Histórias de paparazzi que apanharam políticos de calções na praia e até um presidente nu na varanda do palácio.
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A passearem no areal algarvio, como era seu costume, na manhã de 1 de julho de 1986, Mário Soares e Maria Barroso foram abordados por uma morena em topless – naquele tempo, mulheres com os seios à mostra eram uma raridade. A modelo holandesa Lola Conchita tinha sido contratada pelo semanário ‘Tal & Qual’ para se dirigir à praia do Vau, onde Soares tinha a sua casa de férias, e cumprimentar o rosto mais conhecido dos portugueses desde o 25 de Abril de 1974. A fotografia desse momento, que seria publicada na primeira página do jornal, mostrava o casal a reagir com alguma naturalidade.
A nudez tem sido o tema mediático mais óbvio para explorar nas férias das figuras públicas. Numa varanda do Forte de Brégançon, desde a década de 60 a residência estival dos presidentes de França, no verão de 2001, Jacques Chirac foi retratado a fumar um cigarro – tão nu como Adão. A imprensa francesa, tradicionalmente circunspecta em relação à vida privada dos ocupantes do Palácio do Eliseu, não publicou a foto. Pelo contrário, rompendo a velha tradição de não comprometer a Família Real Britânica, alegando que as imagens já tinham sido difundidas na internet, o ‘The Sun’ mostrou um nu príncipe André agarrado a uma jovem sem trajes, numa "noite louca" de agosto de 2012, em Las Vegas, em que o seu grupo esteve a divertir-se, na suite de um hotel, com o ‘strip poker’ (jogo em que, por cada derrota, os participantes tiram uma peça de roupa).
As férias dos políticos são espiadas pelos paparazzi, vigiadas pela opinião pública e, assim, facilmente usadas como arma política pelos adversários e, muitas vezes, canceladas ou abreviadas – por tragédias, imprevistos de agenda ou para monopolizar a atenção dos holofotes mediáticos. Se o presidente Cavaco Silva decide fazer uma comunicação ao País sobre o Estatuto Político-Administrativo da Região Autónoma dos Açores, no último dia de julho de 2008, é óbvio que todos os dirigentes partidários, antes e depois desta intervenção, abandonam a praia, cancelam viagens, interrompem a leitura de um qualquer romance.
Muletas de Sócrates
Desequilibrando-se ao esquiar numa estância suíça, a 29 de dezembro de 2005, após o período de pausa natalícia, José Sócrates surgia amparado em muletas durante a campanha eleitoral de Mário Soares nas Presidenciais de 2006. Ainda hoje, no âmbito da Operação Marquês, as suas férias são escrutinadas. O ex-governante foi confrontado com a acusação do Ministério Público de ter estado, entre 2008 e 2014, no Algarve, em Menorca, em Formentera, em Creta e na Suíça à custa de Santos Silva. Na sua defesa, além de afirmar que, no verão, se juntava com aquele amigo "há 20 ou 25 anos", explicava: "No ano passado, [2014] foi o Carlos Santos Silva quem pagou a casa. Valerá a pena dizer que eu paguei todos os jantares?"
Antes, tinha surgido outra celeuma relativamente a Durão Barroso, quando o então primeiro-ministro – um dos mais reconhecidos veraneantes de Moledo – foi mergulhar, na passagem de ano de 2003, para a ilha brasileira do Capítulo, que o empresário João Pereira Coutinho possuía em Angra dos Reis, viajando no avião Falcon
do milionário – que chegou a ser considerado o quinto português mais rico.
Os amigos a custearem o descanso dos governantes não é um exclusivo português: desde o presidente francês Nicolas Sarkozy ser acusado pela oposição por ter viajado no jato privado de um grande empresário quando foi ao Egito até ao estadista russo Vladimir Putin que, como denunciou o seu antagonista Alexei Navalny, ao contrário do que se pensava, esteve numa opulenta mansão registada em nome de um amigo, onde não
faltavam um porto de mar e um
heliporto.
País a arder
Uma das interrogações mais frequentes é saber se um governante deve ou não continuar de férias quando o País está a ser fustigado pelos fogos florestais. Em 2005, por exemplo, José Sócrates foi muito criticado por prosseguir o safari no Quénia durante uma grande vaga de incêndios, mas sustentou que o vice-primeiro ministro, António Costa, o tinha informado que poderia continuar a repousar. Quando voltou a S. Bento, na última quinzena de agosto, o seu número dois foi, então, para o Algarve – mas também seria contestado, pois Costa era o ministro da Administração Interna e o território nacional continuava a arder. Apesar disso, de acordo com o barómetro do ‘Expresso’, no mês de setembro, 61% dos inquiridos concordava com o facto de Sócrates não ter interrompido as férias.
