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Pai com intervalo de 15 em 15 dias

É muito difícil dar a uma criança 15 dias concentrados nalgumas horas”. É assim que se sente Stephen Perrot, em relação ao seu filho, Kyran, de três anos e meio. Separado há dois anos, ainda não conseguiu chegar a um acordo com a mãe da criança sobre a guarda da mesma, pelo que só vê o filho sábado ou domingo, em fins-de-semana alternados: “Vou buscá-lo de manhã. Se estiver bom tempo, dá para fazer tudo e mais alguma coisa”. Caso contrário, pai e filho ficam confinados às quatro paredes da casa e à televisão: “No outro dia choveu o tempo todo. Acabámos por ficar em casa. Não quis ver nenhum dos filmes que tinha trazido para ele. Só outros que não eram para a idade dele”.

03 de junho de 2007 às 00:00

Não é fácil fazer planos, já que o dinheiro é pouco e o tempo tem sido traiçoeiro. Por outro lado, Stephen nem sempre consegue acertar nas vontades do filho. “Nunca sei como é que ele vai estar”, explica. “Posso ter pensado numa saída e ele afinal quer ficar em casa. Estamos demasiado tempo separados para o obrigar a fazer uma coisa que ele não quer”.

Os 15 dias que Stephen passa sem ver Kyran dividem-se em duas partes: ressaca e antecipação. Mas cada vez mais tenta evitar projectos complicados, pois o filho, na verdade “quer é brincar” e que “o pai esteja ao pé dele”. “Ele quando está comigo, quer é brincar”, explica, “até porque eu tenho um lado muito puto”. Stephen tem cinco irmãos mais novos, o que lhe deu muita experiência com crianças: “Sou pai, amigo, animador cultural” mas Kyran é ainda muito novo para determinados programas. O miúdo “pede para ir ao cinema, mas é impossível porque ele não pára cinco minutos quieto. Também pede para ir à bola, mas não dá”, conta Stephen.

Na impossibilidade de fazer o que tinha pensado previamente ou de corresponder às expectativas nem sempre realistas de Kyran, pai e filho acabam por fazer programas mais simples mas que enchem as medidas da criança: bola, jardim e dvd. “Para mais, o pai sente-se tentado a fazer-lhe as vontades: “Estamos tão pouco tempo juntos que, ao fim de não-sei-quantas birras, acabo por ceder. Por exemplo, comigo, sestas é mentira. Paciência: tem muito tempo para dormir quando está com a mãe”.

Para Stephen, actualmente, o grande objectivo é conseguir que o tribunal autorize o filho a passar o fim-de-semana inteiro com ele, pois, como ele explica “15 dias é uma eternidade para uma criança”. Com a idade que tem, Kyran está em fase de mudança rápida, o que implica que, a cada vez que está com o pai, a agitação é grande e precisa de um tempo de adaptação. Conclusão: “No momento em que o miúdo começa a relaxar e encostar-se no sofá, é hora de levá-lo de volta”.

"FICA UM VAZIO"

Para os pais separados, a hora do regresso é a mais difícil. Esforçam-se por não dar parte de fracos, a fim de não fazer sofrer ainda mais os filhos, mas quando os entregam à mãe e ficam sós de novo, muitas vezes não conseguem suster as lágrimas. “Depois de o levar, é quase como se não tivesse acontecido, como se fosse uma ilusão”, desabafa Stephen. “Fica um vazio…”

“Vazio” é também a expressão encontrada por Pedro Cruz para definir o sentimento que o assalta ao domingo à noite quando se encontra no automóvel a sós com os seus pensamentos e as recordações do fim-de-semana passado com o Vasco, de seis anos. “Ao princípio era terrível. Fartava-se de chorar, não queria ir... Agora é ele próprio que diz “Pai, não vou chorar porque adorei o fim-de-semana”.

Como para todos os pais separados, os primeiros tempos não foram fáceis para Pedro. Quando se aproximavam os dias em que ia estar com o filho, fazia mil e um planos para que o fim-de-semana fosse em cheio. Mas ao fim de uns meses e de alguma reflexão, percebeu que “não tinha que fazer grandes programas” com o filho. “Mais importante é viver o dia-a-dia”, explica, “recriar os rituais que tínhamos quando vivíamos juntos”. Foi difícil para ambos abandonar as rotinas de um quotidiano vivido até então muito intensamente: “Eu era hiperpresente na vida do Vasco. Era eu que o levava à escola, ia buscá-lo... Ressentimo-nos muito os dois”. Daí que, ao princípio o pai tenha sentido necessidade de “compensar” a criança. “Pensei muito e vi que não era isso que ele precisava”, explica, embora admita que teve de fazer algumas cedências. Uma foi o futebol, que detestava. “Mas é a felicidade dele. E quer sempre que eu jogue. Acabo por ser eu com uma data de putos. Dá-me literalmente cabo do cabedal”, relata. Outra das cedências de Pedro foi a Playstation. “Tive de me render: é a brincadeira dos miúdos do séc. XXI. Dou por mim a jogar também”. Sempre com regras, já que o pai de Vasco tem consciência de que estas são essenciais para que o filho se sinta seguro. Aos rituais, que proporcionam a ambos “momentos de grande tranquilidade”, tenta contrapor algumas rupturas com a normalidade, como no último fim-de-semana, em que levou o Vasco a casa de amigos. “Para ele foi o máximo”, conta. “Brincou, divertiu-se e deitou-se tarde”.

