacto com menores, e que depois se dedicou a fazer consultas, na qualidade de psicólogo clínico, mesmo sem ter qualquer habilitação, além de ser, enquanto "representante divino na Terra", o ‘mestre’ da Verdade Celestial, ao qual todos os demais deviam obediência, tendo a possibilidade de definir em que consistiam os ‘rituais de purificação’ e quem nestes podia participar.
A investigação às atividades do grupo de pedófilos apurou que os abusos a menores começaram quando R. ainda residia em Setúbal, com a mulher e os dois filhos, que têm agora nove e quatro anos, e também com o amigo D. e o filho deste, que tem agora sete anos e foi a principal vítima. Mas o facto de o casal estar desempregado, tendo apenas o salário do amigo, empregado de um supermercado, levou a que todos aceitassem o convite da namorada de um primo do ‘mestre’ para viverem num anexo da quinta dos pais dela.
O que sucedeu nesse local entre janeiro de 2014 e julho de 2015 leva a que quatro homens estejam em prisão preventiva e a que eles, outro homem e três mulheres vão responder por mais de 400 crimes, desde abuso de crianças e ato sexual com adolescentes a pornografia de menores e lenocínio agravado. Igualmente requerida na acusação elaborada pelo Ministério Público de Setúbal está a inibição do exercício das responsabilidades parentais aos dois homens que não só abusaram sexualmente dos filhos como permitiram que outras pessoas o fizessem.
Sem acusação ficou o primo do ‘mestre’, apesar de ter chegado a ser constituído arguido, tal como a namorada que deu acesso à quinta. Embora as explicações escolares que ambos davam naquela zona da Margem Sul do Tejo possam ter facilitado o contacto de R. com menores, não foram encontrados indícios de envolvimento nos crimes.
ABUSOS SEXUAIS
À imagem das seitas norte-americanas e europeias em que o líder mantém relações sexuais com mulheres e menores da sua comunidade de fiéis, também o dia a dia da Verdade Celestial conciliava orações e partilhas de experiências com um elevado grau de promiscuidade sexual, quase sempre dirigida às crianças e aos adolescentes de quem o ‘mestre’ ganhava confiança e que atemorizava com ameaças que iam da necessidade de serem protegidos de espíritos malignos à premonição de acidentes em que estariam envolvidos.
Os menores eram convencidos de que tinham de ser ‘purificados’, num ritual que envolvia três tipos de abuso. Na maioria dos casos era-lhes feito sexo anal, tendo a cópula sido realizada mesmo aos mais novos. Também eram coagidos a fazer sexo oral a adultos – alguns dos quais masturbaram e fizeram sexo oral às crianças e adolescentes -, e noutras ocasiões estes ejacularam no corpo dos menores. Ponto assente no grupo de pedófilos era que o ‘elemento purificador’ era o pénis e que as vítimas deviam ter menos de 14 anos, "por serem inocentes e puras".
Mesmo assim, o ‘mestre’ da Verdade Celestial sodomizou um adolescente, irmão mais velho de um rapaz de quem fora treinador de futebol. Aproveitando as consultas de psicologia, pelas quais cobrava cinco euros, em que o jovem expôs dúvidas quanto à sexualidade, convenceu-o de que ter relações consigo permitiria partilhar "energias positivas" e seria a única forma de "satisfazer os pedidos dos anjos" para que não lhe sucedesse um grave acidente de viação. Depois, juntou outros três homens do grupo, que lhe fizeram sexo anal e outros atos, tal como na semana seguinte chamou N., uma jovem maior de idade que se juntara à comunidade - tal como outra, cinco anos mais velha - e observou enquanto os dois fizeram sexo.
Noutra ocasião, a mesma jovem manteve relações sexuais com o irmão mais novo do adolescente, tendo o rapaz estado também presente quando N. fez sexo oral de forma alternada ao ‘mestre’ e a A., de 28 anos, que fora o primeiro adulto recrutado e chegou a masturbar o seu irmão mais velho. O líder da ‘Verdade Celestial’ também ordenaria que o rapaz e a jovem se despissem, tendo esta tentado penetrá-lo com um vibrador, sem o conseguir.
