Quem disse que matar o tempo não é uma boa forma de ganhar dinheiro? Conheça alguns 'hobbies' que dão prazer e ainda ajudam a compor o orçamento familiar.
Nos tempos livres, José de Sousa vai para a praia com um instrumento que parece uma mistura de enxada e rato de computador. Caminha junto ao mar guiado pelo estranho objecto, pára aqui e acolá, concentrado e de cabeça baixa, os olhos a focar a areia à sua frente.
Quando a maré baixa, e deixa atrás de si um longo areal, José sai em busca de tesouros perdidos, de ouvido atento aos barulhos que a sonda – mantida a poucos centímetros da superfície da areia – transmite aos auscultadores. É esse o passatempo de José de Sousa: procurar preciosidades perdidas há séculos ou milénios com um detector de metais. Sempre que o detector emite um bip-bip mais rápido, afasta cuidadosamente a areia. E à superfície vem uma lata vazia, uma carica ou um pouco de papel de alumínio de gelado. Mas quando Neptuno, a lei da probabilidade ou o destino assim entendem aparece uma verdadeira jóia.
Este arqueólogo já desenterrou moedas, anéis, ouro, prata, cavilhas de bronze, pulseiras e estatuetas; de simples ferramentas da idade do bronze a instrumentos científicos da época dos descobrimentos. Arterfactos perdidos no tempo que voltam à luz do dia, após séculos ou milénios de descanso. Moedas? José de Sousa perdeu-lhes a conta, “já encontrei milhares, muitos milhares“. Há dois anos enconcontrou a peça de que mais se orgulha. E que fascina a comunidade científica: um touro de bronze, com menos de 20 cm de comprimento, peça única da cultura ibérica pré-romana.
Um museu ou coleccionador dariam dezenas de milhares de euros por esta estatueta. Mas este zeloso funcionário da câmara de Portimão sabe que, por lei, tudo o que se esconde no subsolo pertence ao Estado.
Cumpridor, José de Sousa faz relatórios que envia para as autoridades competentes. “Sou só o fiel depositário das peças“ até que sejam entregues ao museu de Portimão, “que deverá abrir em breve“, revela. Até lá, todo o espólio encontrado nas praias está a ser catalogado. “Este mês de Junho inauguramos uma exposição no Museu de Arquelogia em Lisboa“, conta. Vai valer a pena passar por lá.
PLANTAS E 'VELHARIAS'
O passatempo da Marta leva-a para as serras, de Norte a Sul do país. Gosta de passear e aprendeu com a avó a reconhecer as plantas e a entender os seus ciclos de vida. Nas serras, enquanto passeia, recolhe o produtos que depois vende nas ervanárias da Baixa, em Lisboa. Enquanto passeia apanha zimbro, salva, sabugueiro e muitas outras plantas que, à vista desarmada de conhecimentos, parecem ervas daninhas. Trabalha num banco e o ordenado “não é mau“. “Mas seria um desperdício deixar aquela riqueza ali ao Deus dará“. Além disso, assegura, nunca danifica as plantas. “Sou ecologista“. E a ecologia pode valer umas centenas de euros ao fim do mês.
É normal os passatempos de uns coincidirem com o ganha-pão de outros. A pesca pode ser um 'hobby' ou uma profissão, ou uma coisa intermédia, quando serve de complemento ao orçamento familiar. Por alguma razão, sempre que o Instituto Nacional de Estatística regista um aumento do desemprego, cresce também o número de pessoas que regressam à agricultura.
Aos 56 anos, Bob tem o melhor de dois mundos: um trabalho que lhe dá gozo e um passatempo que rende dinheiro. Dá aulas em Londres mas vem frequentemente a Lisboa, onde tem um apartamento. Aqui compra antiguidades que depois revende. Em Fevereiro comprou uns talheres de prata na feira da ladra, sujos e em mau estado. Mais tarde, identificou o brasão e vendeu-os em Inglaterra à família a quem noutros tempo pertenceram, “por alguns milhares de euros“. A sua casa está cheia de estátuas e estatuetas, máscaras africanas, espingardas, biombos japoneses e tabuleiros, bules de chá indo-portugueses, pratos, pratas, alguma arte sacra e uma magnífica colecção de pequenos cavalos de madeira. Aponta um cavalo de madeira avermelhada e talha dourada. “Esta peça vale mais de oito mil libras. Encontrei-a num armazém. Foi mais caro o restauro do que o cavalo“, explica.
VENDER TAPETES E POEMAS
Tirando a caça e a pesca, entre outras actividades tradicionais, a transformação dos tempos livres em 'hobbies' organizados demorou a chegar a Portugal. O aeromodelismo, o golfe, o ténis, o 'surf', os desportos de Inverno, a fotografia e o vídeo, o parapente, o 'trekking' ou a cultura de bonsais eram até há pouco mais de uma década para elites ou excêntricos.