Doze anos depois, após censuras ao Executivo de António Costa por causa dos grandes incêndios de 2017 – o de Pedrógão Grande, em junho, que matou 66 pessoas, e o insólito domingo de 15 de outubro, com 525 ocorrências simultâneas e mais 55 mortos –, a ministra da Administração Interna, Constança Urbano de Sousa, proferiu uma gaffe, a 18 de outubro: "Ir-me embora seria o caminho mais fácil; ia ter as férias que não tive." No dia seguinte, perante a onda de protestos, apresentava a sua demissão – e a revista ‘Sábado’ fazia capa com uma fotografia de uma paisagem em cinzas e duas palavras: "Boas férias"
Cavaco no coqueiro
Um clássico do jornalismo é mostrar ao cidadão comum os seus governantes, que passam o resto do ano bem engravatados, em trajes balneares. Só em relação a antigos primeiros-ministros, há uma vasta galeria: Pinto Balsemão a jogar futebol na areia; António Guterres, terminada a jornada à beira-mar, a fechar a cadeira articulada; Passos Coelho apanhado a sair do supermercado com os sacos de plástico das compras.
Mas nada se compara ao impacto de Cavaco Silva na praia do Tarrafal, em S. Tomé e Príncipe, no mês de agosto de 1990. Contrariando a postura austera que os portugueses tinham dele, o então primeiro-ministro era retratado, em fato de banho, a trepar com destreza um coqueiro – uma fotografia que logo
se popularizou (se fosse hoje,
dir-se-ia que a imagem se tornara ‘viral’).
Já algumas das mais emblemáticas poses de Mário Soares, embora parecendo que está de férias, foram captadas em visitas oficiais – como a que surge com um turbante no elefante que o transportaria ao palácio do marajá de Jaipur ou aquela em que, de calções de banho e panamá na cabeça, se sentou em cima de uma tartaruga, nas Seychelles.
‘Vacances avec Salazar’
As férias também podem ser mais traiçoeiras, como as de Gorbachev, em 1991, quando o dirigente soviético, que terminou com o comunismo, foi surpreendido pelo Golpe de Agosto – os ortodoxos do partido aliaram-se ao KGB, formaram uma Junta para assumir o poder no Kremlin e tentarem reverter o curso da Perestroika. Durante os três dias do Putsch de Moscovo (de 19 a 21 de agosto), ficou detido na sua casa de campo na Crimeia – e a figura que ganhou preponderância na resistência ao Bando dos Oito (como seria denominado esse grupo de saudosistas) foi Boris Yeltsin, cujas imagens a falar a uma multidão na capital, em cima de um carro de combate, correram o planeta.
No Verão Quente de 1975, o auge do Processo Revolucionário em Curso (PREC) no nosso país, os protagonistas não devem ter tido qualquer dia de descanso. Só em agosto, o primeiro-ministro Vasco Gonçalves, próximo do PCP, forma o V Governo Provisório (sem membros do PS e do PSD); é divulgado o ‘Documento dos Nove’, a ala militar moderada, apoiada por Mário Soares e Sá Carneiro; em resposta, publica-se o ‘Documento do COPCON’, a estrutura liderada pelo ícone político-militar da extrema-esquerda, Otelo Saraiva de Carvalho; e Otelo escreve uma carta a Vasco Gonçalves, em que lhe diz que "necessita de um repouso muito prolongado".
Mas as ‘férias’ mais curiosas da recente História de Portugal foram as do livro ‘Férias com Salazar’ – que esgotou logo várias edições na sua versão portuguesa. No Forte de Santo António do Estoril, em 1951, Salazar recebeu a jornalista Christine Garnier, ligada aos círculos conservadores franceses. A entrevista, que devia durar algumas horas, esticou-se por meses, passando pela casa de Santa Comba Dão – naquilo que alguns historiadores não hesitam em rotular como uma paixão, mais ou menos platónica, entre o ditador (então com 62 anos) e a loura francesa (ainda nova, nos seus 35 anos, que seria definida pelo entrevistado como um "vendaval de alegria"). As conversas, fotografadas por Rosa Casaco – o inspetor da PIDE (a repressiva polícia política) que, além de ser o responsável pelo assassinato de Humberto Delgado, também tinha dotes para câmaras e objetivas –, resultaram na obra apologética que, em 1952, apareceu nas montras das livrarias parisienses com o título ‘Vacances avec Salazar’.
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