Outro rapaz, então com 11 anos, que ia à quinta para receber explicações e consultas, foi convencido por R. de que seria o futuro mestre da seita e de que o seu pai era assolado por demónios. Numa sessão, o falso psicólogo vendou os olhos do menor, que entretanto se despira, e espalhou-lhe algo no corpo, garantindo que as mãos de um anjo estariam a tocar-lhe. Nas seis noites em que o rapaz dormiu na quinta sucederam-se abusos e exposição a imagens pornográficas com menores, sem que nunca o tenha conseguido penetrar. O silêncio da criança foi garantido com a ameaça de que todos seriam sacrificados se revelasse o que acontecera.
Também o seu irmão mais novo, então com nove anos, assustado com supostos sons demoníacos que R. tinha no seu telemóvel, foi acariciado nas nádegas e genitais pelo ‘mestre’ e por A. numa noite em que o rapaz pernoitou na quinta de Palmela.
RECRUTADOS ONLINE
A criação de dezenas de perfis no Facebook foi a forma que R. encontrou para fomentar encontros entre pedófilos e menores de idade, recrutando novos elementos para a ‘Verdade Celestial’. Presença permanente tornou-se A., que o ‘mestre’ foi buscar de automóvel a Lisboa, possibilitando-lhe logo na primeira noite abusar de um primo dos donos da quinta, então com 11 anos, que acariciaram e masturbaram. Mas o menor conseguiu que saíssem do quarto e nunca mais dormiu naquele lugar.
A internet também permitiu o ‘recrutamento’ de C., de 40 anos, que visitou a quinta pela primeira vez em setembro de 2014 e nessa mesma noite fez sexo anal ao filho de D., enquanto o ‘mestre’ evitava que este fizesse barulho. Ao novo membro da Verdade Celestial foi dito que aquela era uma rede internacional que incluía elementos da Polícia Judiciária e da PSP.
C. seria detido a 19 de fevereiro de 2015 por crimes de pornografia de menores, estando desde então em prisão preventiva, mas não sem antes ter levado à quinta B., de 31 anos, que conhecera graças a um site de encontros para homossexuais. Numa das conversas entre o novo elemento e o ‘mestre’, em que o primeiro se queixa de que Portugal era um país "fechado" e "quadrado" e o segundo critica atitudes "muito apaneleiradas" de C., discutiram a possibilidade de cada um engravidar a companheira do outro e viverem juntos, sem saberem "quem era o pai de quem", mas rapidamente redirecionaram a troca de mensagens para os abusos a que o primeiro planeava submeter o filho de D.
Numa conversa posterior a B. ter consumado os atos pedófilos com esse menor, fantasiou com o que iria fazer ao primogénito do ‘mestre’, tendo este admitido que talvez um dia o "emprestasse", embora esse fosse também o objetivo de A., que fora viver para a quinta. B. argumentou que a arranjar ‘macho’ para a criança, então com sete anos, seria melhor "um como deve ser do que um gay". Nessa altura o menino fora já abusado pelo próprio pai, na presença do irmão mais novo e da mãe, que está por isso acusada de abuso sexual agravado.
"Homens como nós há um num bilhão (sic)", garantiu um dos elementos do grupo pedófilo numa das trocas de mensagens. Talvez seja verdade, mas ainda assim seriam um num bilião a mais.
PERÍCIAS EVIDENCIAM "PERSONALIDADES MALFORMADAS"
As perícias da Unidade de Telecomunicações e Informática da Polícia Judiciárias às conversas entre os arguidos R., D., B. e A. evidenciam, segundo a acusação do Ministério Público, "as suas personalidades malformadas e totalmente desconformes com a ordem social, a moral e o direito". Também há referência às mazelas que os abusos provocaram nos menores, dois dos quais, filhos do ‘mestre’ da Verdade Celestial, à guarda da sua mulher, também ela acusada de um crime de abuso sexual.
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