As coisas melhoraram um pouco, mas a realidade nacional continua longe da sociedade de lazer. O principal passatempo de muitos portugueses continua a ser passar o domingo dentro do carro, a dormitar ou fazer croché. A não ser que não se tenha carro, aí passeia-se pelos jardins públicos, joga-se cartas, dominó ou conta-se pombos. O fascínio pelo comércio é tipicamente nacional. Tanto assim que os portugueses conseguem fazer do diferencial entre o valor de compra e da venda um verdadeiro passatempo.
Jorge é advogado mas não resiste a largar os códigos pelo prazer de comprar barato e vender caro. Quando começou, ia visitar casas particulares no Sul da China. Objectivo: encontrar tapetes antigos. Após a compra, enviava-os por correio expresso para Londres, para avaliação, e colocava-os a leilão. Não o faz pelo dinheiro, o que conta é o prazer. Na Sotheby’s, Christies ou Ebay, os tapetes comprados por uma mão-cheia de renminbis são vendidos a valores que podem atingir os 10 mil euros na Internet.
Há momentos em que um 'hobby' vira ganha-pão. A vizinha que começa a fazer‚ croquetes para fora’ depois do marido se reformar; as amigas que gostavam de organizar festas e depois montam uma empresa; os rapazes que tinham‚ jeito para a bola’ e acabam a ganhar a vida nos relvados. Ou até o coleccionador de arte amador que se torna galerista. É quase sempre possível transformar um passatempo numa actividade económica e, muitas vezes, as fronteiras esbatem-se. Pintar, fazer compotas, consertar carros velhos, fazer cerâmica, desenhar páginas de Internet ou bordar, tudo pode converter--se em dinheiro. Até a poesia, um dos 'hobbies' mais populares em Portugal, pode render. José Cardoso, arquitecto reformado, já ganhou dezenas de viagens, televisores e outros prémios com as suas quadras. Num concurso do 'Jornal de Notícias' chegou a receber, sob vários pseudónimos, seis dos dez primeiros prémios.
Manuel chega a capturar dezenas de quilos de pescado num fim-de-semana com o seu barco de pesca de alto mar. É técnico superior e não pesca por necessidade. Mas o 'hobby' obriga-o a ser comerciante de peixe: o que não cabe na arca congeladora, vende a um restaurante. Claro que a sua actividade é ilegal. O Estado não gosta que se tenha passatempos não regulamentados. Há licenças de pesca, de vela, de campismo e até de parto. E quando os passatempos rendem dinheiro, o Estado quer a sua percentagem. Quem não tem licença, paga multa. Mas ainda assim, parece que rende...
A ORIGEM DO 'HOBBY'
A palavra 'hobby', que há muito entrou na língua portuguesa, designava um pequeno cavalo ou pony. Mais tarde passou a ser usada no sentido de brinquedo, o famoso cavalinho de madeira. Até que, em finais do século XVIII, adquiriu o seu significado actual: o de passatempo favorito. Tratava-se pois de uma actividade, como registavam os dicionários da época, “que não leva a lado nenhum“. Desde a Revolução Francesa, com o desaparecimento da aristocracia – que detinha o monopólido do ócio – os 'hobbies' democratizaram-se. Fazer coisas que não levam a lado nenhum já não é um privilégio de aristocratas e governantes. Embora às vezes pareça.
PASSATEMPOS FORA-DA-LEI
Mas quando o 'hobby' dá dinheiro, cresce a tentação de não se cumprir as leis. E nos 'hobbies', como em todas as profissões, há bons e maus amadores. Francisco também sai, sempre que o horário de trabalho o permite, à descoberta de tesouros com um detector de metais. Mas não tem a necessária autorização do Instituto Português de Arqueologia (o uso de detectores para descobrir artefactos é proibido por lei, salvo autorização do IPA).
É um caçador ilegal de tesouros e não parece nada preocupado por não ser um dos 20 exploradores devidamente autorizados. “Esses têm que preencher papelada sempre que encontram alguma coisa e depois têm que entregar tudo ao Estado. Acha-me com cara de burro para ir entregar fios de ouro à GNR?“. E os artefactos antigos? “Esses sim, acho bem que devem ir para um museu“, diz sem grande convicção. “Em casa tenho caixas de sapatos cheias de fios de ouro, alianças e brincos“. No Verão, ao fim do dia, percorre as praias mais turísticas e em média, encontra “mil e quinhentos a dois mil euros por mês em moedas e outros valores“. Se for apanhado, pode ter que pagar uma multa de alguns milhares de euros, além de confiscarem o equipamento e os achados. Foi o que sucedeu há cinco meses a uns cidadãos espanhóis que ‚batiam’ as praias na zona de Monte Gordo com detectores de metais. Quem não quiser correr esse risco, pode candidatar-se a fazer parte do grupo Ipsiis, coordenado por José de Sousa, ou estabelecer directamente um acordo com o CNANS (Centro Nacional de Arqueologia Náutica e Subaquática) que emite as licenças.
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