Mas a brincadeira que ambos preferem é a das “sessões de caretas”. Pai e filho fotografam-se um ao outro fazendo as caretas mais feias de que se lembrem. Riem às gargalhadas e já têm “uma colecção de caretas” enorme. Para a posteridade…

FIM-DE-SEMANA SI, FIM-DE-SEMANA NÃO

Bruno Carriço, de 33 anos, tem duas filhas e, de há um ano a esta parte, desde que se separou, está com elas fim-de-semana sim, fim-de-semana não. “A Irene [a mais velha] já me telefonou a dizer que domingo é a festa das crianças na Baía de Cascais”, conta. O programa já está feito: “Sábado, se estiver bom tempo vamos à praia e domingo temos a festa”, explica Bruno, que, à semelhança de Pedro, teve muita dificuldade em deixar de viver o dia-a-dia com as filhas. “Elas são muito ligadas a mim”, explica. “No caso da Irene, assisti ao parto e até fui eu que cortei o cordão umbilical. Sempre mudei fraldas, dei banho, dei de comer”. Rotinas que, “quando estamos a vivê-las parecem chatas”, mas que, “agora sem elas, fazem imensa falta”. Para Bruno, há sempre programa para quando está com as filhas: “Fim-de-semana com o pai, eu já sei: é festa”. Festa para as crianças e para o pai, que se diverte tanto como as filhas. E exemplifica: “Vamos ao jardim, ao Monsanto, à praia. Já estamos a programar ir ao festival do Noddy”.

O pai de Irene (sete anos) e de Luísa (três) faz questão de visitar as meninas durante a semana, já que “15 dias é muito tempo” para quem estava habituado a estar sempre com elas. O esquema de visitas foi combinado com a ex-mulher por mútuo acordo e Bruno não pediu a guarda conjunta por uma questão de conveniência das próprias filhas, que frequentam uma escola mais próxima da residência da mãe. Para ele, “não fazia sentido estar a introduzir mais um factor de instabilidade na vida das miúdas; já bem basta a separação.” Preenche os fins-de-semana com muito divertimento, “gelados, brincadeira, saídas”, até porque “por vontade delas passavam os dias frente à televisão”. Mas não esquece as rotinas e a escola: “Ao fim da tarde de sábado, a Irene faz os trabalhos. Depois, deita-se às nove. A Luísa às oito e meia está na cama”. E confessa: “Às sete da manhã, já estão a correr pela casa toda. Nos fins-de-semana em que elas estão comigo quase não durmo!”

Stephen só está com o filho Kyran duas vezes por mês. Numa idade em que as crianças mudam tão rapidamente, torna-se ainda mais difícil para ambos estabelecer rotinas a dois. Os dias que se seguem à visita acabam por ser os mais difíceis para o jovem pai, que os classifica como “de ressaca”. Quando a dor começa a atenuar, inicia-se a fase de “antecipação”, durante a qual a ansiedade é grande.

Bruno acredita que “as meninas estão sempre mais ligadas ao pai”. Pelo menos é o caso de Irene e Luísa, as suas “princesas”. Actualmente a viver em casa da mãe, Bruno conta com a ajuda desta nos fins-de-semana em que recebe as visitas das filhas. “Nessas alturas, a microfamília que formamos junta-se mais”, explica. Mesmo assim, o jovem pai pretende arranjar uma casa para ele e para as filhas o quanto antes.

Longe de Vasco no dia-a-dia, já que actualmente moram em cidades diferentes, Pedro guarda as fotos do filho na carteira e colecciona as imagens das caretas que ambos fazem ao despique quando estão juntos.

No ano passado, Pedro levou Vasco à exposição da Guerra das Estrelas, o que constituiu para ambos uma experiência gratificante: “Foi como introduzi-lo no meu próprio universo”, explica Pedro, “ele adorou e até hoje fala nisso”. Vasco tem 6 anos e o pai 38.

PSICÓLOGO FALA EM ALTERAR "O RUMO DAS COISAS"

O psicólogo especializado em crianças Paulo Sargento é de opinião que “mais importante que a quantidade de tempo que se passa com o pai ou com a mãe, é a qualidade desse mesmo tempo”. Face à tendência do nosso Direito da família em atribuir sistematicamente a guarda das crianças à mãe, há que, no entender do especialista, “tentar mudar o rumo das coisas”, já que não é líquido “que a mãe seja cuidadora por natureza” enquanto o pai é para a brincadeira ou para as questões materiais.

Para Sargento, é essencial que ambos os pais ultrapassem as suas diferenças no sentido de estabelecer “um projecto de paternidade comum para as grandes questões educacionais, nem que para isso seja preciso fazer intervir a figura do mediador familiar”.

A figura do pai no imaginário do filho que o vê pouco é “um pau de dois bicos”, explica o psicólogo. “Se o pai brinca muito, é preferido mas se é um chato que não deixa fazer nada vai haver uma resistência da criança em estar com ele.”

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